R-CHOP no linfoma difuso de grandes células B do idoso

Sumário
- Por que este é um cenário de raciocínio
- A doença e o prognóstico
- O que o LNH-98.5 mostrou
- O esquema R-CHOP, dose por dose
- O que o POLARIX acrescentou
- Idosos frágeis e a avaliação geriátrica
- Cuidados durante o tratamento
- Quando o R-CHOP não basta
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Checklist final
- Referências
Uma mulher de 68 anos chega ao pronto atendimento com perda de peso, suor noturno e uma massa abdominal palpável. A tomografia mostra conglomerados de linfonodos no retroperitônio e no mesentério. A biópsia por agulha grossa confirma linfoma difuso de grandes células B (LDGCB). Ela mora sozinha, cuida dos netos duas tardes por semana e pergunta, com medo, se na idade dela o tratamento vale a pena. Um colega sugere um esquema mais leve, para não arriscar. A cena é fictícia e foi escrita para ensino.
O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, até seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.
Este texto usa o quadro como cenário de raciocínio clínico para estudantes e profissionais de saúde. O tema é o tratamento de primeira linha do LDGCB, do estudo francês LNH-98.5, que comparou R-CHOP com CHOP em pacientes de 60 a 80 anos, ao estudo POLARIX, que testou o polatuzumabe vedotina no lugar da vincristina. A pergunta que o Dr. Alexei propôs para a série é direta: por que a idade sozinha não deve tirar do paciente a chance de cura? O texto não substitui a diretriz do seu país nem o protocolo do seu serviço. Se você joga o caso do dia no NEXO, sabe que a primeira impressão sobre um paciente pode ser a pista mais enganosa.
Principais pontos
- O LDGCB é um linfoma agressivo e curável, e o objetivo da primeira linha é a cura.
- No LNH-98.5, acrescentar rituximabe ao CHOP em pacientes de 60 a 80 anos melhorou a sobrevida em 10 anos.
- Os autores do LNH-98.5 concluíram que idosos devem ser tratados como jovens, com quimioterapia curativa.
- No POLARIX, o Pola-R-CHP melhorou a sobrevida livre de progressão em relação ao R-CHOP em pacientes com IPI de 2 a 5.
- Em 5 anos, a diferença de sobrevida global no POLARIX não foi estatisticamente significativa.
- Pacientes frágeis existem, mas a fragilidade deve ser medida, e não presumida pela idade.
Por que este é um cenário de raciocínio
O LDGCB é o linfoma mais comum e responde pela maior carga de mortes por linfoma no mundo, segundo a revisão de Barraclough e colaboradores (Barraclough e colaboradores, 2024). Há quase 4 décadas, o objetivo do tratamento é a cura, primeiro com o CHOP e depois com o rituximabe somado ao CHOP. Stegemann e colaboradores lembram que o R-CHOP cura cerca de dois terços dos pacientes (Stegemann e colaboradores, 2022).
A doença atinge todas as idades, e a idade avançada se associa a pior evolução. Isso cria uma tentação: tratar menos quem é mais velho, por medo da toxicidade. O problema é que tratar menos um linfoma curável costuma significar perder a cura. O raciocínio clínico aqui é separar duas perguntas que muitas vezes se misturam. A primeira é se o paciente tolera o tratamento curativo. A segunda é quantos anos ele tem. Só a primeira deve decidir.
A organização do caminho entre a biópsia, a patologia e o tratamento é tema do post sobre linfomas, da hematopatologia à terapia celular. Aqui o foco é a escolha do esquema de primeira linha.
O que torna esse erro fácil de cometer
A paciente da cena parece frágil porque está doente. Perda de peso, febre e cansaço são sintomas do linfoma, e muitas vezes melhoram depois do primeiro ciclo. Avaliar a capacidade funcional no pior momento da doença, sem separar o que é doença do que é fragilidade de base, leva a reduzir o tratamento de quem poderia se curar. Os próprios estudos admitem uma fase prévia com prednisona, de até 7 dias antes do primeiro ciclo, justamente para melhorar o estado do paciente antes da quimioterapia (Hu e colaboradores, 2025).
A doença e o prognóstico
O LDGCB é heterogêneo. Wang e Li descrevem os dois grandes subtipos pela célula de origem, definidos por perfil de expressão gênica: o de células B ativadas (ABC), em cerca de 50 de cada 100 pacientes, e o de centro germinativo (GCB), em cerca de 30 de cada 100 (Wang e Li, 2020). Os mesmos autores lembram que cerca de 40 em cada 100 pacientes têm doença refratária ou recaída depois do R-CHOP, com sobrevida ruim.
O índice prognóstico internacional
O risco individual é estimado pelo índice prognóstico internacional (IPI), que soma pontos para cinco fatores (Stegemann e colaboradores, 2022):
- idade acima de 60 anos;
- capacidade funcional ruim pela escala ECOG;
- estádio de Ann Arbor avançado;
- envolvimento de mais de um sítio extranodal;
- desidrogenase láctica (DHL) acima do normal.
Existe também o IPI ajustado para idade, que permite comparar pacientes de faixas etárias diferentes. O IPI não diz quem deve ou não receber tratamento curativo. Ele estima o risco com o tratamento padrão.
Outros marcadores
Outros fatores podem pesar. Sato e colaboradores mostraram que, numa série japonesa, o LDGCB positivo para o vírus Epstein-Barr do idoso teve evolução pior que o negativo, mesmo na era do rituximabe (Sato e colaboradores, 2014). Chu e colaboradores usaram a própria tomografia de estadiamento para medir a densidade do músculo esquelético: entre 224 pacientes, a densidade baixa previu sobrevida livre de progressão em 5 anos de 60 contra 81 em cada 100, e sobrevida global de 58 contra 86 (Chu e colaboradores, 2017). Curiosamente, nesse estudo, a sarcopenia medida pela massa muscular não previu pior sobrevida global.

O que o LNH-98.5 mostrou
Antes do rituximabe, o CHOP era o padrão. Mohammed e colaboradores lembram que o CHOP e suas variações resultavam em sobrevida em 5 anos tão baixa quanto 26 em cada 100 pacientes com linfoma não Hodgkin agressivo, e que o rituximabe foi o primeiro anticorpo monoclonal quimérico aprovado para o linfoma não Hodgkin, em 1997 nos Estados Unidos (Mohammed e colaboradores, 2019).
O LNH-98.5, do grupo francês GELA, foi o primeiro estudo randomizado a comparar R-CHOP com CHOP. Ele incluiu 399 pacientes de 60 a 80 anos com LDGCB. Com seguimento mediano de 10 anos, a sobrevida livre de progressão em 10 anos foi de 36,5 em cada 100 com R-CHOP contra 20 com CHOP, e a sobrevida global em 10 anos foi de 43,5 contra 27,6 em cada 100 (Coiffier e colaboradores, 2010).
Dois detalhes importam para o raciocínio. O risco de morte por outras doenças, por segundos cânceres e por recaídas tardias foi o mesmo nos dois braços, ou seja, o rituximabe não trouxe toxicidade tardia visível. E as recaídas depois de 5 anos representaram apenas 7 em cada 100 progressões. Os autores encerram com uma frase que resume este post: os achados reforçam a necessidade de tratar pacientes idosos como jovens, com quimioterapia curativa.
Por que um estudo em idosos mudou a prática de todos
É comum pensar que os grandes avanços vêm de estudos em pacientes jovens e depois são adaptados aos mais velhos. No LDGCB, o caminho foi o inverso. O estudo que estabeleceu o R-CHOP foi feito justamente na faixa etária em que a dúvida sobre tratar com intenção curativa era maior, e mostrou que a cura era possível. Essa história é um bom argumento para a conversa com a paciente da cena.
Também vale notar o que o estudo não mostrou. Não houve excesso de mortes por outras causas nem de segundos cânceres com o rituximabe ao longo de 10 anos (Coiffier e colaboradores, 2010). O medo de que o tratamento mais completo cobre um preço tardio maior nos idosos não se confirmou nesse seguimento longo, o que pesa na conversa com pacientes e familiares.
O esquema R-CHOP, dose por dose
O braço R-CHOP do POLARIX descreve as doses usadas hoje em ciclos de 21 dias, num total de 6 ciclos, seguidos de 2 doses adicionais de rituximabe isolado (Hu e colaboradores, 2025):
- rituximabe 375 mg/m² por via intravenosa no dia 1;
- ciclofosfamida 750 mg/m² por via intravenosa no dia 1;
- doxorrubicina 50 mg/m² por via intravenosa no dia 1;
- vincristina 1,4 mg/m² no dia 1, com dose máxima de 2 mg;
- prednisona 100 mg por via oral uma vez ao dia, do dia 1 ao dia 5.
No braço Pola-R-CHP, a vincristina foi substituída pelo polatuzumabe vedotina 1,8 mg/kg no dia 1, e as demais doses foram mantidas. O fator estimulador de colônias de granulócitos foi exigido como profilaxia primária de neutropenia (Song e colaboradores, 2023). Confira sempre a bula e o protocolo do seu serviço.
Rituximabe subcutâneo
O rituximabe também existe em formulação subcutânea. No estudo MabEase, a primeira dose foi intravenosa, de 375 mg/m², e as seguintes foram de 1.400 mg por via subcutânea (Lugtenburg e colaboradores, 2017). A taxa de resposta completa ao fim da indução foi de 50,6 em cada 100 com a via subcutânea e 42,4 com a intravenosa. Os efeitos adversos de grau 3 ou mais foram semelhantes, e as reações no local da injeção foram mais comuns com a via subcutânea, em 5,7 de cada 100. A troca encurta o tempo na cadeira de infusão, o que conta para pacientes idosos que dependem de alguém para levá-los.
O que o POLARIX acrescentou
Barraclough e colaboradores lembram que, por cerca de 2 décadas, vários estudos de fase 3 tentaram melhorar o R-CHOP somando um novo remédio, e falharam (Barraclough e colaboradores, 2024). Stegemann e colaboradores atribuem essas falhas ao aumento de toxicidade, à grande parte de pacientes que não precisa de mais que o R-CHOP e à heterogeneidade molecular da doença (Stegemann e colaboradores, 2022).
O POLARIX foi o primeiro estudo de fase 3 a mostrar ganho de sobrevida livre de progressão contra o R-CHOP. Ele incluiu 879 pacientes de 22 países com LDGCB não tratado e IPI de 2 a 5. Na atualização de 5 anos, com seguimento mediano de 64,1 meses, a sobrevida livre de progressão em 5 anos foi de 64,9 em cada 100 com Pola-R-CHP contra 59,1 com R-CHOP, com razão de risco de 0,77 (Morschhauser e colaboradores, 2025). A sobrevida global teve razão de risco de 0,85, sem significância estatística. Na população expandida, houve 46 mortes relacionadas ao linfoma com Pola-R-CHP e 62 com R-CHOP. A tolerabilidade de longo prazo foi semelhante.
| Estudo | Pacientes | Comparação | Resultado principal |
|---|---|---|---|
| LNH-98.5 | 399, de 60 a 80 anos | R-CHOP contra CHOP | Sobrevida global em 10 anos de 43,5 contra 27,6 em cada 100 |
| POLARIX, 5 anos | 879, IPI de 2 a 5 | Pola-R-CHP contra R-CHOP | Sobrevida livre de progressão em 5 anos de 64,9 contra 59,1 em cada 100 |
| POLARIX, 60 anos ou mais | 629 | Pola-R-CHP contra R-CHOP | Ganho de sobrevida livre de progressão; sobrevida global semelhante |
| POLARIX, Ásia | 281 | Pola-R-CHP contra R-CHOP | Sobrevida livre de progressão em 2 anos de 74,2 contra 66,5 em cada 100 |
| MabEase | 576 | Rituximabe subcutâneo contra intravenoso | Resposta completa de 50,6 contra 42,4 em cada 100 |
O POLARIX nos mais velhos
Uma análise de subgrupo incluiu 629 pacientes com 60 anos ou mais. O ganho em sobrevida livre de progressão apareceu em todas as faixas etárias, e foi maior nos pacientes com 70 anos ou mais, com redução de 37 em cada 100 no risco de progressão, recaída ou morte (Hu e colaboradores, 2025). A sobrevida global foi semelhante. Os efeitos adversos de grau 3 ou 4 ocorreram em proporções parecidas, mas a neutropenia febril de grau 3 ou 4 foi mais comum com Pola-R-CHP, 16,3 contra 7,6 em cada 100, o que reforça a profilaxia com fator estimulador de colônias.
Outras populações
Na subpopulação asiática, com 281 pacientes, a sobrevida livre de progressão em 2 anos foi de 74,2 em cada 100 com Pola-R-CHP contra 66,5 com R-CHOP, e a segurança foi comparável (Song e colaboradores, 2023). Uma série retrospectiva chinesa de 117 pacientes tratados fora de estudo, quase metade sem critérios para o POLARIX, encontrou resposta completa depois de 6 ciclos em 80,6 de cada 100 dos que chegaram ao desfecho, com seguimento ainda curto (Ren e colaboradores, 2025).
Como ler esses números
O POLARIX mostrou menos recaídas, mas não uma diferença significativa de sobrevida global. Parte da explicação é que muitos pacientes que recaem depois do R-CHOP ainda são resgatados com terapias de segunda linha, como o transplante ou as células CAR-T. Para o paciente, menos recaídas significam menos tratamentos de resgate, que são mais tóxicos e caros. A escolha entre os dois esquemas leva em conta o IPI, o acesso ao remédio, a neuropatia prévia e a preferência do paciente. O post sobre recaída de linfoma trata do que vem depois.
Idosos frágeis e a avaliação geriátrica
Existem pacientes que não toleram o R-CHOP completo. A diferença está em como eles são identificados. Storti e colaboradores incluíram pacientes com mais de 70 anos classificados prospectivamente como frágeis pela avaliação geriátrica ampla, e trataram com rituximabe e bendamustina (Storti e colaboradores, 2018). A resposta completa ocorreu em 53 de cada 100 pacientes, e a sobrevida livre de progressão mediana foi de 10 meses. Os autores lembram que, nesse grupo, não há tratamento padrão, e que a sobrevida global mediana costuma ficar em torno de 20 meses mesmo com rituximabe.
Esses números mostram o tamanho da diferença. Um paciente apto que recebe R-CHOP tem boa chance de cura. Um paciente frágil que recebe um esquema adaptado ganha controle da doença por um tempo, mas raramente cura. Classificar alguém como frágil sem avaliar é tirar dele a chance maior.
O que a avaliação geriátrica olha
- Atividades básicas e instrumentais da vida diária.
- Doenças associadas e sua gravidade.
- Estado nutricional e perda de peso.
- Cognição e humor.
- Suporte social e acesso ao centro de tratamento.
- Uso de muitos medicamentos ao mesmo tempo.
Na paciente da cena, a pessoa que cuida dos netos e mora sozinha sugere boa função antes da doença. A perda de peso e o cansaço recentes contam a favor do linfoma, e não da fragilidade.

Cuidados durante o tratamento
Tratar com intenção curativa um paciente mais velho exige atenção aos detalhes que mantêm a dose e o intervalo. A neutropenia é o efeito mais previsível. No POLARIX, a profilaxia primária com fator estimulador de colônias de granulócitos era obrigatória nos dois braços (Song e colaboradores, 2023). Mesmo assim, entre os pacientes com 60 anos ou mais, a neutropenia febril grave foi mais frequente com Pola-R-CHP, o que mostra que a profilaxia reduz o risco, mas não o elimina (Hu e colaboradores, 2025).
A neuropatia periférica é outro ponto. A vincristina e o polatuzumabe podem causar formigamento e perda de sensibilidade nas mãos e nos pés. Na análise dos mais velhos do POLARIX, a redução de dose do polatuzumabe ou da vincristina ocorreu em 5,9 de cada 100 pacientes com Pola-R-CHP e em 10,4 de cada 100 com R-CHOP, e a interrupção ocorreu em cerca de 18 de cada 100 nos dois braços (Hu e colaboradores, 2025). Perguntar sobre quedas, dificuldade para abotoar roupas e constipação em cada consulta ajuda a ajustar antes que o dano se instale.
- Revise o hemograma antes de cada ciclo e oriente o paciente sobre febre.
- Pergunte por formigamento, quedas e constipação.
- Registre antraciclinas recebidas no passado.
- Pesquise hepatite B antes do rituximabe.
Hepatite B e antraciclinas
A subpopulação asiática do POLARIX ilustra um cuidado prático. Pacientes com infecção prévia pelo vírus da hepatite B, definida por anticorpo total positivo, puderam entrar no estudo desde que o DNA viral fosse indetectável por PCR na triagem, e esse grupo representou cerca de 32 a 42 em cada 100 pacientes de cada braço (Song e colaboradores, 2023). Os autores destacam que nem a neuropatia periférica nem a reativação da hepatite B aumentaram com o Pola-R-CHP. O mesmo estudo excluiu quem já havia recebido antraciclinas, o que lembra que a história de tratamentos anteriores precisa ser levantada antes de prescrever doxorrubicina.
Em países onde a hepatite B é comum, a sorologia antes do primeiro ciclo é parte da rotina de qualquer esquema com rituximabe. A conduta diante de um resultado positivo deve seguir o protocolo do serviço, de preferência com apoio da hepatologia.
Como conversar com a paciente da cena
A pergunta dela, se na idade dela o tratamento vale a pena, merece uma resposta com números. Os dados do LNH-98.5 mostram que, em pacientes de 60 a 80 anos, o tratamento com R-CHOP deixou muito mais pessoas vivas em 10 anos do que o tratamento sem rituximabe (Coiffier e colaboradores, 2010). Vale explicar que os sintomas atuais vêm do linfoma, que costumam melhorar com o primeiro ciclo, e que a equipe vai acompanhar de perto os efeitos. Também vale perguntar o que importa para ela: continuar cuidando dos netos é um objetivo concreto, e o plano pode ser montado em torno dele.
A conversa precisa incluir a logística. Quem vai levá-la às sessões, quem fica com ela nos dias de maior cansaço, como ela vai reconhecer febre e a quem vai ligar. Pacientes que moram sozinhos precisam de um plano claro para a semana de menor contagem de neutrófilos. O post sobre incerteza diagnóstica traz estratégias para falar de risco sem prometer certezas.
Quando o R-CHOP não basta
Barraclough e colaboradores lembram que há linfomas de células B agressivos que não são o LDGCB habitual, como os linfomas de alto grau com rearranjos de MYC e BCL2 e o linfoma primário do mediastino, e que esses grupos pedem abordagem própria (Barraclough e colaboradores, 2024). Por isso a biópsia deve ser adequada e a patologia completa antes do primeiro ciclo.
Wang e Li revisam os mecanismos de resistência ao R-CHOP, que envolvem a célula de origem, alterações epigenéticas e vias de sinalização como o receptor de células B, PI3K/Akt, NF-κB e JAK/STAT3 (Wang e Li, 2020). Esses mecanismos explicam por que um mesmo esquema cura uns e falha em outros, e são a base dos estudos com novos remédios.
A avaliação da resposta
A resposta ao fim do tratamento é avaliada por PET-CT. Uma resposta metabólica completa é o melhor sinal de cura. Uma resposta parcial ou uma progressão durante o tratamento mudam o plano e pedem discussão rápida sobre segunda linha. O uso do PET no meio do tratamento é tema do post sobre PET interino no linfoma de Hodgkin, onde ele tem papel mais definido.
Risco de recaída no sistema nervoso central e linfomas com MYC
Uma pergunta que precisa ser feita antes do primeiro ciclo é se o linfoma tem risco de voltar no sistema nervoso central. A recaída no sistema nervoso central é rara, mas grave, e costuma ser precoce, com mediana de cerca de 5 meses. Soares e Ribeiro descrevem o índice mais usado para estimar esse risco, o CNS-IPI, desenvolvido pelo grupo alemão DSHNHL em mais de 2 mil pacientes tratados com R-CHOP (Soares e Ribeiro, 2026). Cada item vale 1 ponto:
- idade acima de 60 anos;
- LDH acima do normal;
- ECOG de 2 ou mais;
- estádio III ou IV de Ann Arbor;
- mais de um sítio extranodal;
- acometimento de rim ou suprarrenal.
Com 4 pontos ou mais, o risco estimado de recaída no sistema nervoso central fica em torno de 9 a 10 em cada 100, contra cerca de 5 no risco intermediário e 1 no baixo. Os autores lembram outros sítios associados a risco maior que não entram no índice, como testículo, mama, medula óssea, pericárdio e seios paranasais. A idosa com doença avançada, LDH alta e vários sítios extranodais pode somar pontos rápido, e é por isso que a conta deve ser feita no estadiamento.
A profilaxia é um campo de dúvida. O metotrexato intratecal e o metotrexato sistêmico em dose alta foram os mais estudados, mas a revisão mostra resultados conflitantes: num estudo retrospectivo com 2.267 pacientes de alto risco, a recaída foi de 8,4 em cada 100 sem profilaxia e de 9,1 em cada 100 com metotrexato em dose alta. Parte das recaídas pode vir de doença oculta já presente no diagnóstico, que passa despercebida porque ressonância e exame do líquor não são feitos de rotina no estadiamento. A decisão é individual e precisa pesar a função renal e a fragilidade, o que pesa muito na paciente idosa.
A outra pista é o MYC. Os chamados linfomas duplo-hit têm rearranjo de MYC junto com rearranjo de BCL2 ou de BCL6 detectado por FISH, e estão associados a mais recaída no sistema nervoso central. Na quinta edição da classificação da OMS, os casos com rearranjo de MYC e BCL2 formam a entidade DLBCL/HGBL com rearranjos de MYC e BCL2, e os casos com MYC e BCL6 sem BCL2 saíram dela e passaram a ser classificados como subtipo de LDGCB sem outra especificação ou como HGBL sem outra especificação (Alaggio e colaboradores, 2022). A Classificação de Consenso Internacional manteve a categoria de HGBL com MYC e BCL2 e deixou o grupo com MYC e BCL6 como categoria provisória (Ferry e colaboradores, 2024). Já o linfoma duplo-expressor tem superexpressão das proteínas MYC e BCL2 na imuno-histoquímica, sem o rearranjo, e não é a mesma coisa.
Na prática clínica, isso significa pedir FISH para MYC e, se positivo, para BCL2 e BCL6, e levar o resultado à reunião multidisciplinar antes de assumir que R-CHOP basta.
Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10. O LDGCB no idoso é um bom exercício porque a idade grita mais alto que as outras pistas. O post sobre diagnóstico diferencial mostra como organizar as pistas, e o post sobre tomada de decisão clínica ajuda a pensar no peso de cada uma.
Três exercícios com casos
Mude a função. Diga o que muda se a paciente dependesse de ajuda para tomar banho antes de adoecer.
Mude o IPI. Diga se o Pola-R-CHP faria sentido se o IPI fosse 1.
Mude a patologia. Diga o que faria se a biópsia mostrasse rearranjos de MYC e BCL2.
O post sobre pausa diagnóstica ajuda a não fechar a conduta pela primeira impressão. Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.
Perguntas frequentes
Idade acima de 80 anos impede o R-CHOP?
A idade sozinha não decide. O LNH-98.5 incluiu pacientes até 80 anos e mostrou ganho com o tratamento curativo (Coiffier e colaboradores, 2010). Acima disso, a decisão depende da avaliação funcional e geriátrica.
Quantos ciclos são dados?
No POLARIX, 6 ciclos de 21 dias, seguidos de 2 doses de rituximabe isolado (Hu e colaboradores, 2025).
O Pola-R-CHP substitui o R-CHOP para todos?
O POLARIX incluiu pacientes com IPI de 2 a 5 e mostrou menos recaídas, sem diferença significativa de sobrevida global em 5 anos (Morschhauser e colaboradores, 2025).
O rituximabe subcutâneo é equivalente?
No MabEase, a resposta e a segurança foram semelhantes, com mais reações locais na via subcutânea (Lugtenburg e colaboradores, 2017).
E o paciente frágil de verdade?
Esquemas adaptados, como rituximabe com bendamustina, foram testados em frágeis definidos por avaliação geriátrica (Storti e colaboradores, 2018).
Checklist final
- Confirmei o diagnóstico com biópsia adequada e patologia completa.
- Calculei o IPI.
- Separei sintomas do linfoma de fragilidade de base.
- Fiz ou pedi avaliação geriátrica quando havia dúvida.
- Considerei a fase prévia com prednisona.
- Planejei profilaxia com fator estimulador de colônias.
- Discuti R-CHOP e Pola-R-CHP com o paciente.
- Agendei PET-CT ao fim do tratamento.
Quer praticar o raciocínio com pistas progressivas? Jogue o caso do dia.
Referências
- Alaggio R, Amador C, Anagnostopoulos I, et al. The 5th edition of the World Health Organization Classification of Haematolymphoid Tumours: Lymphoid Neoplasms. Leukemia. 2022. PMID 35732829.
- Barraclough A, Hawkes E, Sehn LH, et al. Diffuse large B-cell lymphoma. Hematol Oncol. 2024. PMID 37435781.
- Chu MP, Lieffers J, Ghosh S, et al. Skeletal muscle density is an independent predictor of diffuse large B-cell lymphoma outcomes treated with rituximab-based chemoimmunotherapy. J Cachexia Sarcopenia Muscle. 2017. PMID 27897411.
- Coiffier B, Thieblemont C, Van Den Neste E, et al. Long-term outcome of patients in the LNH-98.5 trial, the first randomized study comparing rituximab-CHOP to standard CHOP chemotherapy in DLBCL patients: a study by the Groupe d'Etudes des Lymphomes de l'Adulte. Blood. 2010. PMID 20548096.
- Ferry JA, Hill B, Hsi ED. Mature B, T and NK-cell, plasma cell and histiocytic/dendritic cell neoplasms: classification according to the World Health Organization and International Consensus Classification. J Hematol Oncol. 2024. PMID 38978094.
- Hu B, Reagan PM, Sehn LH, et al. Subgroup analysis of older patients ≥60 years with diffuse large B-cell lymphoma in the phase 3 POLARIX study. Blood Adv. 2025. PMID 40085955.
- Lugtenburg P, Avivi I, Berenschot H, et al. Efficacy and safety of subcutaneous and intravenous rituximab plus cyclophosphamide, doxorubicin, vincristine, and prednisone in first-line diffuse large B-cell lymphoma: the randomized MabEase study. Haematologica. 2017. PMID 28935843.
- Mohammed R, Milne A, Kayani K, et al. How the discovery of rituximab impacted the treatment of B-cell non-Hodgkin's lymphomas. J Blood Med. 2019. PMID 30881167.
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- Soares TS, Ribeiro DD. Central nervous system recurrence of diffuse large B-cell lymphoma - risk stratification and prophylaxis. Hematol Transfus Cell Ther. 2026. PMID 42759380.
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- Stegemann M, Denker S, Schmitt CA. DLBCL 1L-What to Expect beyond R-CHOP?. Cancers (Basel). 2022. PMID 35326604.
- Storti S, Spina M, Pesce EA, et al. Rituximab plus bendamustine as front-line treatment in frail elderly (>70 years) patients with diffuse large B-cell non-Hodgkin lymphoma: a phase II multicenter study of the Fondazione Italiana Linfomi. Haematologica. 2018. PMID 29748444.
- Wang L, Li LR. R-CHOP resistance in diffuse large B-cell lymphoma: biological and molecular mechanisms. Chin Med J (Engl). 2020. PMID 33323828.