Hipotermia acidental: estágios, reaquecimento e reanimação

Console de circulação extracorpórea com tubos e oxigenador ao lado de um leito de terapia intensiva
Sumário
  1. Por que a hipotermia é um cenário de raciocínio
  2. Como o corpo perde calor e quando para de se defender
  3. Os estágios: do sistema suíço ao risco de parada
  4. O manuseio que pode parar o coração
  5. Reaquecer: passivo, ativo externo e interno
  6. A parada cardíaca no frio
  7. Circulação extracorpórea e o escore HOPE
  8. Os vieses que esfriam o raciocínio
  9. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  10. Perguntas frequentes
  11. Checklist final
  12. Referências

Numa madrugada de inverno, a equipe de resgate encontra um homem de sessenta e poucos anos caído num parque, com roupas molhadas e uma garrafa vazia ao lado. Ele responde à voz com palavras soltas, não treme e tem pele gelada. O monitor mostra frequência cardíaca baixa. No caminho até a ambulância, um socorrista o levanta de forma brusca, e o ritmo no monitor muda. A cena é fictícia e foi escrita para ensino. Este texto usa esse quadro como cenário de raciocínio clínico: como estimar a gravidade da hipotermia quando não há termômetro confiável, por que o manuseio importa, como pensar o reaquecimento e por que a parada cardíaca no frio segue regras próprias.

O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, até seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.

O texto não é um protocolo de atendimento. Cada serviço segue diretrizes de reanimação e de transporte próprias, e as decisões sobre circulação extracorpórea dependem dos recursos de cada região. O interesse aqui é o raciocínio: que pistas separam os estágios, que erros são previsíveis e que perguntas ajudam a decidir. Se você joga o caso do dia no NEXO, vai reconhecer o movimento: uma pista sobre o ambiente pode mudar o rumo do palpite.

Principais pontos

  • Hipotermia acidental é a queda involuntária da temperatura central abaixo de 35 °C, e pode ser primária, pelo frio, ou secundária, por doença, intoxicação ou trauma.
  • Quando a temperatura central não pode ser medida, o nível de consciência ajuda a estimar o risco de parada cardíaca.
  • Movimentos bruscos durante o resgate podem desencadear arritmias graves no paciente hipotérmico.
  • Abaixo de 30 °C, a reanimação muda: menos choques, medicamentos adiados e transporte para um centro com circulação extracorpórea.
  • Na parada cardíaca por hipotermia, uma recuperação neurológica completa é possível mesmo depois de reanimação longa.

Por que a hipotermia é um cenário de raciocínio

Paal e colaboradores definem a hipotermia acidental como a queda involuntária da temperatura central abaixo de 35 °C e lembram que, todos os anos, milhares de pessoas morrem de hipotermia primária no mundo, sem contar um número desconhecido de mortes por hipotermia secundária (Paal e colaboradores, 2022). Os autores destacam que pacientes feridos ou intoxicados esfriam depressa, mesmo em regiões subtropicais.

Esse último ponto é o que torna a hipotermia um bom cenário de raciocínio. Ela não pertence só às montanhas e às regiões polares. Aparece na pessoa idosa que caiu em casa e passou a noite no chão, no paciente intoxicado que dormiu na rua, no ferido que esperou o resgate deitado no asfalto molhado. Em muitos desses casos, a hipotermia não é a queixa principal, e só entra no raciocínio quando alguém mede a temperatura do jeito certo.

Primária e secundária

Paal e colaboradores separam a hipotermia primária, causada pela exposição ao frio numa pessoa saudável, da secundária, desencadeada por outra condição, como doença, intoxicação ou trauma (Paal e colaboradores, 2022). Para o clínico, a distinção muda a pergunta. Na primária, o frio explica o quadro. Na secundária, o frio é parte do quadro, e a causa de base também precisa de resposta.

O que a cena ensina

Na cena da abertura, a garrafa vazia é uma pista, mas também uma armadilha. Ela convida a atribuir a confusão ao álcool e a ignorar a temperatura. O post sobre sinais, sintomas e história mostra como a história e o contexto mudam o peso de cada achado. Aqui, o contexto do frio e da roupa molhada pede que a hipotermia entre na lista antes de qualquer outra explicação.

Como o corpo perde calor e quando para de se defender

A temperatura central é mantida perto de 37 °C por mecanismos centrais e periféricos, como a vasoconstrição periférica, o tremor e o suor (Paal e colaboradores, 2022). O tremor é a defesa mais visível, e sua ausência é uma pista importante. Os autores explicam que o tremor pode diminuir ou desaparecer em pessoas exaustas, sedadas ou gravemente doentes e que, sem ele, a temperatura central cai mais depressa e o reaquecimento espontâneo pode se tornar impossível.

A velocidade do resfriamento

A perda de calor depende do ambiente. Paal e colaboradores relatam que, em avalanches, a velocidade de resfriamento de vítimas soterradas pode chegar a 9 °C por hora e que uma pessoa imersa em água abaixo de 15 °C pode ter parada cardíaca depois de cerca de 30 minutos (Paal e colaboradores, 2022). Vento, umidade, roupa fina e imobilidade aceleram o processo.

Quem esfria mais depressa

Além do ambiente, há fatores do próprio paciente. Idade avançada, doenças crônicas, desnutrição, intoxicação por álcool ou sedativos e lesões que impedem a pessoa de se mover reduzem a capacidade de produzir calor ou de buscar abrigo. Na prática, a pergunta "há quanto tempo essa pessoa está nessa situação, e em que condições?" ajuda a estimar a gravidade antes de qualquer medida.

Medir a temperatura do jeito certo

Paal e colaboradores lembram que o diagnóstico definitivo e a determinação do nível de hipotermia só podem ser feitos com a medida da temperatura central (Paal e colaboradores, 2022). Como as partes externas do corpo esfriam antes do centro, a medida precisa ser feita o mais perto possível do coração e do cérebro.

Termômetros que enganam

Os mesmos autores explicam que medidas na pele, na boca, na axila, na chamada artéria temporal e o termômetro infravermelho de ouvido são influenciados pelo ambiente e não são precisos na hipotermia (Paal e colaboradores, 2022). Uma exceção é a medida epitimpânica com termistor, com um aparelho feito para uso externo e bem isolado, desde que o canal do ouvido esteja livre. Em pacientes intubados, a sonda esofágica é a preferida.

Quando não há termômetro confiável

No campo, muitas vezes não há como medir a temperatura central. Paal e colaboradores sugerem que uma estimativa inicial grosseira pode ser feita tocando o tórax do paciente e usando o sistema suíço revisado, descrito na próxima seção (Paal e colaboradores, 2022). Eles alertam que o nível de consciência pode ser afetado por outros fatores além da temperatura, como intoxicação e trauma, exatamente o que aparece na cena da abertura.

Os estágios: do sistema suíço ao risco de parada

Musi e colaboradores, em nome da Comissão Internacional de Medicina de Emergência em Montanha, propuseram uma revisão do sistema suíço de estadiamento (Musi e colaboradores, 2021). Os autores partem de uma constatação: a estimativa da temperatura central no campo é imprecisa. Por isso, o sistema revisado passa a usar o risco de parada cardíaca, e não a temperatura, para definir o estágio, com base no nível de resposta pela escala AVDN, e retira o tremor como sinal que define estágio.

A tabela abaixo resume, de forma didática, o raciocínio do sistema suíço revisado. Ela simplifica um documento técnico e não substitui as diretrizes locais.

Estágio Pista principal Risco de parada cardíaca Pergunta que ajuda
1 Alerta Baixo O paciente consegue se aquecer com abrigo, comida e movimento?
2 Responde à voz Moderado O manuseio está sendo feito com cuidado e na horizontal?
3 Responde à dor ou não responde, com sinais vitais Alto Há um centro com circulação extracorpórea ao alcance?
4 Sem sinais vitais Hipotermia com parada A parada pode ser explicada pelo frio, e a reanimação está contínua?

Por que o tremor saiu da definição

O tremor é uma pista útil, mas pouco confiável para definir o estágio. Ele pode estar ausente em pessoas exaustas ou intoxicadas mesmo com hipotermia leve, e presente por algum tempo em quadros mais graves. Ao trocar o tremor pelo nível de resposta, o sistema revisado aposta numa pista mais fácil de observar e mais ligada ao que importa: o risco de o coração parar (Musi e colaboradores, 2021).

Quando a confusão tem outra causa

Na cena da abertura, o paciente responde à voz, o que o colocaria no estágio 2. Mas a garrafa vazia lembra que o álcool também reduz a resposta. O raciocínio aqui não é escolher uma causa, e sim aceitar que as duas podem estar presentes e tratar o risco maior. O post sobre diagnóstico diferencial mostra como manter mais de uma hipótese aberta enquanto as pistas se acumulam.

O manuseio que pode parar o coração

Paal e colaboradores descrevem o colapso circulatório durante a retirada ou o transporte do paciente hipotérmico como "colapso do resgate", que pode se manifestar como uma parada cardíaca presenciada (Paal e colaboradores, 2022). O mecanismo não é bem compreendido e pode ter várias causas, mas o mais frequente é um estímulo mecânico, como um movimento brusco. Hipovolemia, arritmias desencadeadas por procedimentos e alterações bioquímicas também entram na explicação.

Desfibrilador externo automático guardado numa caixa amarela, fixada numa parede de pedra ao lado de uma porta de madeira
Desfibrilador externo automático em local público. Na hipotermia grave, a decisão de repetir choques depende da temperatura central, e não só do ritmo no monitor. Crédito: APneunzehn74, CC0, via Wikimedia Commons (página do arquivo).

A queda que continua depois do resgate

Os mesmos autores descrevem o afterdrop, a queda da temperatura central que continua mesmo depois de o reaquecimento começar (Paal e colaboradores, 2022). A principal causa é a volta do sangue de partes frias do corpo para a circulação central, mas a troca de calor entre regiões frias e mais quentes também pode contribuir. Na prática, isso significa que o paciente pode piorar logo depois de ser resgatado, quando a equipe já relaxou.

Horizontal, devagar e protegido

Paal e colaboradores recomendam que o paciente que não consegue andar seja colocado na horizontal numa maca, protegido do frio, do vento e da umidade, e que pacientes encontrados deitados não sejam postos para andar antes de receber calorias e tremer por cerca de 30 minutos (Paal e colaboradores, 2022). Eles também lembram que andar aumenta a produção de calor, mas aumenta o afterdrop. Na cena da abertura, o movimento brusco do socorrista é o erro que o texto quer tornar visível.

Reaquecer: passivo, ativo externo e interno

Paal e colaboradores explicam que o reaquecimento pode ser passivo ou ativo e que, na maioria das vezes, técnicas passivas e ativas externas bastam (Paal e colaboradores, 2022). As técnicas internas ficam para pacientes com hipotermia refratária ou em parada cardíaca, e o reaquecimento extracorpóreo deve ser feito com oxigenação por membrana extracorpórea.

O estágio 1 fica no lugar

Os autores relatam que pacientes com hipotermia leve e sem lesões costumam estar totalmente alertas e, em geral, podem ser cuidados no local, sem transporte ao hospital (Paal e colaboradores, 2022). Tirar a pessoa do frio, melhorar o isolamento, oferecer comida e bebidas quentes e estimular movimentos ativos costuma ser suficiente.

Cobertor de emergência aluminizado, dobrado dentro da embalagem plástica, ao lado de uma régua
Cobertor de emergência aluminizado, ainda dobrado. No campo, o isolamento em camadas e a barreira contra vento e umidade vêm antes de qualquer outra medida de aquecimento. Crédito: Tobosha, Domínio público, via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Camadas, barreira de vapor e bolsas de calor

Para os estágios mais graves, Paal e colaboradores descrevem um empacotamento em várias camadas, com barreira de vapor em ambiente molhado ou com vento, retirada da roupa molhada num local protegido e bolsas de calor químicas ou elétricas no tórax e nas costas, sem contato direto com a pele, para evitar queimaduras (Paal e colaboradores, 2022). Os autores lembram que as tentativas de reaquecer não devem atrasar o transporte.

O medo do reaquecimento externo

Por muito tempo, o reaquecimento ativo fora do hospital foi visto como perigoso, pelo receio do afterdrop e do colapso. Mydske e Thomassen revisaram a literatura sobre o tema e encontraram poucos estudos, de baixa qualidade, sem evidência aceitável de que o reaquecimento ativo externo fora do hospital seja perigoso para pacientes com hipotermia acidental (Mydske e Thomassen, 2020). Os autores observam que muitos dos artigos que afirmam o risco não citam referências. Esse é um bom exemplo de uma regra que se espalhou mais pela repetição do que pelos dados.

A parada cardíaca no frio

Paal e colaboradores afirmam que a parada cardíaca por hipotermia é fundamentalmente diferente da parada em temperatura normal, com tratamento e resultados muito diferentes (Paal e colaboradores, 2022). As diretrizes do Conselho Europeu de Ressuscitação para parada em circunstâncias especiais incluem a hipotermia entre as causas que pedem mudanças no suporte básico e avançado de vida (Lott e colaboradores, 2021).

Choques e medicamentos abaixo de 30 °C

Paal e colaboradores resumem as mudanças principais. Se a fibrilação ventricular persistir depois de três choques e a temperatura central estiver abaixo de 30 °C, novas tentativas devem ser adiadas até a temperatura passar de 30 °C. Adrenalina e amiodarona não devem ser dadas abaixo de 30 °C, e o intervalo da adrenalina deve ser dobrado entre 30 °C e 35 °C (Paal e colaboradores, 2022). Os protocolos padrão voltam quando a temperatura chega a 35 °C.

Reanimação intermitente quando não há escolha

Gordon e colaboradores lembram que manter a reanimação contínua durante todo o resgate pode ser impossível, sobretudo em evacuações difíceis (Gordon e colaboradores, 2015). Os autores recomendam reanimação contínua sempre que possível, com dispositivos mecânicos de compressão quando disponíveis. Só quando isso não for possível, a reanimação pode ser adiada ou feita de forma intermitente, alternando 5 minutos de compressões com até 5 minutos sem compressões abaixo de 28 °C, e até 10 minutos sem compressões abaixo de 20 °C.

Parar de reanimar exige outra régua

Gordon e colaboradores relatam que uma recuperação neurológica completa é possível mesmo com parada prolongada, se o cérebro já estava muito frio antes de o coração parar (Gordon e colaboradores, 2015). Por isso, os critérios usados para encerrar a reanimação em temperatura normal não se aplicam da mesma forma. O post sobre incerteza diagnóstica mostra como decidir quando a informação disponível ainda não permite certeza.

Hipotermia na cidade

A imagem mais comum da hipotermia é a da montanha, mas parte importante dos pacientes aparece na cidade. Rischall e colaboradores estudaram adultos com exposição ambiental e temperatura central de até 32 °C num serviço de emergência urbano (Rischall e colaboradores, 2025). Cerca de 25 em cada 100 pacientes tiveram parada cardíaca. A proporção foi de 6 em cada 100 na hipotermia moderada, 38 em cada 100 na grave, entre 24 °C e 28 °C, e 89 em cada 100 na profunda, abaixo de 24 °C.

Cada grau a menos conta

No mesmo estudo, o risco de parada cardíaca aumentou 2,06 vezes para cada grau a menos na temperatura central inicial abaixo de 32 °C (Rischall e colaboradores, 2025). Esse número traduz em linguagem clínica o que o sistema suíço revisado propõe: o estágio importa porque prevê o risco de o coração parar.

Paradas presenciadas, resultados melhores

Rischall e colaboradores encontraram que 42 em cada 100 paradas foram presenciadas pela equipe, no transporte ou já no serviço de emergência, e que a sobrevida geral foi de 53 em cada 100 (Rischall e colaboradores, 2025). Entre os pacientes que tiveram a primeira parada já no serviço de emergência, a sobrevida chegou a 90 em cada 100, perto dos 94 em cada 100 dos que não pararam. Os autores concluem que pacientes com hipotermia grave no ambiente urbano têm alto risco de parada e que, quando ela é presenciada no serviço, os resultados podem ser excelentes.

Circulação extracorpórea e o escore HOPE

Bjertnæs e colaboradores reuniram estudos sobre reaquecimento de pacientes em parada cardíaca por hipotermia com circulação extracorpórea (Bjertnæs e colaboradores, 2021). Cerca de 37 em cada 100 pacientes sobreviveram até a alta, 31 em cada 100 com circulação extracorpórea convencional e 44 em cada 100 com oxigenação por membrana extracorpórea. Vítimas de avalanche tiveram a menor chance de sobreviver, seguidas por afogamento e por pessoas que perderam a consciência no frio.

O que pesa contra a sobrevida

Na análise de Bjertnæs e colaboradores, asfixia, parada não presenciada, sexo masculino, temperatura inicial mais alta, pH baixo e potássio sérico alto se associaram a menor chance de sobreviver (Bjertnæs e colaboradores, 2021). Saczkowski e colaboradores, numa análise com dados individuais, também encontraram asfixia, potássio sérico e sexo entre os fatores ligados à sobrevida com bom resultado neurológico, e uma sobrevida com bom resultado de cerca de 40 em cada 100 (Saczkowski e colaboradores, 2018).

A temperatura inicial mais alta como pista contra a sobrevida parece um paradoxo, mas tem lógica. Se o coração parou com o corpo ainda pouco frio, é provável que outra causa, como asfixia ou trauma, tenha provocado a parada, e o cérebro não teve a proteção do frio.

Um escore em vez de um único número

Por muito tempo, a decisão de iniciar a circulação extracorpórea se baseou sobretudo no potássio sérico. Pasquier e colaboradores criaram o escore HOPE, que combina idade, sexo, temperatura central na admissão, potássio sérico, mecanismo do resfriamento e duração da reanimação (Pasquier e colaboradores, 2018). No estudo, o escore teve área sob a curva de 0,895, contra 0,774 quando a decisão se baseava só no potássio, e a sobrevida geral foi de 37 em cada 100.

Quando o clínico erra a estimativa

Darocha e colaboradores calcularam o escore HOPE para sobreviventes com valores extremos e encontraram uma probabilidade estimada de pelo menos 10 em cada 100 em todos os pacientes em que o cálculo foi possível (Darocha e colaboradores, 2021). Os autores argumentam que usar o escore ajuda a calibrar o prognóstico do clínico, que tende a subestimar a chance desses pacientes. O post sobre calibração da confiança no diagnóstico discute por que a impressão clínica nem sempre acompanha a probabilidade real.

Os vieses que esfriam o raciocínio

A hipotermia raramente passa despercebida por falta de conhecimento. Ela costuma escapar por hábitos e vieses previsíveis:

  1. Atribuir a confusão só ao álcool ou a outra intoxicação e não medir a temperatura central.
  2. Confiar num termômetro de pele, de boca ou de ouvido que não mede a temperatura central.
  3. Achar que hipotermia só acontece na montanha ou em climas muito frios.
  4. Relaxar depois do resgate, sem lembrar do afterdrop e do colapso durante o transporte.
  5. Encerrar a reanimação com os mesmos critérios usados em temperatura normal.

Croskerry descreve a ancoragem e o fechamento prematuro entre os erros cognitivos mais frequentes no diagnóstico (Croskerry, 2003). O post sobre pausa diagnóstica mostra como um momento curto de verificação ajuda a perceber o que ficou de fora.

De volta à cena

Na cena da abertura, o paciente responde à voz, não treme, está molhado e foi encontrado no frio. O raciocínio coloca a hipotermia no centro, sem descartar a intoxicação. A equipe que percebe isso manuseia o paciente na horizontal e com cuidado, protege do frio e do vento, mantém o monitor e leva o paciente a um serviço preparado para o pior cenário. As diretrizes da sociedade americana de medicina em áreas remotas reúnem essas recomendações para o atendimento fora do hospital (Dow e colaboradores, 2019).

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

No NEXO, o caso do dia é fictício, com apresentação clínica real e até seis pistas progressivas. Você propõe um diagnóstico buscando o código na CID-10 e recebe um retorno de proximidade em cinco níveis, que mostra se o palpite ficou no código exato, na mesma categoria, no mesmo grupo, no mesmo capítulo ou em outro capítulo. Esse formato conversa com o tema deste texto: uma pista sobre o ambiente pode levar o palpite de um quadro neurológico ou tóxico para o capítulo das lesões e dos efeitos de causas externas.

Para usar o caso do dia como treino, experimente três hábitos. Antes de cada palpite, pergunte onde e em que condições o paciente estava. Quando aparecer uma pista de confusão, pergunte o que mais poderia explicá-la além da causa mais óbvia. Depois do resultado, anote qual pista teria antecipado o diagnóstico.

Três exercícios com casos

Meça antes de concluir. Em cada caso com alteração de consciência, pergunte se a temperatura central foi medida, e como.

Troque o cenário. Releia um caso imaginando que o paciente passou a noite no chão de casa, sem aquecimento, e veja o que muda na lista.

Pense no transporte. Diante de um quadro grave, pergunte o que pode piorar entre o local e o hospital.

O post sobre aprendizagem baseada em casos clínicos mostra como casos ajudam a fixar padrões que raramente aparecem na prática diária.

Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.

Perguntas frequentes

O que é hipotermia acidental?

É a queda involuntária da temperatura central abaixo de 35 °C. Pode ser causada pelo frio numa pessoa saudável ou desencadeada por outra condição, como doença, intoxicação ou trauma.

Como estimar a gravidade sem termômetro?

O sistema suíço revisado usa o nível de resposta do paciente para estimar o risco de parada cardíaca: alerta, responde à voz, responde à dor ou não responde, e sem sinais vitais.

Por que mover o paciente com cuidado?

Porque movimentos bruscos podem desencadear arritmias graves no paciente hipotérmico. Manter o paciente na horizontal e manuseá-lo devagar reduz esse risco.

O reaquecimento externo fora do hospital é perigoso?

Uma revisão sistemática encontrou poucos estudos sobre o tema e nenhuma evidência de qualidade aceitável de que seja perigoso. As tentativas de reaquecer não devem atrasar o transporte.

O que muda na reanimação de um paciente hipotérmico?

Abaixo de 30 °C, novos choques são adiados depois de três tentativas e os medicamentos são suspensos ou espaçados. O paciente deve ir para um centro com circulação extracorpórea.

Um paciente com parada longa por hipotermia pode se recuperar?

Sim. Quando o cérebro esfriou antes de o coração parar, a recuperação neurológica completa é possível mesmo depois de reanimação prolongada.

Checklist final

  • Medi a temperatura central com um método adequado, ou estimei o estágio pelo nível de resposta.
  • Pensei em hipotermia secundária e procurei a causa de base.
  • Manuseei o paciente na horizontal, com cuidado e protegido do frio, do vento e da umidade.
  • Lembrei do afterdrop e mantive o monitor durante o transporte.
  • Abaixo de 30 °C, ajustei choques e medicamentos às diretrizes de reanimação.
  • Considerei um centro com circulação extracorpórea e usei o escore HOPE para pensar o prognóstico.

Quer praticar o raciocínio com pistas progressivas? Jogue o caso do dia.

Referências

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  2. Croskerry P. The importance of cognitive errors in diagnosis and strategies to minimize them. Acad Med. 2003. PMID 12915363.
  3. Darocha T, Hugli O, Kosiński S, et al. Clinician miscalibration of survival estimate in hypothermic cardiac arrest: HOPE-estimated survival probabilities in extreme cases. Resusc Plus. 2021. PMID 34223395.
  4. Dow J, Giesbrecht GG, Danzl DF, et al. Wilderness Medical Society clinical practice guidelines for the out-of-hospital evaluation and treatment of accidental hypothermia: 2019 update. Wilderness Environ Med. 2019. PMID 31740369.
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  8. Mydske S, Thomassen Ø. Is prehospital use of active external warming dangerous for patients with accidental hypothermia: a systematic review. Scand J Trauma Resusc Emerg Med. 2020. PMID 32778153.
  9. Paal P, Pasquier M, Darocha T, et al. Accidental hypothermia: 2021 update. Int J Environ Res Public Health. 2022. PMID 35010760.
  10. Pasquier M, Hugli O, Paal P, et al. Hypothermia outcome prediction after extracorporeal life support for hypothermic cardiac arrest patients: the HOPE score. Resuscitation. 2018. PMID 29481910.
  11. Rischall ML, Prekker ME, Knack SKS, et al. Cardiac arrest secondary to environmental hypothermia: incidence and outcomes in an urban emergency department. Am J Emerg Med. 2025. PMID 39705852.
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