Gepotidacina na cistite: nova classe oral, dose e QT

Sumário
- Por que este é um cenário de raciocínio
- Cistite não complicada e resistência
- Gepotidacina: uma classe nova contra alvos antigos
- Situação regulatória: FDA e outras agências
- Dose, interações e QT
- Evidência: EAGLE-2, EAGLE-3 e depois
- Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
- Perguntas frequentes
- Checklist final
- Referências
Uma mulher de 29 anos chega à consulta com ardência ao urinar, vontade de urinar a toda hora e dor no baixo ventre há dois dias. Ela não tem febre, dor lombar nem corrimento, e o teste de gravidez é negativo. É o terceiro episódio no ano. Ela tem alergia a sulfa, e a última urocultura, de quatro meses atrás, cresceu Escherichia coli resistente a fluoroquinolona. A fita de urina mostra nitrito positivo e leucócitos. Ela pergunta se existe um antibiótico novo, que leu ter sido aprovado nos Estados Unidos. A cena é fictícia e foi escrita para ensino.
O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, até seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.
Este texto usa o quadro como cenário de raciocínio clínico para estudantes e profissionais de saúde. A gepotidacina (nome comercial Blujepa) é um antibiótico oral de uma classe química nova, os triazaacenaftilenos, aprovada pela FDA para cistite não complicada em mulheres e, depois, para gonorreia urogenital não complicada em situações selecionadas. O texto explica a indicação, a dose, as interações, o risco de prolongar o intervalo QT e o que os estudos mostraram. Ele não substitui a urocultura, a diretriz local nem o protocolo da sua instituição. Se você joga o caso do dia no NEXO, vai reconhecer o desafio: decidir com pistas que chegam em sequência.
Principais pontos
- A FDA aprovou o Blujepa em 25 de março de 2025 para cistite não complicada em mulheres de 12 anos ou mais com pelo menos 40 kg.
- Em 11 de dezembro de 2025, a FDA acrescentou a gonorreia urogenital não complicada, para quem tem poucas ou nenhuma alternativa.
- Na cistite, a dose é de 1500 mg, dois comprimidos de 750 mg, duas vezes ao dia, depois de uma refeição, por 5 dias.
- A gepotidacina prolonga o intervalo QT de forma dependente da dose; a bula pede evitar o uso com inibidores fortes do CYP3A4, insuficiência renal grave e insuficiência hepática grave.
- Nos dois estudos de fase 3, ela foi não inferior à nitrofurantoína, com diarreia em 16 por cento das pacientes.
- Ela também inibe a acetilcolinesterase, o que importa em anestesia com succinilcolina e em quem usa anticolinérgicos.
Por que este é um cenário de raciocínio
A cistite é uma das infecções mais comuns da prática clínica, e quase todo profissional de saúde vai tratá-la muitas vezes. Ainda assim, a escolha do antibiótico ficou mais difícil. A E. coli causa cerca de 75 por cento das infecções, e a resistência às opções orais habituais aumenta (Scangarella-Oman e colaboradores, 2025a). Quando surge um remédio de classe nova, as perguntas práticas aparecem: para quem ele serve, que dose usar, com que remédios ele interage e quando ele não é a melhor escolha.
O cenário é bom para treino porque junta história clínica, microbiologia e farmacologia. É preciso confirmar que a infecção é mesmo não complicada, ler a urocultura antiga, lembrar das alergias e conferir a lista de remédios por causa do QT e do CYP3A4. O post sobre sinais, sintomas e história ajuda a organizar a anamnese, e o post sobre diagnóstico diferencial lembra das causas que imitam a cistite.
O que a cena ensina
A cena treina seis hábitos. O primeiro é separar cistite não complicada de pielonefrite e de infecção complicada. O segundo é pedir urocultura quando a infecção é recorrente ou houve resistência antes. O terceiro é conhecer a indicação aprovada e os limites de idade e peso. O quarto é revisar remédios que prolongam o QT ou que inibem o CYP3A4. O quinto é orientar a paciente sobre a diarreia e a tomada com comida. O sexto é saber quando reavaliar.
O que não está em jogo
O texto não discute a prevenção da cistite recorrente nem compara todas as opções orais. A escolha final depende da urocultura, da disponibilidade do remédio, do custo e da resistência local. O post sobre tomada de decisão clínica ajuda a pensar em quando pedir cultura antes de tratar.
Cistite não complicada e resistência
Estima-se que de 50 a 60 por cento das mulheres adultas terão pelo menos uma infecção urinária na vida (Scangarella-Oman e colaboradores, 2025a). Nos estudos EAGLE, a cistite não complicada foi definida pela presença de pelo menos dois sintomas, como disúria, frequência, urgência ou dor no baixo ventre, com nitrito ou piúria na urina (bula americana do Blujepa, 12/2025). Pacientes com sinais de infecção complicada ou alta, como pielonefrite ou urossepse, foram excluídas (bula americana do Blujepa, 12/2025).
O peso da resistência
Nos estudos de fase 3, entre os isolados de E. coli da população microbiológica, 28 por cento eram resistentes a fluoroquinolonas, 28 por cento eram resistentes a sulfametoxazol-trimetoprima e 15 por cento produziam betalactamase de espectro estendido (ESBL) (Scangarella-Oman e colaboradores, 2025a). Um quarto dos isolados de Klebsiella pneumoniae era resistente à nitrofurantoína (Scangarella-Oman e colaboradores, 2025a). Dados dos Estados Unidos citados num desses estudos mostram que 22 por cento das pacientes com cistite receberam um antibiótico ao qual o germe era resistente (Ramírez e colaboradores, 2026).
Clones e mecanismos
O clone ST131 de E. coli, multirresistente e espalhado pelo mundo, está em até 30 por cento dos isolados clínicos em várias infecções (Scangarella-Oman e colaboradores, 2025b). Nos estudos EAGLE, entre os isolados testados por tipagem molecular, os clones mais frequentes foram ST131, ST1193 e O25b:H4 (Scangarella-Oman e colaboradores, 2025b). As ESBL costumam estar em plasmídeos que carregam outros genes de resistência, o que limita várias classes de antibióticos ao mesmo tempo (Scangarella-Oman e colaboradores, 2025b).
Aplicando à paciente
A paciente da cena tem cistite recorrente, alergia a sulfa e um isolado anterior resistente a fluoroquinolona. Isso tira o sulfametoxazol-trimetoprima e torna a fluoroquinolona uma má escolha. Ela não tem febre nem dor lombar, o que fala a favor de infecção baixa. Antes de pensar no remédio novo, vale colher urocultura, já que a infecção é recorrente e houve resistência. O post sobre incerteza diagnóstica ajuda a decidir quando tratar antes do resultado.

Gepotidacina: uma classe nova contra alvos antigos
A gepotidacina inibe duas enzimas bacterianas que controlam o enrolamento do DNA, a DNA girase e a topoisomerase IV (bula americana do Blujepa, 12/2025). As fluoroquinolonas agem nas mesmas enzimas, mas de outro jeito. Duas moléculas de fluoroquinolona se ligam perto dos dois pontos de corte do DNA, enquanto a gepotidacina se liga às enzimas como uma única molécula (Osheroff, 2026). Ao contrário das fluoroquinolonas, que causam quebras nas duas fitas do DNA, a gepotidacina causa sobretudo quebras numa fita só (Osheroff, 2026).
Por que a resistência às quinolonas não passa direto
A gepotidacina mantém atividade contra a resistência às fluoroquinolonas causada por mutação nos alvos (Osheroff, 2026). Além disso, na maioria dos uropatógenos ela inibe as duas enzimas de forma equilibrada (Scangarella-Oman e colaboradores, 2025a). Por isso, uma mutação numa só enzima não reduz muito a sensibilidade à gepotidacina (Scangarella-Oman e colaboradores, 2025a). Essa característica explica o interesse nela para germes que já não respondem às quinolonas.
Atividade em laboratório
Num estudo com 3250 isolados de enterobactérias de infecção urinária, a concentração inibitória mínima que inibe 90 por cento dos isolados (CIM90) foi de 4 µg/mL para E. coli (Hackel e colaboradores, 2025). Para Klebsiella pneumoniae e Enterobacter cloacae, a CIM90 foi de 32 µg/mL (Hackel e colaboradores, 2025). Entre as E. coli, 99,8 por cento tiveram CIM de até 16 µg/mL, contra 88,6 por cento das K. pneumoniae (Hackel e colaboradores, 2025). Ou seja, a atividade é melhor contra E. coli do que contra outras enterobactérias.
Os germes da indicação
A bula americana lista cinco germes para a indicação de cistite: Escherichia coli, Klebsiella pneumoniae, complexo Citrobacter freundii, Staphylococcus saprophyticus e Enterococcus faecalis (bula americana do Blujepa, 12/2025). Germes fora dessa lista não fazem parte da indicação aprovada, mesmo que o laboratório mostre atividade.
Situação regulatória: FDA e outras agências
Estados Unidos. A FDA aprovou o Blujepa em 25 de março de 2025, pela NDA 218230, como nova entidade molecular, com revisão prioritária (Drugs@FDA, NDA 218230). A indicação original é para mulheres adultas e meninas de 12 anos ou mais, com pelo menos 40 kg, com cistite não complicada causada pelos germes sensíveis da lista (bula americana do Blujepa, 12/2025). Em 11 de dezembro de 2025, um suplemento acrescentou a indicação de gonorreia urogenital não complicada (Drugs@FDA, NDA 218230). Essa segunda indicação vale para pacientes de 12 anos ou mais, com pelo menos 45 kg, que têm poucas ou nenhuma alternativa de tratamento, e a bula diz que ela se baseia em dados de segurança limitados (bula americana do Blujepa, 12/2025).
Outros países. Este texto descreve apenas a situação nos Estados Unidos, conferida em fontes primárias em 24 de outubro de 2026. O registro, a indicação e a disponibilidade em outros países dependem da agência local, e vale conferir antes de usar.
Uso responsável
A bula pede usar o remédio só quando a infecção bacteriana está provada ou é fortemente suspeita, para reduzir o surgimento de resistência (bula americana do Blujepa, 12/2025). Quando houver cultura e antibiograma, eles devem guiar a escolha; sem eles, a epidemiologia local ajuda na escolha empírica (bula americana do Blujepa, 12/2025). Uma classe nova é um recurso valioso, e usá-la sem necessidade acelera a perda desse recurso.
Contraindicação e alertas
A bula americana lista uma contraindicação e vários alertas (bula americana do Blujepa, 12/2025):
- Contraindicação: história de hipersensibilidade grave ao Blujepa.
- Prolongamento do QT, dependente da dose e da concentração.
- Inibição da acetilcolinesterase, com efeitos como disartria, síncope, cãibras, salivação e suor excessivos.
- Reações de hipersensibilidade, incluindo anafilaxia.
- Infecção por Clostridioides difficile, que deve ser lembrada em toda diarreia depois do antibiótico.
Dose, interações e QT
Na cistite não complicada, a dose recomendada é de 1500 mg, ou dois comprimidos de 750 mg, por via oral, duas vezes ao dia, com cerca de 12 horas de intervalo, por 5 dias (bula americana do Blujepa, 12/2025). Os comprimidos devem ser tomados depois de uma refeição, para reduzir a intolerância gastrointestinal (bula americana do Blujepa, 12/2025). Se a paciente esquecer uma dose, deve tomá-la assim que possível, sem dobrar a dose para compensar (bula americana do Blujepa, 12/2025). Na gonorreia, o esquema é outro: 3000 mg seguidos de nova dose de 3000 mg cerca de 12 horas depois (bula americana do Blujepa, 12/2025).
Por que essa dose
A dose de 1500 mg duas vezes ao dia por 5 dias foi escolhida a partir de modelos de farmacocinética e farmacodinâmica, de estudos em animais e de um estudo de fase 2a em mulheres com cistite (Scangarella-Oman e colaboradores, 2022). Em modelos animais e de laboratório, o índice que melhor prevê a eficácia é a razão entre a área sob a curva de droga livre em 24 horas e a CIM (bula americana do Blujepa, 12/2025). Em voluntários sadios, doses únicas de 100 a 3000 mg foram, em geral, bem toleradas, e a comida atrasou o pico sem mudar a exposição total (Tiffany e colaboradores, 2022).
Função renal e hepática
A tabela resume o que a bula diz sobre função renal, função hepática e interações na cistite.
| Situação | Orientação na cistite | Fonte |
|---|---|---|
| TFGe de 60 a 89 ou de 30 a 59 mL/min | Sem ajuste de dose | (bula americana do Blujepa, 12/2025) |
| TFGe abaixo de 30 mL/min, inclusive em diálise | Evitar o uso | (bula americana do Blujepa, 12/2025) |
| Insuficiência hepática leve ou moderada (Child-Pugh A ou B) | Sem ajuste de dose | (bula americana do Blujepa, 12/2025) |
| Insuficiência hepática grave (Child-Pugh C) | Evitar o uso | (bula americana do Blujepa, 12/2025) |
| Inibidor moderado do CYP3A4 | Sem ajuste de dose | (bula americana do Blujepa, 12/2025) |
| Inibidor forte do CYP3A4 | Evitar o uso | (bula americana do Blujepa, 12/2025) |
| Indutor forte do CYP3A4 | Evitar o uso | (bula americana do Blujepa, 12/2025) |
A razão para evitar o uso na insuficiência renal grave aparece nos estudos de farmacocinética. Em comparação com a função renal normal, a área sob a curva da gepotidacina aumentou 1,5 vez na insuficiência renal moderada e 1,9 vez na grave ou terminal sem hemodiálise (Hossain e colaboradores, 2020). Em pessoas com doença renal terminal, o aumento foi de 2,4 vezes antes da hemodiálise e de 4,1 vezes depois (Hossain e colaboradores, 2020). A bula também diz que a hemodiálise intermitente provavelmente não remove muito do remédio (bula americana do Blujepa, 12/2025).
O intervalo QT
Num estudo em voluntários sadios, a gepotidacina intravenosa prolongou o QTc corrigido por Fridericia em média 12 ms com 1000 mg e 22 ms com 1800 mg, doses e via que não são as aprovadas (bula americana do Blujepa, 12/2025). O pico de concentração com 1000 mg intravenosos é cerca de 1,2 vez o pico no estado de equilíbrio com 1500 mg orais duas vezes ao dia (bula americana do Blujepa, 12/2025). Por isso, a bula pede evitar o remédio em pessoas com história de QT longo, doença cardíaca relevante, uso de antiarrítmicos ou de outros remédios que prolongam o QT (bula americana do Blujepa, 12/2025). Se o uso não puder ser evitado nesses grupos de risco, a bula orienta corrigir eletrólitos e fazer eletrocardiograma antes e durante o tratamento, quando indicado (bula americana do Blujepa, 12/2025).
Outras interações
A gepotidacina pode aumentar a exposição à digoxina, e a bula sugere considerar a dosagem do nível sérico (bula americana do Blujepa, 12/2025). Ela deve ser evitada com remédios muito metabolizados pelo CYP3A4 nos quais pequenas mudanças de concentração causam efeitos graves (bula americana do Blujepa, 12/2025). Como inibe a acetilcolinesterase, pode prolongar o efeito da succinilcolina na anestesia e reduzir o efeito de anticolinérgicos sistêmicos e de bloqueadores neuromusculares não despolarizantes (bula americana do Blujepa, 12/2025). O post sobre raciocínio clínico interprofissional mostra por que a farmácia ajuda a revisar essa lista.
Aplicando à paciente
A paciente da cena tem 29 anos e peso acima de 40 kg, e a infecção parece baixa e não complicada. Antes de prescrever, é preciso perguntar por remédios que prolongam o QT, por antifúngicos azólicos e outros inibidores fortes do CYP3A4, por desmaios e por doença cardíaca. Se ela usar algum desses remédios, a gepotidacina deixa de ser uma boa escolha. Também vale avisar que a diarreia é comum, que os comprimidos devem ser tomados depois de comer e que ela deve voltar se surgir febre, dor lombar ou diarreia intensa. O post sobre pausa diagnóstica lembra de conferir a lista de remédios antes de fechar a prescrição.

Evidência: EAGLE-2, EAGLE-3 e depois
A aprovação se apoiou em dois estudos de fase 3, chamados EAGLE-2 e EAGLE-3, com 3136 mulheres randomizadas (bula americana do Blujepa, 12/2025). Os dois foram multicêntricos, duplo-cegos e de não inferioridade, e compararam gepotidacina 1500 mg duas vezes ao dia por 5 dias com nitrofurantoína 100 mg duas vezes ao dia por 5 dias (bula americana do Blujepa, 12/2025). O desfecho principal combinou cura clínica e resposta microbiológica na visita de teste de cura, entre os dias 10 e 13 (bula americana do Blujepa, 12/2025).
Os resultados principais
No primeiro estudo, a resposta combinada foi de 51,8 por cento com gepotidacina e de 47,0 por cento com nitrofurantoína (bula americana do Blujepa, 12/2025). No segundo, foi de 58,9 contra 44,0 por cento (bula americana do Blujepa, 12/2025). A gepotidacina foi não inferior nos dois estudos (bula americana do Blujepa, 12/2025). A cura clínica isolada foi parecida entre os grupos, e a diferença apareceu sobretudo na resposta microbiológica (bula americana do Blujepa, 12/2025). Cerca de 40 por cento das pacientes de cada estudo tinham história de infecção recorrente (bula americana do Blujepa, 12/2025).
Resposta por germe
Nos dois estudos juntos, a resposta combinada contra E. coli foi de 55,1 por cento com gepotidacina e de 45,0 por cento com nitrofurantoína (bula americana do Blujepa, 12/2025). Para os outros germes, os números foram pequenos (bula americana do Blujepa, 12/2025). Com K. pneumoniae, as taxas foram parecidas nos dois grupos, o que os autores acharam inesperado (Scangarella-Oman e colaboradores, 2025a). Em análises de isolados com mecanismos de resistência caracterizados, a gepotidacina manteve sucesso microbiológico na maioria das categorias, sobretudo com E. coli multirresistente (Scangarella-Oman e colaboradores, 2025a).
Os sintomas melhoram rápido?
Uma análise conjunta dos dois estudos olhou a visita durante o tratamento, entre os dias 2 e 4 (Sheets e colaboradores, 2026). Mais de 80 por cento das pacientes dos dois grupos tinham resposta clínica precoce nessa visita (Sheets e colaboradores, 2026). Entre as que fizeram a visita no dia 3, a resposta precoce foi de 89,0 por cento com gepotidacina e de 90,6 por cento com nitrofurantoína (Sheets e colaboradores, 2026). Num estudo de fase 3b, aberto e sem grupo de comparação, 54,4 por cento das participantes relataram melhora dos sintomas em 24 horas e 79,8 por cento em 48 horas (Ramírez e colaboradores, 2026). Sem grupo controle, esse estudo não permite comparar com outros antibióticos.
Efeitos adversos
Nos dois estudos, efeitos adversos graves ocorreram em 1 de 1570 pacientes com gepotidacina, um episódio de disartria, e em 1 de 1558 com nitrofurantoína (bula americana do Blujepa, 12/2025). A suspensão por efeito adverso ocorreu em 5 por cento com gepotidacina e em 2 por cento com nitrofurantoína (bula americana do Blujepa, 12/2025). A lista abaixo compara os efeitos mais comuns.
- Diarreia: 16 por cento com gepotidacina e 3 por cento com nitrofurantoína.
- Náusea: 9 e 4 por cento.
- Dor abdominal: 4 e 2 por cento.
- Flatulência: 3 por cento e menos de 1 por cento.
- Dor de cabeça: 2 e 3 por cento.
Fonte da lista: (bula americana do Blujepa, 12/2025). A diarreia foi leve em 11 por cento das pacientes, moderada em 5 por cento e grave em menos de 1 por cento; começou nos dois primeiros dias para a maioria e durou em média 4 dias (bula americana do Blujepa, 12/2025).
E a resistência durante o tratamento?
Nos dois estudos, 5,6 por cento das pacientes tratadas com gepotidacina tiveram isolados depois do início do tratamento com aumento aparente de quatro vezes ou mais na CIM (Weikel e colaboradores, 2026). A maior parte desses aumentos não se confirmou na repetição do teste ou envolvia germes geneticamente diferentes do inicial, o que sugere colonização ou nova infecção (Weikel e colaboradores, 2026). Os autores consideraram, de forma conservadora, um possível exemplo de resistência adquirida, com uma mutação no alvo ParC D79G (Weikel e colaboradores, 2026). A vigilância da resistência continua importante depois da aprovação.
Gravidez, lactação e idosas
Não há dados sobre o uso em grávidas, e estudos em animais mostraram menor peso fetal e mais perdas fetais com exposições abaixo da dose máxima humana (bula americana do Blujepa, 12/2025). A paciente da cena teve teste de gravidez negativo, o que importa para a escolha. Não há dados sobre a passagem para o leite humano (bula americana do Blujepa, 12/2025). Nos estudos de cistite, 22 por cento das pacientes tinham 65 anos ou mais, sem diferenças gerais de segurança ou eficácia, mas a bula lembra que a eliminação renal pede atenção nas idosas (bula americana do Blujepa, 12/2025).
Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
No NEXO, cada caso começa com poucas pistas e você decide o que perguntar, o que pedir e quando fechar o raciocínio. A cistite recorrente é um bom exercício porque uma alergia, uma urocultura antiga ou um remédio de uso contínuo mudam a conduta. O post sobre aprendizagem baseada em casos clínicos explica por que esse formato fixa o conhecimento, e o post sobre simulação de atendimento mostra como treinar a anamnese.
Três exercícios com casos
Mude o rim. Diga o que fazer se a paciente tivesse TFGe de 25 mL/min.
Mude a lista de remédios. Diga o que fazer se ela usasse um antifúngico azólico que é inibidor forte do CYP3A4.
Mude a apresentação. Diga por que a gepotidacina não serve se ela tivesse febre e dor lombar.
Os limites de uso do jogo estão descritos na página de economia do NEXO. Se você pesquisa ensino de raciocínio clínico, a página para pesquisadores explica como entrar em contato. Profissionais que escrevem ou revisam casos encontram informações em curadoria e em criadores, e instituições podem conhecer a proposta na página para parcerias.
Perguntas frequentes
A gepotidacina é uma fluoroquinolona?
Não. Ela age nas mesmas enzimas, mas é de outra classe química e se liga de outro modo (Osheroff, 2026).
Qual é a dose na cistite?
1500 mg duas vezes ao dia, depois de uma refeição, por 5 dias (bula americana do Blujepa, 12/2025).
Serve para pielonefrite?
Não. Os estudos excluíram infecção alta ou complicada, e a indicação é para cistite não complicada (bula americana do Blujepa, 12/2025).
Homens podem usar para cistite?
A indicação de cistite aprovada pela FDA é para pacientes do sexo feminino (bula americana do Blujepa, 12/2025).
Qual é o efeito adverso mais comum?
A diarreia, em 16 por cento das pacientes nos estudos de cistite (bula americana do Blujepa, 12/2025).
Checklist final
- Confirmei cistite não complicada, sem febre, dor lombar ou sinais de infecção alta.
- Colhi urocultura numa infecção recorrente ou com resistência anterior.
- Conferi idade, sexo e peso de pelo menos 40 kg.
- Revisei remédios que prolongam o QT e inibidores ou indutores fortes do CYP3A4.
- Perguntei por desmaios, doença cardíaca e QT longo.
- Conferi a TFGe e a função hepática.
- Orientei tomar depois da refeição e avisei sobre a diarreia.
- Combinei quando voltar se os sintomas piorarem.
Quer praticar o raciocínio com pistas progressivas? Jogue o caso do dia.
Referências
- GlaxoSmithKline. BLUJEPA (gepotidacin) tablets, for oral use. Prescribing Information. Revisada em 12/2025. Consultada em 24/10/2026. Fonte oficial.
- Hackel MA, Karlowsky JA, Sahm DF, West JM, Scangarella-Oman NE. In vitro activity of gepotidacin against urinary tract infection isolates of Enterobacterales, Enterococcus faecalis, and Staphylococcus saprophyticus. Antimicrob Agents Chemother. 2025. PMID 40372095.
- Hossain M, Tiffany C, Raychaudhuri A, et al. Pharmacokinetics of Gepotidacin in Renal Impairment. Clin Pharmacol Drug Dev. 2020. PMID 32429000.
- Osheroff N. Gyrase and Topoisomerase IV as Antibacterial Targets for Gepotidacin and Zoliflodacin: Teaching Old Enzymes New Tricks. Int J Mol Sci. 2026. PMID 41516368.
- Ramírez M, Gupta K, Díaz-Regañón J, et al. Gepotidacin and Early Symptom Improvement in Uncomplicated Urinary Tract Infection: A Nonrandomized Clinical Trial. JAMA Netw Open. 2026. PMID 42809288.
- Scangarella-Oman NE, Hossain M, Hoover JL, et al. Dose Selection for Phase III Clinical Evaluation of Gepotidacin (GSK2140944) in the Treatment of Uncomplicated Urinary Tract Infections. Antimicrob Agents Chemother. 2022. PMID 34978887.
- Scangarella-Oman NE, Butler DL, Breton J, et al. Efficacy and in vitro activity of gepotidacin against bacterial uropathogens, including drug-resistant phenotypes, in females with uncomplicated urinary tract infections: results from two global, pivotal, phase 3 trials (EAGLE-2 and EAGLE-3). Antimicrob Agents Chemother. 2025. PMID 40924001.
- Scangarella-Oman NE, Butler DL, Breton J, et al. Efficacy and in vitro activity of gepotidacin against bacterial uropathogens, including subsets with molecularly characterized resistance mechanisms and genotypes/epidemiological clones, in females with uncomplicated urinary tract infections: results from two global, pivotal, phase 3 trials (EAGLE-2 and EAGLE-3). Antimicrob Agents Chemother. 2025. PMID 40924012.
- Sheets AJ, Dennison J, Pogue JM, et al. Early Symptom Response in Patients With Uncomplicated Urinary Tract Infection Treated With Gepotidacin or Nitrofurantoin: Pooled Analysis From Two Pivotal Phase 3 Studies. Clin Infect Dis. 2026. PMID 41495938.
- Tiffany C, Dumont EF, Hossain M, Srinivasan M, Swift B. Pharmacokinetics, safety, and tolerability of gepotidacin administered as single or repeat ascending doses, in healthy adults and elderly subjects. Clin Transl Sci. 2022. PMID 35769034.
- U.S. Food and Drug Administration. Drugs@FDA: FDA-Approved Drugs. NDA 218230, Blujepa. Consultada em 24/10/2026. Fonte oficial.
- Weikel CA, Breton J, Butler D, et al. Characterization of isolates from two phase 3 uncomplicated urinary tract infection trials (EAGLE-2 and EAGLE-3) that show an apparent ≥4-fold increase in gepotidacin MIC between baseline and post-baseline visits. JAC Antimicrob Resist. 2026. PMID 42682990.