Ginecologia e obstetríciaRaciocínio clínico

Morte materna evitável: o modelo dos três atrasos

Fotografia antiga em preto e branco de uma mesa de parto vazia, coberta com lençol branco, em uma sala de hospital
Sumário
  1. De onde vem o modelo
  2. O primeiro atraso: decidir buscar cuidado
  3. O segundo atraso: chegar ao serviço
  4. O terceiro atraso: receber cuidado adequado
  5. O que a comparação entre estudos mostra
  6. Limites do modelo e uso na análise de casos
  7. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  8. Perguntas frequentes
  9. Take-home messages
  10. Referências

Uma mulher de 24 anos tem o parto em casa, com ajuda de uma parteira da comunidade. Uma hora depois, o sangramento não para. A família discute se deve levá-la ao hospital, porque o marido está fora e a viagem custa caro. Quando decidem ir, não há transporte por perto. Ela chega ao hospital três horas depois, pálida e com pressão baixa, e o serviço não tem sangue disponível naquele momento.

Essa história é fictícia, mas cada etapa dela aparece em estudos sobre mortes maternas em vários países. O que mata, nesse caso, não é só a hemorragia. É a soma de atrasos entre o problema e o tratamento.

O modelo dos três atrasos organiza esse raciocínio em três perguntas: por que a decisão de buscar cuidado demorou, por que chegar ao serviço demorou e por que o cuidado adequado demorou depois da chegada. Este texto mostra como o modelo funciona, o que os estudos encontraram e quais são seus limites.

Principais pontos

  • O modelo divide o caminho até o cuidado em três atrasos: decidir buscar, chegar e receber cuidado.
  • Muitas mortes maternas acontecem em serviços de saúde, depois que a mulher já chegou.
  • Os atrasos costumam se somar, e mais de um aparece no mesmo caso.
  • Reconhecer sinais de perigo é o centro do primeiro atraso, e não só falta de informação da mulher.
  • Versões novas do modelo incluem encaminhamento entre serviços e continuidade do cuidado.

De onde vem o modelo

O modelo dos três atrasos foi proposto por Thaddeus e Maine em 1994 e se tornou uma das ferramentas mais usadas para analisar mortes maternas (Cheong e Baltazar, 2021). A ideia central é que a maioria das mortes por complicações obstétricas pode ser evitada se o tratamento chegar a tempo.

As três fases

Um estudo no Malawi resume as fases de forma direta (Mgawadere e colaboradores, 2017). O primeiro atraso é a demora em decidir buscar cuidado. O segundo é a demora em chegar ao serviço de saúde. O terceiro é a demora em receber cuidado adequado depois da chegada.

Cada fase tem causas diferentes e pede respostas diferentes. Por isso, o modelo é útil para a análise de casos: ele obriga quem revisa a morte a perguntar em que ponto do caminho o tempo foi perdido.

Por que o tempo importa tanto

As principais causas diretas de morte materna, hemorragia obstétrica, doenças hipertensivas da gestação, parto obstruído, sepse e complicações de aborto inseguro, respondem por quase dois terços das mortes no mundo, segundo um estudo egípcio que revisou o tema (Mohammed e colaboradores, 2020). Várias delas evoluem em horas.

Uma hemorragia pós-parto pode levar à morte rapidamente, e uma eclâmpsia pode surgir sem aviso em uma gestante com pré-eclâmpsia não reconhecida. Nesses quadros, minutos e horas de atraso mudam o desfecho, e a pergunta "onde o tempo foi perdido" tem resposta concreta.

Uma desigualdade global

Um estudo indiano lembra que 99 a cada 100 das mortes maternas no mundo acontecem em países de renda baixa e média (Sk e colaboradores, 2019). Mas o modelo não serve apenas para esses contextos. Como veremos, ele também foi usado para analisar mortes em países de renda alta.

O primeiro atraso: decidir buscar cuidado

O primeiro atraso começa antes de qualquer contato com o sistema de saúde. Ele depende de reconhecer que algo está errado e de ter poder para decidir agir.

Reconhecer os sinais de perigo

Um estudo qualitativo no Malawi revisou 32 mortes maternas, com entrevistas com profissionais, familiares, vizinhos e parteiras tradicionais (Combs Thorsen e colaboradores, 2012). Entre os fatores encontrados, a falta de reconhecer sinais, sintomas e gravidade da situação apareceu de forma repetida, junto com a baixa escolaridade feminina.

Um estudo em Bangladesh sobre emergências em geral encontrou o mesmo padrão: a capacidade de reconhecer sintomas e o poder de decisão foram os principais fatores na decisão de buscar cuidado (Shah e colaboradores, 2020). Reconhecer sinais de perigo é uma habilidade que pode ser ensinada à comunidade e à família.

Quem decide

A decisão de buscar cuidado nem sempre é da mulher. Um estudo na Tanzânia entrevistou 27 homens cujas parceiras tinham tido filho no ano anterior (Greenspan e colaboradores, 2019). Os autores descrevem que os homens frequentemente controlam os recursos financeiros e as decisões da casa, e que um julgamento errado sobre sinais de perigo ou sobre a hora de sair para o serviço pode atrasar o cuidado.

Um estudo na Zâmbia ampliou o olhar para outras relações (Kaiser e colaboradores, 2019). Maridos, parentes mulheres e agentes comunitários de saúde foram citados como as pessoas que mais influenciam a gestante. O marido muitas vezes dá a permissão final para ir ao serviço, e as parentes mulheres acompanham a gestante até lá.

Crenças e confiança no serviço

O estudo indiano, em uma região com muita eclâmpsia, revisou 317 mortes maternas e encontrou o primeiro atraso como o maior contribuinte, presente em 48,6 a cada 100 (Sk e colaboradores, 2019). O próprio título do estudo, que fala em rezar até a morte, resume o peso dos fatores socioculturais encontrados nas autópsias verbais.

A confiança no serviço também pesa. Um estudo no Haiti com parteiras tradicionais mostrou que a decisão de encaminhar a gestante depende da percepção sobre a qualidade e o tratamento no serviço (Jean-Baptiste e colaboradores, 2023). Uma experiência ruim anterior pode atrasar a próxima busca por cuidado.

Maca de ambulância
Maca de ambulância. Transporte, distância e custo da viagem compõem o segundo atraso, o tempo para chegar a um serviço capaz de resolver o caso. Crédito: Ypy31, Domínio público (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

O segundo atraso: chegar ao serviço

Decidir buscar cuidado não basta. A gestante precisa chegar a um serviço capaz de resolver o problema.

Distância e transporte

No estudo do Malawi, o segundo atraso foi encontrado em 59,6 a cada 100 das mulheres que morreram, e a distância até o serviço foi o principal problema (Mgawadere e colaboradores, 2017). No estudo indiano, mulheres que moravam longe tiveram mais segundo atraso, com razão de chances ajustada de 1,7 (Sk e colaboradores, 2019).

O estudo qualitativo do Malawi descreve atraso no acesso ao transporte e a dificuldade de longas distâncias em terreno difícil (Combs Thorsen e colaboradores, 2012). Ambulância, estrada, custo da viagem e horário são parte do problema clínico, ainda que não apareçam no prontuário.

Chegar ao serviço errado

O segundo atraso também inclui chegar a um serviço que não pode resolver o caso. Uma análise de 2026 a partir de Madagascar mostra que, em sistemas de saúde organizados em pirâmide, a gestante muitas vezes passa por um primeiro serviço e precisa ser encaminhada a outro (Franke e Iata Pasteur, 2026). Cada encaminhamento repete o ciclo de decidir, chegar e receber.

Por isso, os autores propõem um modelo de seis atrasos, que separa o atraso para buscar, chegar e receber o cuidado inicial do atraso para buscar, chegar e receber o cuidado de referência (Franke e Iata Pasteur, 2026).

Barreiras legais e administrativas

Um estudo na Malásia com pessoas apátridas e migrantes em situação irregular mostra outro tipo de barreira (Cheong e Baltazar, 2021). Barreiras políticas e legais atrasam a decisão de procurar o serviço, a chegada até ele e o próprio atendimento. A exclusão de um sistema, como o registro civil, aumenta o risco de exclusão do outro, a saúde.

O terceiro atraso: receber cuidado adequado

O terceiro atraso acontece dentro do serviço de saúde. É o mais desconfortável para os profissionais, porque é o que está mais perto do seu controle.

Ele é mais comum do que parece

No estudo do Malawi, 62,2 a cada 100 das mortes maternas aconteceram em um serviço de saúde, e outras 21,2 a cada 100 aconteceram em casa depois que a mulher tinha passado por um serviço (Mgawadere e colaboradores, 2017). Nessas mulheres, o terceiro atraso foi o mais importante, presente em 96,8 a cada 100 dos casos.

Um estudo em um hospital terciário egípcio revisou 207 mortes maternas em 10 anos (Mohammed e colaboradores, 2020). O terceiro atraso esteve presente em 88,9 a cada 100 das mortes, e o segundo em 50 a cada 100, sempre junto com outros.

O que compõe o terceiro atraso

O estudo qualitativo do Malawi descreve atraso no cuidado obstétrico de emergência e atraso dentro do hospital (Combs Thorsen e colaboradores, 2012). O estudo de Bangladesh aponta falta de pessoal, falta de recursos e falta de treinamento como causas de demora em receber cuidado (Shah e colaboradores, 2020).

Na prática, o terceiro atraso inclui várias falhas que se somam.

  • Demora na triagem e no reconhecimento da gravidade.
  • Falta de sangue, medicamentos ou equipamento.
  • Falta de profissional treinado ou de equipe cirúrgica disponível.
  • Diagnóstico errado ou tardio da causa da piora.
  • Encaminhamento tardio para um serviço de maior complexidade.

O terceiro atraso também tem raciocínio clínico

Parte do terceiro atraso é erro diagnóstico. Uma hemorragia oculta, uma pré-eclâmpsia não reconhecida ou uma sepse tratada tarde são falhas de raciocínio, e não só de estrutura. A análise de casos em sessões de morbimortalidade é uma forma de transformar essas falhas em aprendizado.

Sala de parto
Sala de parto. O terceiro atraso acontece dentro do serviço, quando faltam equipe, recursos ou reconhecimento da gravidade a tempo. Crédito: Yazan.shawahneh, CC0 1.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

O que a comparação entre estudos mostra

Os atrasos se somam

Uma das lições mais consistentes dos estudos é que os atrasos raramente aparecem sozinhos.

Mais de um atraso no mesmo caso

No estudo do Malawi, mais da metade das mulheres que morreram em serviço de saúde, 52,1 a cada 100, tiveram mais de um tipo de atraso (Mgawadere e colaboradores, 2017). O primeiro atraso esteve presente em 39,7 a cada 100 das mulheres e o segundo em 59,6 a cada 100.

A mulher que demorou a decidir buscar cuidado chega mais grave, e a mulher que chega mais grave tem menos margem para qualquer demora dentro do serviço. Os atrasos se multiplicam, e não apenas se somam.

O peso de cada atraso muda com o contexto

A comparação entre estudos mostra que o atraso mais importante varia.

Estudo e contexto Atraso mais frequente O que os autores destacam
Malawi, 151 mortes Terceiro, em quem chegou ao serviço Mais de um atraso em mais da metade
Egito, hospital terciário, 207 mortes Terceiro, em 88,9 a cada 100 Segundo atraso sempre junto com outros
Índia, região com muita eclâmpsia, 317 mortes Primeiro, em 48,6 a cada 100 Fatores culturais e distância
Suécia, 75 prontuários Fatores de cuidado abaixo do ideal Barreiras de comunicação em mulheres nascidas fora

Fonte da tabela: Mgawadere e colaboradores, 2017; Mohammed e colaboradores, 2020; Sk e colaboradores, 2019; Esscher e colaboradores, 2014.

A mudança com a ampliação do acesso

Os autores do estudo do Malawi observam que, antes, a maioria das mulheres que morriam tinha sofrido o primeiro e o segundo atrasos (Mgawadere e colaboradores, 2017). Com mais partos em serviços de saúde, o terceiro atraso ganhou peso. O estudo egípcio descreve a mesma mudança de padrão (Mohammed e colaboradores, 2020). Levar a gestante ao serviço é necessário, mas não suficiente.

O modelo em países de renda alta

O modelo dos três atrasos nasceu pensando em contextos com poucos recursos, mas também foi aplicado onde a mortalidade materna é baixa.

A experiência sueca

Um estudo na Suécia auditou 75 prontuários de mortes maternas, comparando mulheres nascidas em países de renda baixa e média com mulheres nascidas no país (Esscher e colaboradores, 2014). Os autores usaram uma versão do modelo adaptada para migrantes.

Fatores de cuidado abaixo do ideal foram associados à maioria das mortes e foram mais frequentes nas mulheres nascidas fora (Esscher e colaboradores, 2014). Os principais atrasos na busca de cuidado incluíram barreiras de comunicação, como idioma diferente e uso inadequado de intérpretes.

Lição para qualquer serviço

A experiência sueca mostra que o primeiro e o terceiro atrasos podem aparecer mesmo com hospitais bem equipados. A barreira de idioma atrasa a decisão de buscar cuidado e a compreensão dos sinais pela equipe. A linguagem usada com a paciente e a escuta da história fazem parte da prevenção.

As causas por trás dos atrasos

O modelo dos três atrasos não substitui a pergunta sobre a causa da morte; ele a complementa. Uma revisão de 32 mortes maternas no distrito de Lilongwe, no Malawi, encontrou 16 óbitos por causas obstétricas diretas, com sepse e hemorragia à frente, e 16 por causas indiretas, sobretudo anemia, seguida de HIV e doença cardíaca (Combs Thorsen e colaboradores, 2012). Nessa série, o atraso mais comum foi o terceiro, ligado a demora no encaminhamento, diagnósticos perdidos, falta de sangue e de medicamentos e cuidado inadequado (Combs Thorsen e colaboradores, 2012).

Na prática da análise de casos, isso significa cruzar duas colunas: qual foi a causa e onde o tempo foi perdido. A mesma demora não tem o mesmo peso para todas as causas, e uma doença indireta, como a anemia, pede um olhar sobre toda a gestação, e não só sobre as horas finais. Sem essa leitura conjunta, a análise corre o risco de culpar o transporte por uma morte que dependia de um diagnóstico que nunca foi feito.

Ampliar o acesso não resolve tudo

Um levantamento nacional no Malawi partiu de uma observação: antes, a maioria das mulheres que morriam tinha sofrido o primeiro e o segundo atrasos, e, com a maior cobertura dos serviços, os autores quiseram medir o peso relativo de cada um (Mgawadere e colaboradores, 2017). Das 151 mortes, 62,2 a cada 100 ocorreram dentro de um serviço de saúde, e o terceiro atraso apareceu em 96,8 a cada 100 das mulheres que morreram no serviço ou em casa depois de terem buscado atendimento (Mgawadere e colaboradores, 2017). Entre as causas desse atraso estavam longas esperas antes do tratamento, demoras na admissão, falta de medicamentos e falta ou despreparo de profissionais qualificados (Mgawadere e colaboradores, 2017). A conclusão dos autores é que a maioria das mulheres tenta chegar ao serviço quando surge a emergência, e que melhorar a qualidade do cuidado dentro dele é o passo seguinte (Mgawadere e colaboradores, 2017).

Essa mudança tem consequência direta para quem trabalha dentro do serviço. A pergunta deixa de ser só por que a mulher demorou e passa a incluir o que aconteceu entre a porta de entrada e a primeira conduta efetiva. Tempo até a avaliação, até o exame, até o sangue e até a cirurgia viram perguntas que a equipe pode fazer em cada revisão.

Quem está na ponta do cuidado

Muitas decisões da gestante passam por pessoas próximas a ela. Em grupos focais na Zâmbia rural, os participantes apontaram maridos, parentes mulheres e agentes comunitários como as figuras de maior influência no período da maternidade (Kaiser e colaboradores, 2019). Os agentes comunitários e as parteiras tradicionais apareceram como educadores sobre sinais de perigo e benefícios do parto no serviço, e as parteiras também encaminhavam a gestante quando surgiam complicações (Kaiser e colaboradores, 2019). Quando essas pessoas não cumpriam seu papel, isso virava barreira para decidir ter o parto no serviço, o primeiro atraso, ou para chegar até ele, o segundo (Kaiser e colaboradores, 2019).

Para o estudante, a lição é que a análise de uma morte materna precisa olhar para toda a cadeia, da casa da gestante ao centro cirúrgico, e que o tempo perdido em cada elo tem causas que podem ser identificadas e corrigidas.

Limites do modelo e uso na análise de casos

Os limites do modelo e as versões novas

Como qualquer modelo, o dos três atrasos simplifica a realidade. Estudos recentes propõem ampliações.

Continuidade do cuidado

Um estudo com 76 narrativas de autópsia verbal no Paquistão e em Moçambique sugere que o modelo precisa ser complementado agora que a maioria dos partos acontece em serviços de saúde (Vidler e colaboradores, 2023). As narrativas mostraram melhoras temporárias depois de buscar cuidado, falhas de qualidade em emergências, encaminhamentos confusos e chegada ao serviço final em estado crítico.

Os autores propõem focar a continuidade do cuidado e os pontos críticos de conexão: entre as fases da gestação, entre famílias e profissionais, e entre serviços de saúde (Vidler e colaboradores, 2023). A morte materna, nessa visão, não é uma única jornada, mas uma série de conexões que podem falhar.

Encaminhamento em várias etapas

O modelo de seis atrasos, já citado, responde ao mesmo problema (Franke e Iata Pasteur, 2026). Em sistemas em que a gestante passa por vários serviços, cada passagem tem seu próprio risco de demora, e o modelo original junta tudo em uma única caixa.

O que o modelo não mostra

O modelo descreve onde o tempo foi perdido, mas não mede a qualidade do cuidado em si. Ele depende de autópsia verbal e de prontuários, sujeitos a lacunas de memória e de registro. Pode atribuir à mulher e à família um atraso que é, na verdade, do sistema. E não captura bem as causas indiretas, como anemia e doenças crônicas, que exigem um olhar sobre toda a gestação, e não só sobre as horas finais.

Bolsa de sangue usada pendurada em um suporte de soro, com o equipo e os tubos ainda conectados
Bolsa de sangue. A falta de sangue disponível na hora da hemorragia é um exemplo concreto de terceiro atraso. Crédito: 26RIJNA2020, CC0 1.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Usando o modelo na análise de um caso

O modelo dos três atrasos pode ser usado como roteiro para revisar uma morte materna ou um quase óbito.

  1. Reconstruir a linha do tempo, do primeiro sintoma ao desfecho.
  2. Identificar quando os sinais de perigo apareceram e quando foram reconhecidos.
  3. Perguntar quem decidiu buscar cuidado e o que pesou na decisão.
  4. Medir o tempo até chegar ao primeiro serviço e as barreiras no caminho.
  5. Verificar se o primeiro serviço podia resolver o caso e quanto o encaminhamento demorou.
  6. Analisar o que aconteceu dentro do serviço: triagem, diagnóstico, recursos e equipe.
  7. Separar o que era evitável do que não era, sem procurar culpados individuais.

Voltando à mulher do caso

A mulher de 24 anos sofreu os três atrasos. A família demorou a decidir, por custo e pela ausência de quem decidia, o que lembra o papel dos homens e das relações próximas descrito em estudos na Tanzânia e na Zâmbia (Greenspan e colaboradores, 2019). Faltou transporte, o segundo atraso (Mgawadere e colaboradores, 2017). E o hospital não tinha sangue, o terceiro atraso (Combs Thorsen e colaboradores, 2012).

A revisão desse caso não deveria terminar com "hemorragia pós-parto" como causa da morte. Ela deveria apontar os três pontos em que o tempo foi perdido e o que poderia mudar em cada um. O registro cuidadoso dessa análise no prontuário e nas sessões do serviço é o primeiro passo.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas, e você propõe o diagnóstico buscando o código na CID-10.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias. Treinar o diagnóstico diferencial com pistas e buscar o código certo na CID-10 completam esse treino.

Perguntas frequentes

O que é o modelo dos três atrasos?

É uma forma de analisar mortes maternas dividindo o caminho até o cuidado em três fases: decidir buscar, chegar ao serviço e receber cuidado adequado (Mgawadere e colaboradores, 2017).

Qual atraso é o mais importante?

Depende do contexto. Em estudos no Malawi e no Egito, o terceiro atraso foi o mais frequente (Mohammed e colaboradores, 2020), enquanto em uma região da Índia o primeiro foi o maior contribuinte (Sk e colaboradores, 2019).

O modelo serve para países de renda alta?

Sim. Um estudo na Suécia usou uma versão do modelo e encontrou barreiras de comunicação e cuidado abaixo do ideal, mais frequentes em mulheres nascidas fora do país (Esscher e colaboradores, 2014).

O primeiro atraso é culpa da mulher?

Não. Ele depende de reconhecer sinais de perigo, de quem tem poder de decisão na família e da confiança no serviço (Kaiser e colaboradores, 2019).

O modelo ainda é suficiente?

Ele continua útil, mas estudos recentes propõem incluir o encaminhamento entre serviços e a continuidade do cuidado (Vidler e colaboradores, 2023).

Take-home messages

  • O modelo divide o caminho até o cuidado em decidir buscar, chegar e receber cuidado.
  • Muitas mortes maternas acontecem depois que a mulher já chegou ao serviço.
  • Os atrasos se somam e, muitas vezes, mais de um aparece no mesmo caso.
  • Reconhecer sinais de perigo envolve a mulher, a família e a comunidade.
  • Barreiras de idioma e de documentação atrasam o cuidado também em países de renda alta.
  • Versões novas incluem encaminhamento e continuidade do cuidado.

Referências

  1. Cheong AR, Baltazar MAK. Too precarious to walk: an integrated "three delays" framework for modeling barriers to maternal health care and birth registration among stateless persons and irregular migrants in Malaysia. Genus. 2021. PMID 34493875.
  2. Combs Thorsen V, Sundby J, Malata A. Piecing together the maternal death puzzle through narratives: the three delays model revisited. PLoS One. 2012. PMID 23284882.
  3. Esscher A, Binder-Finnema P, Bødker B, et al. Suboptimal care and maternal mortality among foreign-born women in Sweden: maternal death audit with application of the 'migration three delays' model. BMC Pregnancy Childbirth. 2014. PMID 24725307.
  4. Franke MA, Iata Pasteur G. The Six Delays Model: expanding the three delays model with evidence from Madagascar for maternal referrals in LMICs. BMJ Glob Health. 2026. PMID 41702636.
  5. Greenspan JA, Chebet JJ, Mpembeni R, et al. Men's roles in care seeking for maternal and newborn health: a qualitative study applying the three delays model to male involvement in Morogoro Region, Tanzania. BMC Pregnancy Childbirth. 2019. PMID 31409278.
  6. Jean-Baptiste M, Millien C, Pognon PR, et al. Reframing the Three Delays framework: factors influencing referrals to facilities by matrones in rural Haiti. BMJ Glob Health. 2023. PMID 37967901.
  7. Kaiser JL, Fong RM, Hamer DH, et al. How a woman's interpersonal relationships can delay care-seeking and access during the maternity period in rural Zambia: An intersection of the Social Ecological Model with the Three Delays Framework. Soc Sci Med. 2019. PMID 30500609.
  8. Mgawadere F, Unkels R, Kazembe A, et al. Factors associated with maternal mortality in Malawi: application of the three delays model. BMC Pregnancy Childbirth. 2017. PMID 28697794.
  9. Mohammed MM, El Gelany S, Eladwy AR, et al. A ten year analysis of maternal deaths in a tertiary hospital using the three delays model. BMC Pregnancy Childbirth. 2020. PMID 33023523.
  10. Shah B, Krishnan N, Kodish SR, et al. Applying the Three Delays Model to understand emergency care seeking and delivery in rural Bangladesh: a qualitative study. BMJ Open. 2020. PMID 33361169.
  11. Sk MIK, Paswan B, Anand A, et al. Praying until death: revisiting three delays model to contextualize the socio-cultural factors associated with maternal deaths in a region with high prevalence of eclampsia in India. BMC Pregnancy Childbirth. 2019. PMID 31455258.
  12. Vidler M, Kinshella MW, Sevene E, et al. Transitioning from the "Three Delays" to a focus on continuity of care: a qualitative analysis of maternal deaths in rural Pakistan and Mozambique. BMC Pregnancy Childbirth. 2023. PMID 37872504.

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