CAR-T no mieloma: cilta-cel, CRS e ICANS na prática

Mão de paciente com acesso venoso fixado por fitas e equipo de infusão sobre o lençol
Sumário
  1. Por que este é um cenário de raciocínio
  2. O que é o cilta-cel e para quem está aprovado
  3. Do preparo à infusão
  4. Síndrome de liberação de citocinas: graduar e tratar
  5. ICANS e outras toxicidades neurológicas
  6. Depois das primeiras semanas: citopenias, infecções e malignidades
  7. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  8. Perguntas frequentes
  9. Checklist final
  10. Referências

Um homem de 63 anos com mieloma múltiplo refratário à lenalidomida recebeu ciltacabtagene autoleucel (cilta-cel, nome comercial Carvykti) há sete dias. Ele vinha bem até a manhã de hoje, quando apareceu febre de 39 °C. À tarde, a pressão caiu para 85/50 mmHg e melhorou com 1 litro de soro, sem vasopressor. A saturação está normal em ar ambiente. À noite, a esposa percebe que ele troca palavras e não lembra o nome do hospital. A cena é fictícia e foi escrita para ensino.

O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, até seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.

Este texto usa o quadro como cenário de raciocínio clínico para estudantes e profissionais de saúde. A cena reúne as duas toxicidades mais típicas das células CAR-T, a síndrome de liberação de citocinas (CRS, do inglês cytokine release syndrome) e a síndrome de neurotoxicidade associada a células efetoras imunes (ICANS), e abre outras perguntas: como graduar, quando dar tocilizumabe e corticoide, o que vigiar depois e onde o produto está aprovado. O texto não substitui a avaliação da equipe de terapia celular, a bula do seu país nem o protocolo da sua instituição. Se você joga o caso do dia no NEXO, vai reconhecer o desafio: decidir com pistas que chegam em sequência.

Principais pontos

  • O cilta-cel é uma terapia com células T do próprio paciente modificadas para reconhecer o antígeno de maturação de células B (BCMA).
  • Nos Estados Unidos, desde 5 de abril de 2024, está indicado a partir de uma linha prévia, incluindo inibidor de proteassoma e imunomodulador, com refratariedade à lenalidomida.
  • Na União Europeia, a indicação é equivalente, e a autorização condicional de 2022 virou autorização padrão em 19 de abril de 2024.
  • A CRS é graduada pela febre, pela hipotensão e pela hipóxia; a ICANS, pelo escore ICE e por outros domínios neurológicos.
  • A bula orienta tocilizumabe 8 mg/kg a partir do grau 2 de CRS e dexametasona conforme o grau de CRS e de ICANS.
  • Parkinsonismo, citopenias recorrentes, hipogamaglobulinemia, infecções e malignidades secundárias exigem vigilância por muito tempo.

Por que este é um cenário de raciocínio

As células CAR-T saíram dos centros de pesquisa e chegaram a linhas mais precoces do mieloma. Isso significa que mais profissionais, inclusive fora dos centros de transplante, vão atender pacientes com febre, hipotensão ou confusão nas semanas depois da infusão (Shune e colaboradores, 2026). Reconhecer cedo e graduar bem muda a conduta.

O cenário é bom para treino porque cada pista conta. O dia da febre sugere CRS. A resposta da pressão ao soro define o grau. A troca de palavras pode ser ICANS, mas também infecção, distúrbio metabólico ou efeito de remédio. O post sobre sinais, sintomas e história mostra como ouvir o que a família conta, e o post sobre deterioração clínica na enfermaria mostra como escalar quando os sinais vitais mudam.

O que a cena ensina

A cena treina cinco hábitos. O primeiro é graduar a CRS pelos critérios de consenso, e não pela impressão geral. O segundo é aplicar o escore ICE sempre que houver alteração neurológica. O terceiro é tratar segundo a bula e o protocolo, sem atrasar o tocilizumabe quando indicado. O quarto é nunca esquecer a infecção. O quinto é lembrar que algumas toxicidades aparecem semanas ou meses depois.

O que não está em jogo

Febre depois de CAR-T não é sempre CRS, e CRS não exclui infecção. A febre neutropênica pode coexistir com a CRS, e a bula orienta investigar infecção e tratar com antibiótico de amplo espectro quando indicado (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). O post sobre sepse na triagem de enfermagem lembra como agir na primeira hora.

O que é o cilta-cel e para quem está aprovado

O cilta-cel é feito com células T do próprio paciente, coletadas por leucaférese e modificadas geneticamente para expressar um receptor de antígeno quimérico (CAR) dirigido ao BCMA, presente nas células do mieloma (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). Depois da infusão, as células se expandem, reconhecem as células que expressam BCMA e as destroem (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). O BCMA também está em plasmócitos normais e em parte dos linfócitos B, o que ajuda a explicar a hipogamaglobulinemia (Kuipers e colaboradores, 2026).

O que os estudos mostraram

No CARTITUDE-4, pacientes com uma a três linhas prévias e refratários à lenalidomida foram randomizados entre cilta-cel e tratamento padrão com daratumumabe, pomalidomida e dexametasona ou bortezomibe, pomalidomida e dexametasona (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). A taxa de resposta global foi de 84,6 por cento com cilta-cel e 67,8 por cento com o tratamento padrão (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). Na segunda análise interina, com mediana de seguimento de 33,6 meses, a sobrevida global foi maior com cilta-cel, com razão de risco de 0,55 (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025).

Houve, porém, um sinal de mortalidade precoce: nos primeiros 10 meses depois da randomização, morreram 29 de 208 pacientes (14 por cento) no braço do cilta-cel e 25 de 211 (12 por cento) no braço padrão (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). Uma ponte eficaz, que reduz a carga tumoral antes da infusão, ajuda a diminuir as toxicidades (Shune e colaboradores, 2026).

Na vida real

No registro do Center for International Blood and Marrow Transplant Research (CIBMTR), com 595 pacientes tratados fora de estudos e idade mediana de 64 anos, a CRS de qualquer grau ocorreu em 80 por cento e a de grau 3 ou mais em 4 por cento; a ICANS, em 22 e 4 por cento (Hansen e colaboradores, 2026). A sobrevida livre de progressão em 12 meses foi de 73 por cento, e as infecções foram a principal causa de morte sem relação com a doença (Hansen e colaboradores, 2026). Uma metanálise em rede de quatro estudos de fase 3 comparou o cilta-cel com combinações de anticorpos biespecíficos na recidiva precoce (Merz e colaboradores, 2026).

Situação regulatória: FDA e EMA

Estados Unidos. A FDA aprovou o Carvykti em 28 de fevereiro de 2022 e emitiu nova carta de aprovação em 5 de abril de 2024, ligada à indicação em linhas mais precoces (FDA, página do Carvykti). Na bula atual, revisada em 10/2025, a indicação é para adultos com mieloma recidivado ou refratário que receberam pelo menos uma linha prévia, incluindo inibidor de proteassoma e imunomodulador, e são refratários à lenalidomida (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). Em 18 de abril de 2024, a FDA comunicou que passou a exigir aviso em destaque sobre malignidades de células T depois de CAR-T dirigidas a BCMA ou CD19 (FDA, 2024). Há ainda cartas de 26 de junho e 10 de outubro de 2025 (FDA, página do Carvykti); a bula registra que o programa de controle de risco (REMS) foi retirado em 6/2025 (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025).

União Europeia. O Carvykti recebeu autorização condicional em 25 de maio de 2022, convertida em autorização padrão em 19 de abril de 2024 (EMA, Carvykti). A indicação atual é para adultos com mieloma recidivado e refratário que receberam pelo menos uma terapia prévia, incluindo imunomodulador e inibidor de proteassoma, que progrediram na última terapia e são refratários à lenalidomida (EMA, Carvykti).

Outros países. Fora dessas regiões, a indicação e o acesso dependem da agência local e da disponibilidade de centros habilitados. O paciente da cena estaria dentro da indicação americana e da europeia.

Imagem em preto e branco de microscopia eletrônica com uma célula grande irregular cercada por células menores e hemácias
Células do sistema imune atacando uma célula de câncer, em microscopia eletrônica de varredura. As células CAR-T fazem um ataque dirigido parecido contra células que expressam BCMA. Foto: Susan Arnold, National Cancer Institute, Wikimedia Commons, domínio público.

Do preparo à infusão

O percurso começa com a leucaférese e segue com a fabricação, a terapia de ponte, a quimioterapia de linfodepleção, a infusão e a monitorização da fase aguda (Shune e colaboradores, 2026). A terapia de ponte é individualizada e serve para controlar a doença enquanto o produto é fabricado; uma ponte eficaz pode diminuir a carga tumoral e o risco de toxicidades (Shune e colaboradores, 2026).

Linfodepleção e infusão

A bula orienta ciclofosfamida 300 mg/m² e fludarabina 30 mg/m² por via venosa, uma vez ao dia por 3 dias, e infusão do cilta-cel 2 a 4 dias depois do fim da linfodepleção (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). A dose é de 0,5 a 1,0 milhão de células T CAR positivas viáveis por kg, com máximo de 100 milhões (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025).

A pré-medicação inclui paracetamol de 650 a 1.000 mg e difenidramina de 25 a 50 mg ou equivalente (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). A bula orienta evitar corticoide profilático, porque pode interferir na atividade do produto, e confirmar a disponibilidade de tocilizumabe antes da infusão (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025).

Monitorização

  • Avaliar sinais de CRS e de toxicidade neurológica pelo menos uma vez ao dia nos 7 dias depois da infusão.
  • Manter o paciente perto de um serviço de saúde por pelo menos 2 semanas.
  • Orientar a não dirigir por pelo menos 2 semanas.
  • Aplicar o escore ICE a cada 8 a 12 horas na fase aguda.
  • Ensinar paciente e família a reconhecer sinais tardios, como mudança na letra, lentidão e alteração de humor.

Fontes da lista: (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025), (Ussowicz e colaboradores, 2026) e (Kuipers e colaboradores, 2026).

Síndrome de liberação de citocinas: graduar e tratar

Nos estudos CARTITUDE-1 e CARTITUDE-4, que juntos somaram 285 pacientes, a CRS ocorreu em 84 por cento, com grau 3 ou mais em 4 por cento (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). O início mediano foi no dia 7 (de 1 a 23), e a duração mediana foi de 4 dias (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). As manifestações mais comuns foram febre, hipotensão e aumento da aspartato aminotransferase (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). O paciente da cena está exatamente na janela típica.

Como graduar

O consenso da ASTCT define a CRS de grau 1 como febre de pelo menos 38 °C, com ou sem sintomas constitucionais (Lee e colaboradores, 2019). A partir do grau 2, o que define o grau é a hipotensão e a hipóxia: grau 2 quando há hipotensão sem necessidade de vasopressor ou hipóxia que precisa de cateter nasal de baixo fluxo; grau 3 quando é preciso um vasopressor ou oxigênio de alto fluxo, máscara facial ou máscara com reservatório; grau 4 quando são precisos vários vasopressores ou pressão positiva (Lee e colaboradores, 2019), (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). A febre pode ser mascarada por antitérmico, tocilizumabe ou corticoide; nesse caso, a conduta é guiada pela hipotensão e pela hipóxia (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025).

O paciente da cena tem febre e hipotensão que respondeu ao soro, sem vasopressor e sem hipóxia: pelo consenso, é CRS de grau 2 (Lee e colaboradores, 2019).

Grau de CRSCritério principalTocilizumabe na bulaCorticoide na bula
1Febre de pelo menos 38 °C8 mg/kg pode ser considerado em situações como febre precoce, antes de 72 horasNão indicado
2Febre com hipotensão sem vasopressor ou hipóxia em baixo fluxo8 mg/kg em 1 hora, máximo de 800 mg; repetir a cada 8 horas se necessárioConsiderar dexametasona 10 mg a cada 12 a 24 horas
3Um vasopressor ou oxigênio em alto fluxoIgual ao grau 2Considerar dexametasona 10 mg a cada 12 horas
4Vários vasopressores ou pressão positivaIgual ao grau 2Dexametasona 20 mg a cada 6 horas; metilprednisolona 1 a 2 g se não melhorar

Fontes da tabela: (Lee e colaboradores, 2019) e (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). A bula limita o tocilizumabe a 3 doses em 24 horas e 4 doses no total, e orienta considerar outros agentes anticitocina depois de 2 doses (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025).

Quando não melhora

Nos graus 2 e 3, se não houver melhora em 24 horas ou se a piora for rápida, a bula orienta repetir o tocilizumabe e aumentar a dexametasona para 20 mg a cada 6 a 12 horas; se ainda assim não houver resposta, trocar para metilprednisolona 2 mg/kg a cada 12 horas (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). O corticoide deve continuar até o evento voltar ao grau 1 ou menos, com redução gradual se a exposição passar de 3 dias (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025).

HLH e síndrome hemofagocítica

A linfo-histiocitose hemofagocítica ou síndrome de ativação macrofágica ocorreu em 1 por cento dos pacientes dos estudos e pode acompanhar a CRS ou a neurotoxicidade (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). Ferritina muito alta, citopenias que pioram e disfunção hepática fora do padrão da CRS são pistas para investigar a síndrome hemofagocítica associada a células efetoras imunes (Ussowicz e colaboradores, 2026), (Kuipers e colaboradores, 2026).

ICANS e outras toxicidades neurológicas

Nos estudos, a ICANS ocorreu em 13 por cento dos pacientes, com grau 3 ou mais em 2 por cento; o início mediano foi no dia 8, e 97 por cento de quem teve ICANS também teve CRS (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). A ICANS pode surgir antes, durante ou depois da CRS, ou mesmo sem ela (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025).

O escore ICE

O escore de encefalopatia associada a células efetoras imunes (ICE) vai de 0 a 10 e avalia orientação, nomeação de objetos, capacidade de seguir comandos, escrita e atenção (Ussowicz e colaboradores, 2026), (Lee e colaboradores, 2019). Pelo consenso, a ICANS de grau 1 corresponde a ICE de 7 a 9, a de grau 2 a ICE de 3 a 6 e a de grau 3 a ICE de 0 a 2; o grau 4 inclui o paciente que não desperta e não consegue fazer o teste (Lee e colaboradores, 2019). O grau final é definido pelo pior domínio, que inclui também nível de consciência, convulsões, achados motores e edema cerebral (Lee e colaboradores, 2019), (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025).

No paciente da cena, a troca de palavras e a desorientação pedem o ICE imediatamente, exame neurológico, glicemia, eletrólitos e investigação de infecção (Ussowicz e colaboradores, 2026). O post sobre diagnóstico diferencial com pistas ajuda a não fechar em ICANS antes de afastar outras causas.

Como tratar a ICANS

A bula orienta, no grau 1, considerar dexametasona 10 mg a cada 12 a 24 horas por 2 a 3 dias; no grau 2, dar dexametasona 10 mg a cada 12 horas por 2 a 3 dias, aumentando até 20 mg a cada 6 horas se não houver melhora em 24 horas; no grau 3, dexametasona de 10 a 20 mg a cada 6 horas; e no grau 4, dexametasona 20 mg a cada 6 horas e, sem melhora, metilprednisolona de 1 a 2 g por dia (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). Em todos os graus, pode-se considerar levetiracetam para profilaxia de convulsão (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025).

O tocilizumabe é a base do tratamento da CRS, mas na ICANS fica reservado para quando há CRS concomitante, porque o bloqueio do receptor de interleucina 6 pode piorar a neurotoxicidade (Hej-Ali e colaboradores, 2026). Se a CRS e a ICANS ocorrem juntas, a bula orienta usar o corticoide da tabela mais agressiva e o tocilizumabe conforme o grau da CRS (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). Na ICANS refratária a corticoide, o anacinra é uma opção de segunda linha (Hej-Ali e colaboradores, 2026).

Parkinsonismo e outras toxicidades tardias

Além da ICANS, a bula descreve parkinsonismo, síndrome de Guillain-Barré, mielite imunomediada, neuropatias periféricas e paralisias de nervos cranianos (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). Nos estudos, qualquer toxicidade neurológica ocorreu em 24 por cento, com parkinsonismo em 3 por cento e paralisia de nervo craniano em 7 por cento (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). O parkinsonismo costuma surgir semanas a meses depois da infusão, com bradicinesia, rigidez, lentificação do pensamento, apatia, alteração da marcha e mudança na letra (Hej-Ali e colaboradores, 2026), (Reinhardt e colaboradores, 2026).

A alta carga tumoral no momento da infusão, sobretudo sem resposta à ponte, aumenta o risco de parkinsonismo, citopenias prolongadas e infecções (Kuipers e colaboradores, 2026). A dexametasona profilática no momento da expansão dos linfócitos não reduziu a neurotoxicidade tardia nem o parkinsonismo numa coorte recente (Lim e colaboradores, 2026). Em bases de dados americanas, as taxas de eventos neurológicos não ICANS depois do cilta-cel foram comparáveis ou menores que as dos estudos principais (Sidana e colaboradores, 2026).

Linfócito arredondado em tom lilás com superfície coberta de pequenas projeções, visto em microscopia eletrônica
Linfócito humano em microscopia eletrônica de varredura, com cores artificiais. As células CAR-T são linfócitos T do próprio paciente modificados em laboratório. Foto: Dr. Triche, National Cancer Institute, Wikimedia Commons, domínio público.

Depois das primeiras semanas: citopenias, infecções e malignidades

Citopenias prolongadas e recorrentes

Nos estudos, 62 por cento dos pacientes tinham citopenias de grau 3 ou mais ainda não resolvidas no dia 30, e muitas voltaram depois de uma recuperação inicial (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). A neutropenia prolongada aumenta o risco de infecção (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). A classificação da EHA e da EBMT separa as citopenias precoces, até o dia 30, das tardias, depois do dia 30, pela profundidade e pela duração da neutropenia (Ussowicz e colaboradores, 2026).

Infecções e hipogamaglobulinemia

Nos estudos, as infecções ocorreram em 57 por cento dos pacientes, com grau 3 ou mais em 24 por cento, e 5 por cento tiveram infecção fatal (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). A IgG caiu abaixo de 500 mg/dL em 93 por cento, e a bula orienta acompanhar os níveis e dar imunoglobulina venosa quando a IgG estiver abaixo de 400 mg/dL (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). A revisão sistemática de Benda e colaboradores aponta a reposição precoce de imunoglobulina, a profilaxia de pneumocistose e a profilaxia antiviral como partes centrais da prevenção (Benda e colaboradores, 2026).

Recomendações práticas sugerem aciclovir 800 mg duas vezes ao dia ou valaciclovir 500 mg uma vez ao dia contra herpes simples e varicela-zóster, começando na linfodepleção e mantendo por pelo menos 6 meses depois da CAR-T (Bergantim e colaboradores, 2026). A bula também pede triagem de citomegalovírus, hepatite B, hepatite C e HIV antes da coleta e não recomenda vacinas de vírus vivo desde pelo menos 6 semanas antes da linfodepleção (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025).

Malignidades secundárias

Nos estudos, neoplasias mieloides, como síndrome mielodisplásica e leucemia mieloide aguda, ocorreram em 5 por cento dos pacientes, com início mediano 447 dias depois da infusão (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). Malignidades de células T, inclusive tumores CAR positivos, foram relatadas depois de CAR-T dirigidas a BCMA ou CD19 e podem surgir semanas depois da infusão (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025), (FDA, 2024). A bula orienta monitorização por toda a vida (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025).

Enterocolite imunomediada

A bula descreve enterocolite associada a células efetoras imunes, com diarreia grave ou prolongada, dor abdominal e perda de peso, e relatos pós-comercialização de perfuração intestinal, inclusive fatais (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025). Diarreia persistente depois da CAR-T merece investigação, e não só tratamento sintomático.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, cada caso começa com poucas pistas e você decide o que perguntar, o que pedir e quando fechar o raciocínio. As toxicidades das células CAR-T são um bom exercício porque o tempo depois da infusão, os sinais vitais e o exame neurológico mudam a conduta. O post sobre aprendizagem baseada em casos clínicos explica por que esse formato fixa o conhecimento, e o post sobre tomada de decisão clínica mostra como escolher exames e condutas.

Três exercícios com casos

Mude a pressão. Diga o grau de CRS e a conduta se ele precisasse de noradrenalina.

Mude o ICE. Diga o grau de ICANS e a dose de dexametasona se o ICE fosse 5.

Mude o tempo. Diga o que pensar se, no dia 60, ele aparecesse com lentidão e letra pequena.

O post sobre pausa diagnóstica lembra de parar antes de fechar a conduta, e o post sobre raciocínio clínico interprofissional mostra por que enfermagem, farmácia e neurologia fazem parte do cuidado.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.

Perguntas frequentes

Toda febre depois da CAR-T é CRS?

Não. É preciso investigar infecção, sobretudo com neutropenia, e tratar quando indicado (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025).

Quando dar tocilizumabe?

Pela bula, a partir do grau 2 de CRS, e pode ser considerado no grau 1 em situações como febre precoce (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025).

Tocilizumabe trata ICANS?

Não isoladamente. Na ICANS, o tratamento é o corticoide; o tocilizumabe entra quando há CRS junto (Hej-Ali e colaboradores, 2026), (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025).

Pode dar corticoide profilático?

A bula orienta evitar corticoide profilático antes da infusão (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025).

Por quanto tempo o paciente fica perto do centro?

Pela bula atual, pelo menos 2 semanas, e sem dirigir no mesmo período (bula americana do Carvykti, revisada em 10/2025).

Checklist final

  • Confirmei o dia da infusão e a janela típica de CRS e ICANS.
  • Graduei a CRS pela febre, pela hipotensão e pela hipóxia.
  • Apliquei o escore ICE e avaliei consciência, convulsões, força e sinais de edema cerebral.
  • Investiguei infecção e iniciei antibiótico se havia neutropenia febril.
  • Conferi doses de tocilizumabe e dexametasona na bula e no protocolo local.
  • Pedi ferritina e acompanhei sinais de síndrome hemofagocítica.
  • Programei hemograma, IgG, profilaxia antiviral e de pneumocistose.
  • Orientei a família sobre sinais tardios e monitorização de malignidades por toda a vida.

Quer praticar o raciocínio com pistas progressivas? Jogue o caso do dia.

Referências

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  5. Hej-Ali S, Banwell K, Mohamed H, et al. Toxicities of CAR-T, Bispecific Antibodies, and Antibody-Drug Conjugates in Multiple Myeloma: A Practical Approach to Risk Mitigation and Management. Cancers (Basel). 2026. PMID 42449627.
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