Pele do viajante: larva migrans, tungíase e miíase

Sumário
- Por que a pele do viajante merece atenção
- Larva migrans cutânea: o rastro que coça
- Tungíase: a pulga que entra no pé
- Miíase: a larva que forma um furúnculo
- Prevenção: o que orientar antes da viagem
- Estudos em resumo
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
- Milestone inventory
- Referências
Num atendimento fictício, um homem de 31 anos volta de dez dias numa praia do Caribe com uma linha vermelha, fina e sinuosa na planta do pé. Ele conta que a coceira o acorda à noite e que a linha parece "andar" um pouco a cada dia. Na mesma tarde, a clínica recebe uma estudante que voltou de um voluntariado na África Oriental com um ponto escuro e doloroso ao lado da unha do dedão, e um biólogo que passou um mês na Amazônia com um nódulo no braço que "mexe" e solta um líquido claro.
Os três quadros são exemplos de dermatoses parasitárias que o viajante traz para casa: larva migrans cutânea, tungíase e miíase. Este texto reúne o que estudos de vigilância de viajantes, coortes em comunidades endêmicas, ensaios de tratamento e revisões sistemáticas mostram sobre como reconhecer, tratar e prevenir cada uma. Em cada parte, o texto informa o desenho e o tamanho dos estudos e separa o que foi medido do que é inferência nossa.
Principais pontos
- Numa clínica de viajantes da França, 201 de 1.025 pacientes tinham dermatoses, e as parasitárias somaram 36 desses quadros (Blaizot et al., 2020).
- A larva migrans cutânea forma um trajeto sinuoso que avança de 2 a 3 milímetros por dia, com coceira que perturba o sono (Boggild et al., 2025).
- Na tungíase, a revisão sistemática achou evidência suficiente a favor de agentes oclusivos, sobretudo os produtos à base de dimeticona (Tardin Martins et al., 2021).
- Na revisão de miíase na África Subsaariana, a maior parte dos pacientes eram viajantes que voltavam da região (Jallow et al., 2024).
- As três doenças pesam na qualidade de vida, com coceira, dor, perda de sono e vergonha (Schuster et al., 2011; Wiese et al., 2018).
- Por que a pele do viajante merece atenção
- Larva migrans cutânea: o rastro que coça
- Tungíase: a pulga que entra no pé
- Miíase: a larva que forma um furúnculo
- Prevenção: o que orientar antes da viagem
- Estudos em resumo
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Take-home messages
- Milestone inventory
Por que a pele do viajante merece atenção
A pele é uma das queixas mais comuns depois de uma viagem, e o diagnóstico depende de juntar o aspecto da lesão com o destino, a atividade e o tempo desde a volta. O estudo de Bordeaux, baseado na rede de vigilância GeoSentinel, acompanhou 1.025 viajantes atendidos entre agosto de 2015 e março de 2018, dos quais 201 tinham dermatoses (Blaizot et al., 2020).
Quem volta com problemas de pele
Os pacientes com dermatoses tinham mais chance de ter mais de 60 anos (OR de 1,88; IC 95 por cento de 1,22 a 2,89), de viajar como turistas (OR de 3,04; IC 95 por cento de 2,03 a 4,55) e de ter ido à América do Sul (OR de 2,18; IC 95 por cento de 1,29 a 3,67) (Blaizot et al., 2020). Também tinham menos chance de ter recebido orientação antes da viagem (OR de 0,53; IC 95 por cento de 0,31 a 0,91) (Blaizot et al., 2020).
As infecções bacterianas da pele foram as mais comuns, com 19,4 por cento dos quadros, seguidas pela infecção por Zika, com 18,4 por cento (Blaizot et al., 2020). Entre as 36 dermatoses parasitárias, a erupção serpiginosa foi a mais frequente, com 19 pacientes, 15 deles com larva migrans por ancilostomídeo; a miíase apareceu em cinco, duas por Dermatobia hominis e três por Cordylobia anthropophaga (Blaizot et al., 2020).
Cinco perguntas que orientam o raciocínio
Como síntese nossa a partir das fontes, cinco perguntas ajudam a separar os quadros deste texto de outras lesões de pele trazidas de viagem:
- Onde a pessoa pisou ou deitou sem proteção, como areia de praia, chão de terra ou solo com fezes de animais (Reichert et al., 2016).
- Se a lesão se move, como o trajeto da larva migrans, ou fica fixa, como o nódulo da tungíase e o furúnculo da miíase (Boggild et al., 2025).
- Se há um orifício central, presente na tungíase e na miíase furunculoide (Feldmeier et al., 2014; Jallow et al., 2024).
- Quando os sintomas começaram em relação à volta, já que a coceira da larva migrans pode durar semanas (Boggild et al., 2025).
- Se houve orientação antes da viagem, que foi menos frequente entre quem voltou com dermatose (Blaizot et al., 2020).
A lista é um roteiro nosso e não foi testada como ferramenta diagnóstica. Febre, manchas difusas ou úlceras pedem outro raciocínio, como o de febre no viajante e o de lesões de pele por mpox.
Larva migrans cutânea: o rastro que coça
A larva migrans cutânea é uma zoonose causada, na maioria das vezes, por larvas de ancilostomídeos de cães e gatos, como Ancylostoma caninum e Ancylostoma braziliense (Boggild et al., 2025). Os ovos saem nas fezes dos animais, eclodem em um dia na areia ou no solo e, em uma semana, viram larvas capazes de atravessar a pele intacta (Boggild et al., 2025). O ser humano é um hospedeiro acidental, e a larva fica presa na epiderme.
Como reconhecer
O sinal típico é um trajeto elevado e serpiginoso que avança em média de 2 a 3 milímetros por dia, quase sempre no pé ou nas nádegas, que são as áreas que encostam na areia (Boggild et al., 2025). A coceira é intensa, atrapalha o sono e a concentração e pode durar o tempo de vida da larva, em média de cinco a seis semanas, com relatos de um ano ou mais (Boggild et al., 2025).
Numa comunidade pobre de Manaus, um estudo transversal com 806 moradores achou larva migrans em 8,2 por cento (IC 95 por cento de 6,3 a 10,1) da população, com pico de 18,2 por cento entre crianças de 10 a 14 anos (Reichert et al., 2016). A maior parte dos trajetos estava nos pés, 62,4 por cento, e 10,6 por cento estavam infectados por bactérias (Reichert et al., 2016).
Os fatores ligados à doença foram idade abaixo de 15 anos, sexo masculino, fezes de animais no quintal, andar descalço em chão arenoso e pobreza (Reichert et al., 2016). Os autores concluem que reduzir a carga da doença exige melhorar as condições de vida, e esse olhar sobre animal, ambiente e pessoa é o mesmo de One Health.
O viajante do Caribe
A vigilância canadense CanTravNet, com oito centros, atendeu 17.644 viajantes entre 2009 e 2018, e 328 deles, 1,9 por cento, voltaram do Caribe com larva migrans (Boggild et al., 2025). A mediana de idade foi de 34 anos, as mulheres foram 58 por cento e 95 por cento viajaram a turismo (Boggild et al., 2025).
A Jamaica foi a origem mais comum, com 216 pacientes, 67 por cento, seguida por Barbados, com 8 por cento, e República Dominicana, com 7 por cento (Boggild et al., 2025). A fração das larvas migrans importadas que vinha do Caribe subiu de 9 por cento em 2016 para 24,5 por cento em 2018 (Boggild et al., 2025). Os autores pedem mais atenção de médicos e viajantes e acesso mais fácil ao tratamento.
Também fora dos trópicos
A larva migrans não fica restrita aos trópicos. Um viajante holandês de 40 anos se infectou depois de duas semanas acampando nas praias da Bretanha, na França, e foi tratado primeiro como celulite, com antibiótico, antes de receber ivermectina, que parou a coceira e o avanço da lesão (Tamminga et al., 2009). Os autores citam relatos semelhantes na Alemanha, na Inglaterra, na Escócia e no sul da França.
Uma revisão sistemática sobre risco ocupacional, que partiu de um criador de cães do sul da Itália, incluiu 12 artigos e aponta criadores, agricultores e jardineiros como grupos expostos ao solo contaminado (Stufano et al., 2022). Como hipótese nossa, a pergunta sobre viagem não basta, e a história de trabalho e de contato com animais também orienta o diagnóstico.
Tratar e o que esperar
Albendazol e ivermectina são os dois tratamentos mais reconhecidos, e a ivermectina foi tratada como primeira linha na vigilância canadense (Boggild et al., 2025). Os autores relatam que, em coortes anteriores no Canadá, a mediana de sintomas antes do cuidado ou do tratamento eficaz costumava passar de um mês (Boggild et al., 2025).
O impacto do tratamento foi medido em Manaus com um índice de qualidade de vida dermatológica em 91 pacientes (Schuster et al., 2011). No diagnóstico, 91,5 por cento tinham redução considerável da qualidade de vida, e a coceira, a perda de sono e a vergonha foram relatadas por 93,4, 73,6 e 64,8 por cento, respectivamente (Schuster et al., 2011). Quatro semanas depois da ivermectina, 73,3 por cento consideravam a qualidade de vida de volta ao normal (Schuster et al., 2011).
O estudo não teve grupo controle, e parte da melhora pode refletir a evolução natural da doença. O trajeto que coça também pode ser confundido com outras parasitoses que dão lesão migratória e eosinofilia, revistas em eosinofilia no viajante e em estrongiloidíase.

Tungíase: a pulga que entra no pé
A tungíase é causada pela fêmea da pulga Tunga penetrans, que penetra na pele e fica ali até morrer, de quatro a seis semanas depois (Feldmeier et al., 2014). Pelos últimos segmentos do abdome, a pulga mantém uma abertura de 250 a 500 micrômetros para respirar, defecar e expelir ovos, que serve de porta de entrada para bactérias (Feldmeier et al., 2014).
Onde ela vive e quem adoece
O ciclo da pulga envolve pessoas, animais domésticos e animais silvestres, e em casas com chão de terra, comuns em áreas pobres da América do Sul e da África Subsaariana, ele pode se completar dentro de casa (Feldmeier et al., 2014). Os autores dizem que não há dados confiáveis de ocorrência em nível nacional ou regional, e que os mais afetados são os estratos mais pobres (Feldmeier et al., 2014).
Bactérias aeróbias e anaeróbias, incluindo clostrídios, já foram isoladas de pulgas encravadas (Feldmeier et al., 2014). Os autores também levantam a hipótese de que a retirada caseira com alfinetes, agulhas ou espinhos não esterilizados, compartilhados entre vizinhos, possa transmitir vírus pelo sangue, como hepatite B e C; essa ligação é uma hipótese dos autores, sem medida direta (Feldmeier et al., 2014).
O peso para a criança
No Quênia, um índice de qualidade de vida adaptado à tungíase foi aplicado a 50 crianças de comunidades pobres do litoral (Wiese et al., 2018). No diagnóstico, 78 por cento relataram efeito moderado a muito grande sobre a qualidade de vida, e a perturbação do sono e a dificuldade de concentração foram as restrições mais frequentes, com 86 e 84 por cento (Wiese et al., 2018).
O grau de prejuízo acompanhou o número de pulgas vivas, a gravidade da inflamação e a intensidade da dor, e a qualidade de vida melhorou quatro semanas após o tratamento (Wiese et al., 2018). O artigo de revisão lembra ainda que crianças com tungíase são alvo de deboche no Quênia e que, no Brasil e na Nigéria, pacientes sofrem estigma social (Feldmeier et al., 2014).
Como hipótese nossa, o viajante costuma ter poucas lesões e acesso rápido a cuidado, o que difere da criança de área endêmica com infestação repetida. A gravidade nas comunidades pobres pode não se aplicar diretamente ao turista, e essa diferença não foi medida nas fontes.
Tratar: extração, oclusão e dimeticona
A revisão sistemática de Tardin Martins e colegas partiu de 3.376 referências e incluiu 19 artigos, nove deles ensaios clínicos; só dois tiveram baixo risco de viés e três, algum risco (Tardin Martins et al., 2021). Os dois estudos com medicamentos orais, niridazol e ivermectina, tiveram resultados desanimadores (Tardin Martins et al., 2021).
Seis ensaios avaliaram produtos tópicos, e os dois com compostos de dimeticona relataram redução das lesões e cura, sem reações adversas importantes (Tardin Martins et al., 2021). A extração cirúrgica, o método mais usado, só foi avaliada em estudos observacionais, e os autores concluem que há evidência suficiente a favor dos agentes oclusivos, sobretudo os de dimeticona (Tardin Martins et al., 2021).
O estudo de prova de princípio no Quênia comparou dimeticona com permanganato de potássio, o tratamento local de rotina, em 47 escolares, cada pé recebendo um dos produtos (Thielecke et al., 2014). Sete dias depois, 78 por cento (IC 95 por cento de 67 a 86) das pulgas tratadas com dimeticona tinham perdido os sinais de vida, contra 39 por cento (IC 95 por cento de 28 a 52) com permanganato (Thielecke et al., 2014). Um dos autores declarou honorários do fabricante do produto testado, o que deve pesar na leitura.
Um ensaio piloto randomizado em Homa Bay, também no Quênia, comparou a dimeticona de dois componentes com carbonato de sódio a 5 por cento em 23 crianças de 3 a 13 anos, com 126 pulgas (Suzuki et al., 2024). No sétimo dia, as pulgas mortas foram 87 por cento com dimeticona e 64 por cento com carbonato, com valor de p de 0,01, e não houve diferença na inflamação, na dor ou na coceira (Suzuki et al., 2024).
Os autores lembram que a dimeticona de dois componentes é o único tratamento recomendado pela OMS, mas não estava disponível no Quênia, e pedem estudos maiores (Suzuki et al., 2024). Para o viajante que volta com uma ou duas lesões, a decisão prática é entre extração estéril e oclusão, e o tétano merece revisão como em qualquer ferida, tema que aparece em feridas após enchentes.

Miíase: a larva que forma um furúnculo
A miíase é a infestação de tecidos vivos por larvas de moscas. A revisão sistemática da África Subsaariana reuniu 75 artigos, de 1959 a 2022, com 157 pacientes (Jallow et al., 2024). Onze espécies de moscas foram identificadas, e Cordylobia anthropophaga, a mosca-tumbu, foi a mais comum, com 104 pacientes, 66,2 por cento (Jallow et al., 2024).
O viajante que volta da África
A maior parte dos pacientes, 122 de 157, ou 77,7 por cento, eram viajantes que voltavam da região, e a miíase cutânea foi a forma mais comum, com 54,7 por cento (Jallow et al., 2024). A revisão reúne relatos publicados, e por isso tende a mostrar mais o viajante atendido em país rico do que o morador local.
A fêmea da mosca-tumbu põe de 100 a 300 ovos em solo com urina ou fezes ou em roupas molhadas, sobretudo as que secam à sombra, e as larvas penetram nas partes do corpo em contato com esse tecido (Jallow et al., 2024). Por isso a revisão orienta evitar deitar no chão e secar roupa em varal sombreado ou sobre arbustos, e passar a ferro a roupa e a roupa de cama depois de lavar (Jallow et al., 2024).
A retirada da larva é o centro do tratamento, por pressão manual, por método mecânico ou por cirurgia, e substâncias oclusivas, como parafina, são aplicadas no orifício central para asfixiar a larva (Jallow et al., 2024). Antibióticos foram usados em parte dos pacientes (Jallow et al., 2024). Os autores alertam que clínicos da região muitas vezes erram o diagnóstico e não sabem identificar as larvas.
O viajante que volta das Américas
No Equador, uma revisão de relatos clínicos e dados do Ministério da Saúde identificou quatro moscas em 39 pacientes, 29 descritos na literatura e 10 atendidos pelos próprios autores (Calvopina et al., 2020). Dermatobia hominis, o berne, causou lesões furunculoides em 17 pacientes, 43,5 por cento, na costa do Pacífico e na Amazônia (Calvopina et al., 2020).
Cochliomyia hominivorax, a mosca da bicheira, causou 15 infestações, 38 por cento, em feridas e cavidades como órbita, nariz, ouvido e vagina, incluindo uma ferida adquirida em hospital (Calvopina et al., 2020). Oito pacientes, 21 por cento, eram turistas, e a ivermectina, quando ficou disponível, foi usada com sucesso em lesões furunculoides, feridas e cavidades (Calvopina et al., 2020).
Os dados oficiais de 2013 a 2015 registraram 2.187 notificações, com a maior incidência anual na Amazônia, de 23 por 100.000 habitantes (Calvopina et al., 2020). No México, um relato de três pacientes com Dermatobia hominis, dois com infestação local no sul do país e um com infestação trazida da Costa Rica, mostra que a miíase também aparece fora das áreas endêmicas por causa das viagens (Toussaint-Caire et al., 2018).
Furúnculo que não melhora
O furúnculo da miíase costuma ser tratado como infecção bacteriana até alguém notar o orifício e o movimento da larva. Como hipótese nossa, um furúnculo que não melhora com antibiótico num viajante que voltou da África ou da América Latina deve levantar a suspeita, do mesmo modo que a larva migrans da Bretanha foi tratada primeiro como celulite (Tamminga et al., 2009).
A miíase de feridas, como a da bicheira, tem outro perfil e se liga a feridas abertas, cavidades e pessoas com cuidado precário (Calvopina et al., 2020). Feridas que pioram rápido depois do contato com água do mar quente pedem outro raciocínio, discutido em Vibrio e feridas.

Prevenção: o que orientar antes da viagem
A orientação antes da viagem foi menos frequente entre os viajantes que voltaram com dermatose (Blaizot et al., 2020). As fontes deste texto descrevem fatores de risco e hábitos ligados a cada parasita, e reunimos, como síntese nossa, cinco orientações que se apoiam nelas:
- Usar calçado na areia e no chão de terra, já que andar descalço em chão arenoso foi fator de risco para larva migrans (Reichert et al., 2016).
- Evitar deitar direto na areia de praias frequentadas por cães e gatos, porque as larvas vêm das fezes desses animais (Boggild et al., 2025).
- Examinar os pés todos os dias em áreas de tungíase, sobretudo ao redor das unhas, e procurar cuidado para retirada estéril (Feldmeier et al., 2014).
- Secar a roupa ao sol, longe de arbustos, e passá-la a ferro na África Subsaariana (Jallow et al., 2024).
- Procurar avaliação na volta se surgir trajeto que coça, nódulo com orifício ou furúnculo que não melhora (Calvopina et al., 2020).
Os estudos citados não testaram essas orientações como intervenção em viajantes, e a força de cada uma vem de estudos de fatores de risco e de ciclo de vida. A consulta antes da viagem também é o momento de revisar vacinas e outros riscos, como mostram a gestante que vai viajar e o texto sobre doenças negligenciadas.
Estudos em resumo
| Estudo | Desenho, amostra e unidade | Achado principal |
|---|---|---|
| Blaizot 2020 | Coorte prospectiva GeoSentinel, Bordeaux, 1.025 viajantes; unidade viajante | 201 com dermatoses, 36 parasitárias |
| Boggild 2025 | Vigilância CanTravNet, 17.644 viajantes; unidade viajante | 328 com larva migrans vinda do Caribe |
| Reichert 2016 | Estudo transversal, Manaus, 806 moradores; unidade pessoa | Prevalência de 8,2 por cento, maior em crianças |
| Schuster 2011 | Coorte sem controle, Manaus, 91 pacientes; unidade paciente | Qualidade de vida normal em 73,3 por cento após ivermectina |
| Tamminga 2009 | Relato de um paciente, Bretanha; unidade paciente | Larva migrans adquirida na Europa |
| Stufano 2022 | Revisão sistemática, 12 artigos; unidade artigo | Risco ocupacional em quem lida com solo e animais |
| Feldmeier 2014 | Revisão de especialistas; unidade não se aplica | Ciclo dentro de casa, estigma e falta de dados |
| Wiese 2018 | Coorte, Quênia, 50 crianças; unidade criança | Efeito moderado a muito grande em 78 por cento |
| Tardin Martins 2021 | Revisão sistemática, 19 artigos; unidade estudo | Evidência a favor de oclusivos com dimeticona |
| Thielecke 2014 | Ensaio de prova de princípio, Quênia, 47 escolares; unidade pulga | Dimeticona 78 contra 39 por cento |
| Suzuki 2024 | Ensaio piloto randomizado, Quênia, 23 crianças; unidade pulga | Dimeticona 87 contra 64 por cento |
| Jallow 2024 | Revisão sistemática, 75 artigos, 157 pacientes; unidade paciente | Mosca-tumbu em 66,2 por cento, maioria viajantes |
| Calvopina 2020 | Revisão de relatos e notificações, Equador; unidade paciente | Berne e bicheira; 21 por cento em turistas |
| Toussaint-Caire 2018 | Série de três pacientes, México; unidade paciente | Berne local e importado |
Fontes: Blaizot et al., 2020; Boggild et al., 2025; Reichert et al., 2016; Schuster et al., 2011; Tamminga et al., 2009; Stufano et al., 2022; Feldmeier et al., 2014; Wiese et al., 2018; Tardin Martins et al., 2021; Thielecke et al., 2014; Suzuki et al., 2024; Jallow et al., 2024; Calvopina et al., 2020; Toussaint-Caire et al., 2018.
Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10. Uma pista pode trazer "turista de 28 anos, voltou de praia tropical, coceira intensa no pé"; outra, "trajeto fino e sinuoso que avança alguns milímetros por dia". O retorno de proximidade em cinco níveis ajuda a separar larva migrans, tungíase, miíase, escabiose e infecção bacteriana da pele, sem transformar o treino em protocolo.
Perguntas frequentes
A larva migrans passa de pessoa para pessoa?
As fontes descrevem a infecção pela entrada de larvas presentes no solo ou na areia contaminados por fezes de cães e gatos, com o ser humano como hospedeiro acidental (Boggild et al., 2025).
Quanto tempo dura a coceira da larva migrans sem tratamento?
Em média de cinco a seis semanas, o tempo de vida da larva, mas há relatos de um ano ou mais (Boggild et al., 2025).
A ivermectina oral trata a tungíase?
Os dois estudos com medicamentos orais, um deles com ivermectina, tiveram resultados desanimadores na revisão sistemática, e a evidência favorece os oclusivos com dimeticona (Tardin Martins et al., 2021).
Como a mosca-tumbu chega à pele?
A fêmea põe ovos em solo contaminado ou em roupas molhadas que secam à sombra, e as larvas penetram na pele que encosta nesse tecido (Jallow et al., 2024).
A larva migrans só acontece nos trópicos?
Há relatos de infecção adquirida na Europa, como a da Bretanha, e de risco ocupacional no sul da Itália (Tamminga et al., 2009; Stufano et al., 2022).
Take-home messages
- Dermatoses são comuns no viajante, e as parasitárias somaram 36 de 201 numa clínica francesa (Blaizot et al., 2020).
- O trajeto serpiginoso que avança e coça sugere larva migrans, com ivermectina e albendazol como tratamentos mais reconhecidos (Boggild et al., 2025).
- Na tungíase, a evidência favorece oclusivos com dimeticona, com ensaios pequenos no Quênia (Tardin Martins et al., 2021; Suzuki et al., 2024).
- Furúnculo com orifício em quem voltou da África ou das Américas sugere miíase, tratada com retirada da larva (Jallow et al., 2024).
- Calçado, cuidado com a areia e roupa passada a ferro são orientações apoiadas em estudos de risco, não em ensaios (Reichert et al., 2016).
Milestone inventory
- 2009: relato de larva migrans adquirida na Bretanha reforça que a doença aparece também na Europa (Tamminga et al., 2009).
- 2011: estudo em Manaus mede a qualidade de vida na larva migrans e a melhora após ivermectina (Schuster et al., 2011).
- 2014: estudo de prova de princípio no Quênia testa a dimeticona na tungíase (Thielecke et al., 2014).
- 2021: revisão sistemática conclui a favor dos oclusivos com dimeticona na tungíase (Tardin Martins et al., 2021).
- 2024: ensaio piloto randomizado compara dimeticona e carbonato de sódio em crianças quenianas (Suzuki et al., 2024).
Referências
- Blaizot R, Ouattara E, Receveur MC, et al. Dermatoses in international travellers seen at Bordeaux teaching hospital travel clinic, 2015-2018: a GeoSentinel-based study. Clin Exp Dermatol. 2020;45(5):580-583. PMID: 31916616. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7317537/
- Boggild A, Bierbrier R, Libman M, et al. Cutaneous larva migrans in Canadian travellers returning from the Caribbean: A 10-year surveillance analysis from CanTravNet. Can Commun Dis Rep. 2025;51(5):179-186. PMID: 40831490. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC12360410/
- Reichert F, Pilger D, Schuster A, et al. Prevalence and Risk Factors of Hookworm-Related Cutaneous Larva Migrans (HrCLM) in a Resource-Poor Community in Manaus, Brazil. PLoS Negl Trop Dis. 2016;10(3):e0004514. PMID: 27010204. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4807001/
- Schuster A, Lesshafft H, Talhari S, et al. Life quality impairment caused by hookworm-related cutaneous larva migrans in resource-poor communities in Manaus, Brazil. PLoS Negl Trop Dis. 2011;5(11):e1355. PMID: 22087341. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3210737/
- Tamminga N, Bierman WF, de Vries PJ. Cutaneous larva migrans acquired in Brittany, France. Emerg Infect Dis. 2009;15(11):1856-1858. PMID: 19891887. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2857223/
- Stufano A, Foti C, Lovreglio P, et al. Occupational risk of cutaneous larva migrans: A case report and a systematic literature review. PLoS Negl Trop Dis. 2022;16(5):e0010330. PMID: 35551315. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC9098051/
- Feldmeier H, Heukelbach J, Ugbomoiko US, et al. Tungiasis--a neglected disease with many challenges for global public health. PLoS Negl Trop Dis. 2014;8(10):e3133. PMID: 25356978. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4214674/
- Wiese S, Elson L, Feldmeier H. Tungiasis-related life quality impairment in children living in rural Kenya. PLoS Negl Trop Dis. 2018;12(1):e0005939. PMID: 29309411. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5757912/
- Tardin Martins AC, de Brito AR, Kurizky PS, et al. The efficacy of topical, oral and surgical interventions for the treatment of tungiasis: A systematic review of the literature. PLoS Negl Trop Dis. 2021;15(8):e0009722. PMID: 34415904. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8409605/
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