TraumaToxicologia

Projétil retido: quando retirar e o risco de chumbo

Projétil antigo deformado sobre um suporte vermelho
Sumário
  1. Por que muitos projéteis ficam
  2. Quando retirar
  3. O chumbo dentro do corpo
  4. Sintomas de intoxicação por chumbo
  5. Diagnóstico e acompanhamento
  6. Tratamento da intoxicação
  7. Projéteis que migram
  8. Coluna, pulmão e outras localizações
  9. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  10. Perguntas frequentes
  11. Take-home messages
  12. Referências

A cena a seguir é fictícia e foi escrita para ensino. Um homem de 50 anos procura o ambulatório com dor abdominal em cólica, prisão de ventre, cansaço e perda de peso há dois meses. Já fez endoscopia e ultrassonografia, sem achados. No exame, está pálido. Ao ser perguntado sobre antecedentes, lembra que levou um tiro no quadril há quase vinte anos e que o projétil "ficou lá dentro". O hemograma mostra anemia leve. A radiografia do quadril mostra fragmentos metálicos dentro da articulação. Um projétil esquecido há duas décadas pode explicar a dor abdominal?

Este texto resume o que acontece com projéteis que ficam no corpo depois de um ferimento por arma de fogo: quando deixá-los, quando retirá-los, o risco de intoxicação por chumbo e a migração pelos vasos. O conteúdo é educativo, voltado a estudantes e profissionais de saúde, e não substitui protocolos locais nem a avaliação de cirurgiões, toxicologistas e centros de informação toxicológica.

Principais pontos

  • A maioria dos projéteis retidos é bem tolerada e não precisa ser retirada.
  • O risco de intoxicação por chumbo é baixo, exceto quando o projétil fica em contato com líquido sinovial, disco intervertebral ou líquido cefalorraquidiano.
  • Os sintomas da intoxicação são inespecíficos e podem aparecer anos ou décadas depois do ferimento.
  • A dosagem de chumbo no sangue é o exame central para investigar a suspeita.
  • O tratamento combina retirada da fonte, quando possível, e quelação conduzida por especialista.
  • Projéteis podem migrar pelos vasos até o coração, os pulmões ou um membro, e isso exige avaliação individual.

Por que muitos projéteis ficam

Depois de um ferimento por arma de fogo, o projétil, ou seus fragmentos, muitas vezes fica no corpo. Procurar cada fragmento exigiria dissecar tecidos saudáveis, aumentaria o sangramento e o risco de infecção e, em muitos casos, causaria mais dano que o próprio projétil. Por isso, a regra na fase aguda é tratar as lesões e deixar o metal que não incomoda.

Uma revisão americana sobre balística, patologia e projéteis retidos observa que, ao contrário do que se costuma pensar, o risco de intoxicação por chumbo é incomum, a menos que o projétil fique em contato com líquido sinovial ou com um disco intervertebral (Baum e colaboradores, 2022). A mesma revisão aponta que as diretrizes existentes são em boa parte antigas e que, segundo uma pesquisa de 2022, apenas 14,5 em cada 100 dos cirurgiões relatavam ter políticas institucionais para retirada de projéteis.

A falta de regras claras faz com que a decisão dependa do julgamento de cada equipe. Isso torna ainda mais importante que o paciente saiba que tem um projétil retido, onde ele está e quais sintomas devem levá-lo a procurar atendimento. A informação precisa constar no resumo de alta e ser repassada ao médico que fará o acompanhamento.

Radiografia histórica mostrando projétil retido
Radiografia histórica de um projétil retido. Muitos projéteis ficam no corpo por décadas sem causar sintomas. Crédito: Elizabeth Fleischman, domínio público (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Quando retirar

A decisão de retirar um projétil considera a localização, os sintomas, o risco da cirurgia e o risco de deixar o metal. Não existe uma lista universal, mas as situações abaixo aparecem com frequência na literatura revisada neste texto:

Radiografia antiga de tórax em preto e branco, com setas manuscritas indicando o esterno, a quinta costela e um projétil arredondado no lado direito
Radiografia de 1912 de Theodore Roosevelt, ex-presidente dos Estados Unidos, com o projétil que ficou alojado no tórax pelo resto da vida. Crédito: Bain News Service, acervo da Library of Congress, domínio público (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).
  • Projétil dentro de articulação, pelo risco de intoxicação por chumbo e de artrite.
  • Projétil em contato com o líquido cefalorraquidiano ou dentro do disco intervertebral.
  • Projétil dentro de um vaso ou de uma cavidade cardíaca, pelo risco de migração e embolia.
  • Projétil que comprime um nervo e causa dor ou déficit.
  • Projétil associado a infecção, abscesso ou fístula.
  • Projétil superficial, palpável e que causa dor ou incômodo.
  • Sinais clínicos ou laboratoriais de intoxicação por chumbo.

Mesmo nesses casos, o momento pode variar. Em um paciente instável, a prioridade é a sobrevivência, e o projétil pode ser retirado depois. Em um paciente estável com projétil intra-articular, muitos cirurgiões preferem retirar cedo, antes que o chumbo se dissolva no líquido sinovial, em geral por artroscopia ou pequena artrotomia.

A revisão de Baum e colaboradores cita um caso de retirada de projétil do tornozelo 49 anos depois do ferimento, por artropatia e intoxicação sistêmica por chumbo (Baum e colaboradores, 2022). O exemplo mostra que o risco não desaparece com o tempo.

O chumbo dentro do corpo

A maioria dos projéteis tem núcleo de chumbo, com ou sem revestimento de cobre ou de outra liga. Quando o projétil fica envolvido por tecido fibroso, no músculo ou na gordura, a cápsula de fibrose isola o metal e pouco chumbo é absorvido. Em líquidos como o sinovial e o cefalorraquidiano, essa cápsula não se forma bem, e o chumbo se dissolve aos poucos. Baum e colaboradores explicam que o chumbo é muito solúvel no líquido sinovial, e que projéteis retidos em espaços articulares podem causar efeitos locais e sistêmicos (Baum e colaboradores, 2022).

Um estudo de caso e controle no Rio de Janeiro comparou 45 vítimas de ferimentos por arma de fogo com fragmentos metálicos retidos havia mais de 6 meses com 45 controles pareados por sexo, idade e cor. O nível médio de chumbo no sangue foi de 9,01 microgramas por decilitro nos casos e de 2,17 nos controles. Os casos relataram com mais frequência irritabilidade, mau humor, dor de cabeça, perda de memória, sonolência diurna, dor muscular, fraqueza, dor abdominal, dor articular, tremor e formigamento (de Araújo e colaboradores, 2015).

Os autores concluíram que projéteis retidos não são inofensivos, com efeitos sobre o nível de chumbo no sangue e sobre os sintomas mesmo com poucos fragmentos, localização fora da articulação ou níveis baixos de chumbo. Eles lembram a posição da Organização Mundial da Saúde de que não há nível de exposição ao chumbo considerado seguro (de Araújo e colaboradores, 2015). O achado não significa que todo projétil deva ser retirado, mas reforça a importância do acompanhamento.

Fatores frequentemente associados a maior absorção de chumbo a partir de um projétil retido:

  • Localização em articulação, disco intervertebral ou espaço com líquido cefalorraquidiano.
  • Fragmentação, que aumenta a superfície de contato do metal.
  • Fratura associada, com contato do metal com o osso em remodelação.
  • Tempo de permanência longo.
  • Situações que aumentam a remodelação óssea, como gravidez, imobilização e hipertireoidismo.
  • Infecção ou inflamação em torno do projétil.

Sintomas de intoxicação por chumbo

A intoxicação por chumbo é chamada de grande imitadora por seus sintomas inespecíficos. Baum e colaboradores descrevem que sintomas como dor de cabeça, cansaço, náusea, desconforto abdominal, anemia, insuficiência renal, encefalopatia e neuropatia costumam aparecer apenas com níveis séricos acima de 24 microgramas por decilitro (Baum e colaboradores, 2022).

A dor abdominal é um dos sintomas mais enganadores. Um relato descreve um homem de 48 anos com dor abdominal, perda de peso e prisão de ventre, com antecedente de ferimento por arma de fogo no quadril esquerdo cerca de 20 anos antes. A radiografia mostrou numerosos fragmentos intra-articulares e hemartrose calcificada em torno da cabeça do fêmur. O nível de chumbo no sangue estava aumentado, e a quelação levou a melhora dos sintomas (Abraham e colaboradores, 2012). Os autores lembram que o período de latência imprevisível e os sintomas inespecíficos tornam o diagnóstico difícil, e que a intoxicação pode ser fatal se não for reconhecida.

Um relato mais antigo descreve um homem de 23 anos com cólicas abdominais, fraqueza, vômitos e diarreia com fezes escuras, recorrentes havia dois anos. A radiografia mostrou um projétil alojado no quadril esquerdo, com o contraste natural do chumbo desenhando toda a cápsula sinovial (de Madureira e colaboradores, 2000). Depois da quelação, os sintomas voltaram, e a solução foi a substituição completa da articulação do quadril por uma prótese.

SistemaManifestações possíveis
GastrointestinalDor abdominal em cólica, prisão de ventre, náusea, vômitos, perda de peso
HematológicoAnemia, pontilhado basófilo nas hemácias
Nervoso centralDor de cabeça, irritabilidade, alteração de memória, encefalopatia
Nervoso periféricoFormigamento, fraqueza, neuropatia motora
RenalLesão renal, que pode ser progressiva
MusculoesqueléticoDor articular, artropatia na articulação onde está o projétil

Voltando à cena do início, a combinação de dor abdominal em cólica, prisão de ventre, anemia e fragmentos metálicos dentro do quadril se parece muito com os relatos descritos acima. A hipótese de intoxicação por chumbo não exclui outras causas, e a investigação do abdome continua, mas a dosagem de chumbo no sangue passa a ser um exame prioritário.

Diagnóstico e acompanhamento

A dosagem de chumbo no sangue é o exame central. Em pacientes com projétil intra-articular, em contato com líquido cefalorraquidiano ou com sintomas compatíveis, ela pode ser repetida ao longo do tempo para detectar aumento. Um relato sobre intoxicação depois de fratura cominutiva do joelho com fragmentos retidos destaca que a interrupção da exposição é o foco principal, e que o acompanhamento dos níveis de chumbo e a quelação fazem parte do manejo quando a retirada completa dos fragmentos não é viável (Costantini e colaboradores, 2023).

Outros exames ajudam a avaliar o impacto do chumbo: hemograma com esfregaço, função renal, protoporfirina eritrocitária e, em alguns serviços, ácido aminolevulínico na urina. A radiografia mostra a posição e a fragmentação do projétil, e a tomografia ajuda a definir a relação com articulações e com o canal medular. Baum e colaboradores lembram que a ressonância magnética é contraindicada pela natureza metálica dos projéteis comuns (Baum e colaboradores, 2022), e a decisão de fazer o exame depende de avaliação caso a caso pelo radiologista.

O acompanhamento de longo prazo não tem calendário padronizado. Uma estratégia razoável, discutida nos relatos revisados, é dosar o chumbo quando surgem sintomas, depois de cirurgias que mexem na região do projétil e em situações de maior risco, como fraturas novas no mesmo osso. Mudanças no padrão da radiografia, como o contorno da cápsula articular desenhado pelo metal, também chamam atenção para a dissolução do chumbo.

O diagnóstico depende muito de lembrar do projétil. Em pacientes com dor abdominal inexplicada, anemia, neuropatia ou alterações cognitivas, perguntar sobre ferimentos por arma de fogo antigos, mesmo de décadas atrás, pode encurtar uma investigação longa.

Tratamento da intoxicação

O tratamento tem dois pilares: retirar a fonte e reduzir a carga de chumbo no corpo. Quando o projétil é acessível, a retirada é o passo mais importante, porque a quelação sem retirada tende a ser seguida de recidiva. O relato de Costantini e colaboradores destaca a ausência de diretrizes para os casos em que a retirada completa é inviável, a importância da decisão multidisciplinar e o respeito à autonomia do paciente (Costantini e colaboradores, 2023).

A quelação usa medicamentos que se ligam ao chumbo e facilitam sua eliminação pela urina. Nos relatos revisados aqui, foram usados o edetato cálcico dissódico por via venosa (de Madureira e colaboradores, 2000) e o succímero por via oral (Abraham e colaboradores, 2012). A escolha do medicamento, a dose e a duração devem ser definidas com toxicologista ou centro de informação toxicológica, conforme o nível de chumbo, os sintomas e a função renal.

Outro caso mostra como o tratamento pode durar anos. Um homem de 42 anos teve um projétil retido junto à medula depois de um assalto. Anos depois, desenvolveu dor lombar intensa e foi operado duas vezes; depois da segunda cirurgia, surgiu dor abdominal intensa. Durante cinco anos, ele recebeu ciclos de quelação com edetato cálcico, com boa resposta nos períodos sintomáticos, até a normalização dos marcadores (Madureira e colaboradores, 2009). Os autores relacionaram a intoxicação ao contato do projétil com o líquido cefalorraquidiano.

Peça anatômica histórica de coração com projétil alojado
Coração com um projétil alojado, peça histórica de museu. Projéteis podem chegar ao coração por ferimento direto ou por migração venosa. Crédito: Lyman A. Brewer III, M.D., and Thomas H. Burford, M.D., domínio público (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Projéteis que migram

A embolia de projétil acontece quando o projétil, ou um fragmento, entra em um vaso sem sair dele e é carregado pelo sangue. Na circulação venosa, ele segue para o coração direito e para as artérias pulmonares; na circulação arterial, para o cérebro, as vísceras ou os membros. Um relato descreve um jovem de 19 anos com múltiplos ferimentos no tronco cujo projétil foi parar na artéria poplítea esquerda, exigindo embolectomia. A investigação levou ao diagnóstico de um falso aneurisma da aorta abdominal que não tinha ficado claro antes (Huang e colaboradores, 2016). Os autores observam que a embolia periférica é frequentemente mal diagnosticada por falta de sintomas precoces.

Outro relato descreve um homem de 29 anos atingido no braço esquerdo, com o projétil entrando no tórax sem saída. A radiografia inicial mostrou o projétil na coxa esquerda, e a tomografia revelou um falso aneurisma da aorta torácica descendente e o projétil dentro da artéria femoral superficial (Pereira e colaboradores, 2018). O paciente tinha pulsos diminuídos no pé esquerdo e dormência nos dedos, uma pista de que o projétil estava no lugar errado. O falso aneurisma da aorta foi tratado com endoprótese, e o projétil foi retirado por uma incisão na virilha esquerda, com embolectomia (Pereira e colaboradores, 2018). Os autores destacam que o diagnóstico depende de alto grau de suspeita.

Na circulação venosa, um relato descreve embolia de projétil para a artéria pulmonar com infarto pulmonar depois de um ferimento no olho esquerdo (Duke e colaboradores, 2014). Outro relato, sobre embolia venosa para o ventrículo direito, recomenda retirar cirurgicamente os projéteis no coração direito quando o risco de esternotomia e cardiotomia é baixo, e considera a retirada endovascular como alternativa. A revisão lista três opções, observação, retirada endovascular e retirada cirúrgica, e reconhece que há controvérsia, porque existem vários relatos de sucesso apenas com observação. Os autores recomendam ecocardiograma transesofágico antes de qualquer tentativa de retirada de um corpo estranho no coração (Henderson e colaboradores, 2021).

Sinais que sugerem embolia de projétil:

  • Ferimento de entrada sem saída e sem projétil no trajeto esperado.
  • Projétil em lugar anatomicamente impossível a partir do ferimento.
  • Projétil que muda de posição entre exames.
  • Isquemia de membro ou de víscera longe do ferimento.
  • Déficit neurológico novo.
  • Dor torácica, falta de ar ou arritmia sem lesão torácica direta.

Coluna, pulmão e outras localizações

Projéteis no canal medular são um problema especial. Um relato de projétil retido no canal medular cervical, com lesão medular completa no nível de C4, descreve as dúvidas sobre a cirurgia nesses casos: a retirada raramente melhora a função neurológica, e a decisão depende de vários fatores. A revisão discute que a retirada precoce pode prevenir a toxicidade pelo chumbo em contato com o líquido cefalorraquidiano (Benton e colaboradores, 2020). O paciente desse relato foi tratado sem cirurgia, permaneceu dependente de ventilação e morreu por parada cardíaca atribuída a embolia pulmonar.

No pulmão, a maioria dos projéteis é deixada no lugar. Um relato iraquiano descreve um homem de 46 anos com dor torácica vaga no local de um ferimento ocorrido 26 anos antes, com um corpo estranho de 22 milímetros no lobo inferior esquerdo. O projétil foi retirado por videotoracoscopia por um único portal, e o defeito foi suturado (Kakamad e colaboradores, 2021). Técnicas minimamente invasivas tornaram a retirada mais simples quando há indicação.

A revisão de Huang e colaboradores lembra que a embolia pode seguir pelo sistema arterial ou venoso, com locais comuns que incluem o ventrículo esquerdo, a veia pulmonar, a aorta torácica e abdominal e as artérias periféricas (Huang e colaboradores, 2016). Por isso, a busca por um projétil que não aparece no trajeto deve incluir tórax, abdome e membros, e não apenas a região do ferimento. Uma radiografia que não encontra o projétil onde ele deveria estar é um achado importante, não um detalhe.

Nos membros, projéteis em partes moles costumam ser deixados, a menos que fiquem em articulação, causem dor ou comprimam um nervo. Projéteis em ossos podem ser retirados durante a fixação de fraturas, quando acessíveis. Em todas as localizações, o acompanhamento inclui orientar o paciente sobre sintomas de alerta e registrar a presença do metal no prontuário.

O que a vigilância de chumbo no sangue mostrou

Um relatório dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos analisou os adultos com chumbo no sangue igual ou acima de 10 microgramas por decilitro notificados ao programa nacional de vigilância entre 2003 e 2012. Foram 145.811 pessoas a partir dos 16 anos, em 41 estados, e 457 delas tinham fragmentos de projétil retidos (Weiss e colaboradores, 2017). O maior valor ligado a fragmento retido foi de 306 microgramas por decilitro (Weiss e colaboradores, 2017).

Os números mostram o tamanho e o perfil do problema. Os casos ligados a projétil representaram 0,3 por cento de todos os níveis elevados, mas 4,9 por cento dos níveis acima de 80 microgramas por decilitro, ou seja, pesam mais entre as intoxicações graves (Weiss e colaboradores, 2017). Eles ocorreram sobretudo em homens de 16 a 24 anos, fora do ambiente de trabalho (Weiss e colaboradores, 2017).

O relatório também explica por que esse diagnóstico escapa. A dosagem de chumbo em adultos costuma ser pedida para vigiar exposição ocupacional, e o exame de rotina em quem tem fragmento retido é pouco frequente. Os sintomas são inespecíficos, como cansaço, dor abdominal e perda de memória, e podem surgir anos depois do ferimento (Weiss e colaboradores, 2017). Até 2004, menos de cem relatos de intoxicação por chumbo de projétil retido haviam sido publicados na literatura médica, o que sugere que a vigilância encontra muito mais casos do que os relatos isolados deixam ver (Weiss e colaboradores, 2017).

Para o raciocínio clínico, o recado é direto. Diante de anemia, dor abdominal sem causa clara, neuropatia ou alteração de memória, a pergunta sobre ferimentos antigos por arma de fogo pode encurtar a investigação, e a dosagem de chumbo no sangue confirma ou afasta a hipótese.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

Treinar com casos clínicos fictícios ajuda a reconhecer padrões antes de encontrá-los no plantão, desde que cada pista seja lida com calma e confrontada com as hipóteses que ainda continuam abertas. Intoxicação por chumbo a partir de projétil retido é um exemplo de diagnóstico que depende de uma pista do passado: a dor abdominal e a anemia só fazem sentido quando aparece o antigo ferimento. O hábito de revisar o caso antes de concluir é tratado no texto sobre pausa diagnóstica, e as lesões ocultas no texto sobre trauma por explosão.

Também ajudam os textos sobre diagnóstico diferencial com pistas, incerteza diagnóstica e tomada de decisão clínica. Para entender pontos e recompensas, veja a página de economia do NEXO. Há ainda trilhas para quem pesquisa (Researcher), para quem revisa casos (Curator), para quem produz conteúdo (Creators) e para quem quer acompanhar resultados (Closer).

Perguntas frequentes

Ter um projétil no corpo é perigoso?

Na maioria das vezes, não. Projéteis envolvidos por fibrose em músculo ou gordura raramente causam problemas. O risco aumenta quando o projétil está em articulação, disco intervertebral, canal medular ou dentro de um vaso.

Quanto tempo depois a intoxicação pode aparecer?

Meses, anos ou décadas. Os relatos revisados neste texto descrevem casos com 20 anos e até 49 anos entre o ferimento e o diagnóstico.

Quem tem projétil retido deve dosar chumbo no sangue?

A dosagem é indicada quando há sintomas compatíveis ou quando o projétil está em localização de risco, como articulação ou contato com líquido cefalorraquidiano. Para os demais, a conduta segue o protocolo local.

Fragmentos pequenos também liberam chumbo?

Sim. Fragmentos aumentam a superfície de contato do metal com os tecidos, e o estudo de caso e controle citado neste texto encontrou níveis de chumbo mais altos e mais sintomas mesmo em pacientes com poucos fragmentos e fora das articulações. Isso não obriga a retirada, mas justifica atenção aos sintomas.

A quelação resolve sem retirar o projétil?

Ela reduz o chumbo no sangue, mas, se a fonte continua, os níveis tendem a subir de novo. Quando possível, a retirada do projétil é o passo principal.

Posso fazer ressonância magnética com um projétil no corpo?

Depende do material e da localização do projétil. Muitos serviços contraindicam o exame, e a decisão deve ser tomada pelo radiologista com base na imagem e na história.

Um projétil pode se mover anos depois?

Pode, embora seja raro. Projéteis dentro de vasos, de cavidades cardíacas ou de espaços com líquido, como o canal medular, têm mais chance de mudar de posição. Radiografias comparativas ajudam a confirmar a migração quando surgem sintomas novos.

A gravidez muda alguma coisa?

Mulheres com projéteis retidos em localização de risco devem informar a equipe do pré-natal. O chumbo atravessa a placenta, e a decisão sobre dosagens e acompanhamento deve ser tomada com o obstetra e, se necessário, com toxicologista.

Take-home messages

  • Registrar no prontuário e no resumo de alta a presença e a posição de projéteis retidos.
  • Avaliar a retirada de projéteis em articulação, canal medular, vaso ou coração.
  • Perguntar sobre ferimentos antigos em pacientes com dor abdominal, anemia ou neuropatia sem explicação.
  • Dosar chumbo no sangue quando houver suspeita clínica ou localização de risco.
  • Conduzir a quelação com toxicologista ou centro de informação toxicológica.
  • Procurar embolia quando o projétil não estiver onde deveria.
  • Orientar o paciente sobre sintomas de alerta.

Se você gosta de raciocinar a partir de pistas, o caso do dia está esperando na página inicial do NEXO.

Referências

  1. Abraham A, Singh J, Mustacchia P, et al. Pain from a Bullet Lingers on: An Uncommon Case of Lead Toxicity. Case Rep Gastroenterol. 2012. PMID 22679412.
  2. Baum GR, Baum JT, Hayward D, et al. Gunshot Wounds: Ballistics, Pathology, and Treatment Recommendations, with a Focus on Retained Bullets. Orthop Res Rev. 2022. PMID 36090309.
  3. Benton JA, Rahme R, Krystal J, et al. Retained bullet in the cervical spinal canal and the associated surgical management conundrum: case report and review of the literature. Spinal Cord Ser Cases. 2020. PMID 32826864.
  4. Costantini I, Carollo M, Losso L, et al. "Heavy Metal": Management of lead toxicity following a gunshot injury with retained lead fragments, a case report. Toxicol Rep. 2023. PMID 38021473.
  5. de Araújo GC, Mourão NT, Pinheiro IN, et al. Lead Toxicity Risks in Gunshot Victims. PLoS One. 2015. PMID 26509498.
  6. de Madureira PR, De Capitani EM, Vieira RJ. Lead poisoning after gunshot wound. Sao Paulo Med J. 2000. PMID 10810333.
  7. Duke E, Peterson AA, Erly WK. Migrating bullet: A case of a bullet embolism to the pulmonary artery with secondary pulmonary infarction after gunshot wound to the left globe. J Emerg Trauma Shock. 2014. PMID 24550629.
  8. Henderson L, Wachsman A, Chikwe J, et al. Venous bullet embolism to the right ventricle: Case report and review of management. Clin Case Rep. 2021. PMID 33598272.
  9. Huang J, Pandey V, Shah R, et al. Popliteal artery embolism of bullet after abdominal gunshot wound. Radiol Case Rep. 2016. PMID 27920844.
  10. Kakamad FH, Ali RK, Mohammed SH, et al. Single port video-assisted thoracoscopic surgery for removal of a retained bullet in the lung parenchyma; A case report with literature review. Ann Med Surg (Lond). 2021. PMID 34840741.
  11. Madureira PR, De Capitani EM, Vieira RJ, et al. Lead poisoning due to gunshot bullet in contact with cerebrospinal fluid: case report. Sao Paulo Med J. 2009. PMID 19466296.
  12. Pereira RM, Souza JEDS, de Araújo AO, et al. Arterial bullet embolism after thoracic gunshot wound. J Vasc Bras. 2018. PMID 30643515.
  13. Weiss D, Tomasallo CD, Meiman JG, et al. Elevated Blood Lead Levels Associated with Retained Bullet Fragments, United States, 2003-2012. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2017. PMID 28182606.

Voltar ao blog