DTPA para plutônio e amerício: ferida contaminada

Sala industrial em preto e branco com caixas de luvas metálicas, escadas e tubulações
Sumário
  1. Por que este é um cenário de raciocínio
  2. O que o amerício faz dentro do corpo
  3. A ferida: lavar, medir e decidir a excisão
  4. DTPA: qual sal, que dose e por qual via
  5. Riscos e erros de raciocínio
  6. Situação regulatória: FDA e OMS
  7. Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio
  8. Perguntas frequentes
  9. Checklist final
  10. Referências

Uma técnica de laboratório de 31 anos trabalha numa caixa de luvas preparando uma solução de nitrato de amerício-241. Um frasco de vidro trinca, a luva rasga e ela sente uma picada na ponta do indicador esquerdo. Ela tira a mão, vê uma gota de sangue e chama o supervisor de proteção radiológica. O detector de mão aponta contagem alta sobre o corte. Não há outra lesão, ela está consciente, sem dor importante, e o corte tem cerca de 3 mm. Na enfermaria da instalação, a enfermeira pergunta ao médico de plantão se deve dar um ponto, se o corte precisa ir para a cirurgia e se existe algum remédio para tirar o material de dentro do corpo. A cena é fictícia e foi escrita para ensino.

O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, até seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.

Este texto usa o quadro como cenário de raciocínio clínico para estudantes e profissionais de saúde. O tema é a contaminação interna por plutônio, amerício e cúrio que entram por uma ferida, e o tratamento com os sais de DTPA. O foco é o que o médico decide nas primeiras horas: descontaminar a ferida sem aumentar o dano, medir o que ficou, pensar na excisão, escolher entre Ca-DTPA e Zn-DTPA, acertar a dose e a via e planejar o monitoramento por meses. Ele não substitui o protocolo do seu serviço nem a orientação do especialista em proteção radiológica. Se você joga o caso do dia no NEXO, vai reconhecer o desafio: decidir com pistas que chegam em sequência.

Principais pontos

  • Uma ferida contaminada com um emissor alfa é uma porta de entrada para o sangue, e o tempo conta.
  • A ferida deve ser lavada com soro fisiológico sem causar mais trauma, e a lavagem para quando a contagem deixa de cair.
  • A excisão do tecido contaminado entra na conversa quando a atividade residual na ferida é alta.
  • A primeira dose, nas primeiras 24 horas, é de Ca-DTPA, 1 g por via intravenosa no adulto e 14 mg/kg na criança, sem passar de 1 g.
  • Depois da primeira dose, a manutenção é preferencialmente com Zn-DTPA, porque o Ca-DTPA retira mais zinco, magnésio e manganês do corpo.
  • Na gestante, o tratamento começa e continua com Zn-DTPA, salvo contaminação interna alta.

Por que este é um cenário de raciocínio

O corte da cena é pequeno, e é isso que torna o caso traiçoeiro. A tentação é tratar como um ferimento comum de laboratório: limpar, fechar e liberar. Mas a ferida contaminada com amerício não é só um problema de pele. Ela é uma via de entrada para um emissor alfa que, se chegar ao sangue, vai se depositar no fígado e no osso por anos. A decisão que importa é tomada nas primeiras horas, quando o material ainda está no local da ferida ou circulando.

A revisão de Li e colaboradores sobre incidentes do passado mostra que, em cada evento, é preciso considerar o radionuclídeo envolvido, a via de exposição, o monitoramento individual, a estimativa de dose e o tratamento (Li e colaboradores, 2022). A mesma revisão apresenta acidentes de trabalho em que as vias incluíram não só a inalação e a ingestão, mas também feridas e absorção pela pele (Li e colaboradores, 2022). Griffiths e colaboradores lembram que, em acidentes de trabalho em instalações nucleares, as vias mais prováveis de contaminação interna por plutônio e amerício são a inalação e a ferida (Griffiths e colaboradores, 2021).

O post sobre tomada de decisão clínica ajuda a organizar as escolhas em sequência, e o post sobre raciocínio clínico interprofissional mostra por que a conversa com o supervisor de proteção radiológica faz parte da conduta.

O que a cena ensina

A cena treina seis hábitos. O primeiro é tratar primeiro o que ameaça a vida e só depois a contaminação. O segundo é lavar a ferida com soro fisiológico e medir de novo. O terceiro é parar a lavagem quando a contagem não cai mais. O quarto é discutir a excisão com base na atividade residual. O quinto é dar a primeira dose de Ca-DTPA nas primeiras horas, sem esperar o resultado do exame de urina. O sexto é montar o plano de coleta de urina e fezes e o controle de zinco e de hemograma.

O que não está em jogo

O texto não trata do césio, que tem outro antídoto, nem do iodo radioativo, que foi o tema do texto anterior desta série. Também não trata da síndrome aguda da radiação, porque a dose externa de um pequeno corte com amerício é baixa. O foco é a contaminação interna por actinídeos. O post sobre pausa diagnóstica ajuda a não fechar o caso como um corte banal antes de olhar o detector.

O que o amerício faz dentro do corpo

O amerício, o plutônio e o cúrio são actinídeos que emitem partículas alfa. Na pele íntegra eles quase não penetram, porque a pele costuma ser uma boa barreira, exceto quando está lesada, como numa queimadura, ou aberta, como numa ferida (Kazzi e colaboradores, 2015). Kazzi e colaboradores descrevem as vias de entrada do material radioativo no corpo: o trato digestivo, o trato respiratório, as feridas abertas e, com menos frequência, a pele íntegra (Kazzi e colaboradores, 2015).

Depois da ferida, parte do material fica no local de entrada e parte passa para o sangue. Griffiths e colaboradores mostram que a contaminação interna por inalação ou por ferida deposita o material no local primário, o pulmão ou a ferida, e também nos tecidos que retêm esses elementos no corpo (Griffiths e colaboradores, 2021). A bula do Ca-DTPA explica que a eficácia do quelante diminui com o tempo porque os actinídeos passam a ficar incorporados aos tecidos (bula do Ca-DTPA). Ela também diz que a eficácia cai à medida que o material fica sequestrado no fígado e no osso (bula do Ca-DTPA).

A forma química muda tudo

A solubilidade do composto pesa tanto quanto o radionuclídeo. Griffiths e colaboradores contaminaram feridas e pulmões de ratos com um óxido misto pouco solúvel ou com formas mais solúveis de plutônio, como nitrato e citrato (Griffiths e colaboradores, 2021). Depois do óxido pouco solúvel, a maior parte da atividade ficou no local de entrada, e pouca chegou ao resto do corpo (Griffiths e colaboradores, 2021). Os protocolos de DTPA não conseguiram remover o actinídeo insolúvel do pulmão nem da ferida (Griffiths e colaboradores, 2021). Para os actinídeos moderadamente solúveis, o DTPA local ou intravenoso reduziu a atividade tanto no local da contaminação quanto nos órgãos (Griffiths e colaboradores, 2021).

Na cena, o material é nitrato de amerício em solução, uma forma mais solúvel. Isso aumenta a chance de passagem para o sangue e também a chance de o DTPA funcionar. Se o material fosse um óxido, a ferida seria o principal depósito, e a excisão teria um papel ainda maior.

Peça plástica redonda com o símbolo de radiação e a inscrição de amerício-241 e atividade em microcuries e quilobecquerels
Câmara de um detector de fumaça doméstico com uma fonte selada de amerício-241. A atividade dessa fonte é pequena, mas o mesmo radionuclídeo, em solução, é o contaminante da ferida da cena. Foto: Whitepaw, Wikimedia Commons, domínio público.

A ferida: lavar, medir e decidir a excisão

A primeira regra é que a contaminação não passa à frente do atendimento. A ferida da cena é pequena e a paciente está estável, então a descontaminação pode começar logo. Kazzi e colaboradores descrevem a sequência: um levantamento com detector para localizar a contaminação nos orifícios do rosto, na pele e na ferida, seguido da descontaminação com água e sabão onde houver contagem (Kazzi e colaboradores, 2015). Eles recomendam lavar as feridas contaminadas com soro fisiológico, tomando cuidado para não causar trauma adicional ao tecido (Kazzi e colaboradores, 2015).

Quando parar de lavar

A lavagem não é infinita. Se um novo levantamento da ferida não mostrar mais queda na quantidade de radiação detectada, a descontaminação deve parar, e a ferida deve ser reparada conforme a indicação clínica, sem se prender demais à contaminação (Kazzi e colaboradores, 2015). A regra protege contra o erro de esfregar a ferida por horas e criar uma lesão maior que a original.

A pele lesada é mais difícil de descontaminar. No modelo de Van der Meeren e colaboradores, com pele de rato fora do corpo, a lavagem com água deixou entre 70 e 80 por cento da atividade na pele lesada, contra 20 a 60 por cento na pele sadia (Van der Meeren e colaboradores, 2024). No mesmo estudo, um gel com Ca-DTPA descontaminou melhor a pele lesada que a solução de Ca-DTPA (Van der Meeren e colaboradores, 2024). O gel ainda é um produto experimental, e o dado serve para mostrar que a lavagem simples remove só uma parte do material.

Medir o que ficou na ferida

Depois da lavagem, a equipe de proteção radiológica mede a atividade que ficou na ferida. A revisão de Li e colaboradores descreve um acidente em 2014 na instalação de Mayak, na Rússia, em que um trabalhador de manutenção feriu a palma esquerda durante um reparo em equipamento contaminado (Li e colaboradores, 2022). A medida com detector semicondutor estimou 1 × 104 Bq de plutônio-239 na ferida, o que indicou a necessidade de retirar o tecido contaminado (Li e colaboradores, 2022). A excisão no mesmo dia reduziu a atividade na ferida para 5,5 × 102 Bq (Li e colaboradores, 2022). As medidas seguintes confirmaram que não houve mais passagem de plutônio da ferida para o sangue (Li e colaboradores, 2022).

O acidente de Mayak também mostra o custo da demora. O atraso para identificar o caso veio da falta de notificação imediata, da ausência de um sistema de triagem para pequenas feridas puntiformes com actinídeos e do mês de espera pela análise do exame (Li e colaboradores, 2022). Na cena, a técnica avisou o supervisor na hora, e esse é o primeiro acerto do caso.

A excisão em outro caso

Em junho de 2010, um operador de caixa de luvas do Savannah River Site, nos Estados Unidos, sofreu uma ferida puntiforme ao ventilar latas com material antigo contaminado com plutônio-238 (Li e colaboradores, 2022). A medida no contador de corpo inteiro mostrou uma contaminação muito maior do que sugeriam as contagens de superfície (Li e colaboradores, 2022). A dose evitada pela retirada física com biópsias por punch e excisão, somada à remoção pelo DTPA, foi estimada em 1,1 Sv (Li e colaboradores, 2022). A lição é que a contagem na superfície da pele pode subestimar o que está dentro da ferida.

DTPA: qual sal, que dose e por qual via

Os dois sais de DTPA aprovados pela FDA são o pentetato de cálcio trissódico, chamado Ca-DTPA, e o pentetato de zinco trissódico, chamado Zn-DTPA (bula do Ca-DTPA) (bula do Zn-DTPA). A bula do Ca-DTPA indica o tratamento de pessoas com contaminação interna conhecida ou suspeita por plutônio, amerício ou cúrio, para aumentar a velocidade de eliminação (bula do Ca-DTPA). O Ca-DTPA forma quelatos estáveis com íons metálicos ao trocar o cálcio por um metal com maior afinidade, e os quelatos radioativos saem pela urina por filtração glomerular (bula do Ca-DTPA).

O DTPA não serve para todo radionuclídeo. A bula registra que o Ca-DTPA forma quelatos menos estáveis com urânio e netúnio e que não se espera eficácia contra eles (bula do Ca-DTPA). Ela também registra que o DTPA não se liga ao iodo radioativo (bula do Ca-DTPA). Se houver outros contaminantes ou se o contaminante for desconhecido, outras terapias podem ser necessárias, como o azul da Prússia e o iodeto de potássio (bula do Ca-DTPA).

Por que o cálcio primeiro

Em roedores contaminados com plutônio e tratados dentro de uma hora, o Ca-DTPA aumentou cerca de 10 vezes a eliminação urinária em relação ao Zn-DTPA (bula do Ca-DTPA). A capacidade de quelação do Ca-DTPA é máxima logo depois da contaminação e até cerca de 24 horas, quando o material ainda circula (bula do Ca-DTPA). Depois da primeira dose, a manutenção com Ca-DTPA ou com Zn-DTPA teve eliminação parecida, mas o Ca-DTPA teve mais toxicidade em doses comparáveis (bula do Ca-DTPA). A bula do Zn-DTPA descreve, no mesmo estudo, menos perda de metais, menos mortalidade e ausência das lesões de rim, fígado e intestino (bula do Zn-DTPA).

O REMM resume a sequência da FDA. Se os dois produtos estiverem disponíveis, a primeira dose deve ser de Ca-DTPA, porque ele é mais eficaz nas primeiras 24 horas (REMM, DTPA). Depois disso, os dois têm eficácia parecida, mas o Ca-DTPA causa mais perda de metais essenciais, como o zinco (REMM, DTPA). Se o Ca-DTPA não estiver disponível ou se o tratamento não puder começar nas primeiras 24 horas, o tratamento deve começar com Zn-DTPA (REMM, DTPA). Os dois sais não devem ser dados ao mesmo tempo (REMM, DTPA).

Doses

A bula indica uma dose inicial única de 1,0 g de Ca-DTPA por via intravenosa para adultos e adolescentes (bula do Ca-DTPA). Para crianças com menos de 12 anos, a dose inicial é de 14 mg/kg por via intravenosa, sem passar de 1,0 g (bula do Ca-DTPA). A dose de manutenção no adulto é de 1,0 g uma vez por dia por via intravenosa, e na criança é de 14 mg/kg uma vez por dia, sem passar de 1,0 g por dia (bula do Ca-DTPA). Não é preciso ajustar a dose na insuficiência renal, mas ela pode reduzir a velocidade de remoção, e a diálise pode ser usada nos pacientes muito contaminados (bula do Ca-DTPA).

A tabela resume a decisão entre os dois sais.

SituaçãoPrimeira escolhaObservação da bula
Primeiras 24 horas, adultoCa-DTPA 1 g IV, dose única inicialMais eficaz que o Zn-DTPA nesse período
Primeiras 24 horas, criança abaixo de 12 anosCa-DTPA 14 mg/kg IV, até 1 gVia inalatória sem segurança estabelecida em crianças
Manutenção a partir do dia seguinteZn-DTPA 1 g IV por diaSe só houver Ca-DTPA, dar suplemento com zinco
Início depois de 24 horas ou sem Ca-DTPAZn-DTPAEficácia parecida depois de 24 horas
GestanteZn-DTPA do início ao fimCa-DTPA só se a contaminação interna for alta
Contaminação só por inalação nas últimas 24 horasCa-DTPA nebulizado, diluído 1:1Pode piorar a asma

Via de administração

A via intravenosa é a recomendada e deve ser usada quando a via de contaminação não é conhecida ou quando há mais de uma via provável (bula do Ca-DTPA). A solução de 1 g em 5 mL pode ser dada em bolus lento por 3 a 4 minutos ou diluída em 100 a 250 mL de soro glicosado a 5 por cento, Ringer lactato ou soro fisiológico (bula do Ca-DTPA). Quando a contaminação foi só por inalação nas 24 horas anteriores, o Ca-DTPA pode ser nebulizado, diluído na proporção de 1 para 1 com água estéril ou soro (bula do Ca-DTPA). O REMM acrescenta que, se as vias forem múltiplas, como inalação e ferida, a via intravenosa é preferida (REMM, DTPA). A segurança e a eficácia da via intramuscular não foram estabelecidas (bula do Ca-DTPA).

Na cena, a contaminação é por ferida, então a via é intravenosa. Se houvesse suspeita de inalação de aerossol da solução no momento em que o frasco trincou, a via intravenosa continuaria sendo a escolha, porque cobre as duas vias.

O dado humano

Todos os dados clínicos vêm de pessoas contaminadas por acidente (bula do Ca-DTPA). No registro dos Estados Unidos, 18 pessoas tinham medidas de urina antes e depois do quelante, e 17 receberam 1 g de Ca-DTPA como primeira dose (bula do Ca-DTPA). Depois de uma dose, a média do fator de aumento da excreção urinária foi de 25,7 (bula do Ca-DTPA). Os resultados por via intravenosa e por via inalatória foram considerados parecidos (bula do Ca-DTPA). O tratamento mais longo durou cerca de 6,5 anos (bula do Ca-DTPA).

O acidente de Hanford

O caso mais citado de ferida com amerício é o de Hanford. Em 30 de agosto de 1976, uma coluna de resina com cerca de 100 g de amerício-241 e ácido nítrico explodiu na Plutonium Finishing Plant e contaminou muito um trabalhador (Li e colaboradores, 2022). Depois da descontaminação inicial no local, ele recebeu 1 g de Ca-DTPA por via intravenosa cerca de 2 horas após a exposição (Li e colaboradores, 2022). A equipe fez descontaminação da pele, desbridamento de feridas e retirada cirúrgica de fragmentos do rosto (Li e colaboradores, 2022). O Ca-DTPA foi dado duas vezes por dia nos primeiros quatro dias e entre os dias 16 e 25, com Zn-DTPA nos dias 5 a 15 e depois do dia 26 (Li e colaboradores, 2022). O tratamento com Zn-DTPA continuou por mais de 4 anos (Li e colaboradores, 2022). A estimativa é que o uso prolongado dos dois sais impediu o depósito de 99 por cento do amerício nos órgãos internos (Li e colaboradores, 2022).

Monitoramento e duração do tratamento

O monitoramento começa antes da primeira dose, quando possível. A bula pede amostras basais de sangue e urina: hemograma com diferencial, ureia, bioquímica e eletrólitos, exame de urina e radioanálise de sangue e urina (bula do Ca-DTPA). Para montar a curva de eliminação, deve-se obter uma estimativa basal da carga interna e medidas de eliminação por contagem de corpo inteiro, por bioensaio ou por amostras de fezes e urina (bula do Ca-DTPA). Kazzi e colaboradores lembram que a coleta de urina ou fezes de 24 horas permite medir a atividade de cada elemento por litro (Kazzi e colaboradores, 2015).

Durante o tratamento

Durante o tratamento, a radioatividade em sangue, urina e fezes deve ser medida toda semana para acompanhar a eliminação (bula do Ca-DTPA). O hemograma, a ureia, a bioquímica, os eletrólitos e o exame de urina devem ser monitorados com regularidade (bula do Ca-DTPA). O Ca-DTPA exige controle muito cuidadoso do zinco sérico e do hemograma, e suplementos com zinco devem ser dados quando indicado (bula do Ca-DTPA). A duração do tratamento depende da quantidade de contaminação interna e da resposta de cada pessoa (bula do Ca-DTPA).

A urina sozinha pode enganar. Grémy e colaboradores acompanharam um trabalhador que inalou plutônio e começou o DTPA meses depois da contaminação (Grémy e colaboradores, 2021). A análise mostrou que a excreção de plutônio pelas fezes, induzida pelo DTPA, contribuiu bastante para a remoção total (Grémy e colaboradores, 2021). Os autores defendem medir o plutônio em coletas seguidas de urina e de fezes depois do tratamento para estimar melhor o benefício (Grémy e colaboradores, 2021). Dumit e colaboradores modelaram o caso de uma trabalhadora que inalou uma mistura de plutônio e amerício e recebeu 1 g de Ca-DTPA nos dias 0, 5 e 14 (Dumit e colaboradores, 2025). Eles destacam que o aumento da excreção pelo quelante muda a cinética do plutônio e dificulta a estimativa da dose interna (Dumit e colaboradores, 2025).

Orientações para a paciente

A bula traz orientações práticas para quem recebe o tratamento. A lista ajuda a enfermeira a explicar o que fazer em casa:

  • Beber bastante líquido e urinar com frequência para diluir o quelato radioativo na urina e reduzir a dose na bexiga {CA}.
  • Usar o vaso sanitário em vez do papagaio e dar descarga várias vezes depois de cada uso {CA}.
  • Limpar por completo a urina ou as fezes derramadas e lavar bem as mãos {CA}.
  • Lavar à parte roupas e lençóis que tiverem contato com sangue ou urina {CA}.
  • Não amamentar se houver contaminação interna conhecida ou suspeita, com ou sem quelante {CA}.

Riscos e erros de raciocínio

Os erros mais comuns nesse cenário vêm de tratar a ferida como banal ou de tratar o quelante como inofensivo. A lista resume os principais:

  • Fechar a ferida sem medir a contaminação residual e perder a chance de excisão {LI22}.
  • Esfregar a ferida por horas em vez de parar quando a contagem deixa de cair {KAZ}.
  • Esperar o resultado da urina para dar a primeira dose, quando a eficácia é maior nas primeiras 24 horas {CA}.
  • Manter o Ca-DTPA por dias sem suplementar zinco e sem controlar o hemograma {CA}.
  • Usar DTPA para urânio, netúnio ou iodo, contra os quais ele não funciona {CA}.
  • Nebulizar o Ca-DTPA num paciente com asma sem cautela {CA}.

Segurança do Ca-DTPA

A bula não lista contraindicações conhecidas (bula do Ca-DTPA). O Ca-DTPA retira do corpo metais como zinco, magnésio e manganês, e a perda aumenta com doses fracionadas no mesmo dia, com doses maiores e com tratamento mais longo (bula do Ca-DTPA). Por isso, só uma dose inicial de Ca-DTPA é recomendada, e a terapia adicional deve seguir com Zn-DTPA (bula do Ca-DTPA). Com o tempo, a perda de zinco pode inibir uma enzima do sangue e suprimir a medula (bula do Ca-DTPA). A nebulização pode piorar a asma (bula do Ca-DTPA). A bula pede cautela na hemocromatose grave, porque houve mortes em pacientes que receberam até 4 vezes a dose diária por via intramuscular por mais de um dia, sem relação causal estabelecida (bula do Ca-DTPA).

No registro dos Estados Unidos, 646 pessoas receberam pelo menos uma dose de Ca-DTPA ou de Zn-DTPA (bula do Ca-DTPA). A presença ou a ausência de eventos adversos foi registrada em 310 delas, e 19, ou 6,1 por cento, tiveram pelo menos um evento (bula do Ca-DTPA). Os eventos incluíram dor de cabeça, tontura, dor no peito, reação alérgica, dermatite, gosto metálico, náusea, diarreia e reações no local da injeção (bula do Ca-DTPA).

Gestação

O Ca-DTPA é considerado teratogênico com base em dados de animais e porque a quelação retira zinco do corpo (bula do Ca-DTPA). A bula recomenda que a gestante comece e continue o tratamento com Zn-DTPA, se disponível, salvo nos casos de contaminação interna alta (bula do Ca-DTPA). Nesses casos, o risco da radiação para a mãe e para o feto deve ser pesado contra o risco do Ca-DTPA, e uma dose única de Ca-DTPA com suplemento de zinco pode ser apropriada como tratamento inicial (bula do Ca-DTPA). A bula do Zn-DTPA diz que o tratamento da gestante deve começar e continuar com Zn-DTPA (bula do Zn-DTPA). O REMM também indica o Zn-DTPA como tratamento preferido na gestante (REMM, DTPA).

Situação regulatória: FDA e OMS

Os dois sais de DTPA são aprovados pela FDA para a contaminação interna conhecida ou suspeita por plutônio, amerício ou cúrio (bula do Ca-DTPA) (bula do Zn-DTPA). O REMM registra o anúncio da aprovação inicial em 11 de agosto de 2004 (REMM, DTPA). A bula do Ca-DTPA descreve ampolas de 5 mL com 200 mg/mL, o equivalente a 1000 mg por ampola, em caixas com 10 ampolas (bula do Ca-DTPA). A bula pede que os dados de cada tratamento sejam enviados ao fabricante para formar dados de resposta a longo prazo (bula do Ca-DTPA).

DiCarlo e colaboradores descrevem a preparação dos Estados Unidos para emergências radiológicas e nucleares e citam os dois sais de DTPA entre os produtos licenciados, ao lado do azul da Prússia e do iodeto de potássio (DiCarlo e colaboradores, 2021). Eles lembram que o uso desses produtos num evento com muitas vítimas depende de fatores como a via de administração e o alcance limitado de cada um contra os radionuclídeos (DiCarlo e colaboradores, 2021).

A diretriz da OMS

A OMS montou um grupo para elaborar diretrizes baseadas em evidência sobre a avaliação e o tratamento da contaminação interna por plutônio, amerício e cúrio (Li e colaboradores, 2025). O grupo usa o método GRADE em todas as etapas, das perguntas de pesquisa às recomendações (Li e colaboradores, 2025). Os autores registram que, quando publicadas, essas serão as primeiras recomendações baseadas em evidência para esse tema (Li e colaboradores, 2025). Eles também registram que a orientação da OMS de 2023 sobre estoques nacionais recomenda incluir o Ca-DTPA e o Zn-DTPA nesses estoques (Li e colaboradores, 2025). Para o profissional, isso significa conhecer onde está o estoque do seu serviço e quem libera o medicamento, antes do acidente.

Como o NEXO ajuda a treinar esse raciocínio

O NEXO publica um caso clínico por dia com pistas progressivas. Cada pista chega em ordem, e você decide quando já sabe o diagnóstico ou a conduta. O formato treina a mesma habilidade desta cena: juntar dados que chegam aos poucos, como a contagem na ferida, a forma química do material e o tempo desde o acidente, e decidir sem fechar cedo demais. O post sobre aprendizagem baseada em casos clínicos explica por que esse formato funciona, e o post sobre incerteza diagnóstica ajuda a agir antes de saber a carga interna exata.

Três exercícios com casos

O primeiro exercício é refazer a cena com uma técnica grávida de 16 semanas e decidir qual sal usar e por quê. O segundo é refazer a cena com um óxido pouco solúvel no lugar do nitrato e discutir o que muda entre DTPA e excisão. O terceiro é refazer a cena supondo que a técnica só avisou o acidente três dias depois e decidir qual sal usar como primeira dose.

Professores e criadores de conteúdo podem montar casos próprios no espaço para criadores. O exercício funciona bem em sala, em simulações de emergência e em treinamentos de equipes de saúde ocupacional de instalações nucleares e de laboratórios.

Perguntas frequentes

Qual é a dose inicial de Ca-DTPA no adulto?

1,0 g por via intravenosa, em dose única inicial (bula do Ca-DTPA).

E na criança?

14 mg/kg por via intravenosa, sem passar de 1,0 g (bula do Ca-DTPA).

Por que trocar para Zn-DTPA depois?

Porque, depois das primeiras 24 horas, os dois têm eficácia parecida, mas o Ca-DTPA retira mais zinco do corpo (REMM, DTPA).

O DTPA funciona para urânio?

Não se espera eficácia contra urânio nem netúnio (bula do Ca-DTPA).

Quando parar de lavar a ferida?

Quando um novo levantamento não mostra mais queda na contagem (Kazzi e colaboradores, 2015).

Checklist final

  • Tratei primeiro o que ameaçava a vida.
  • Lavei a ferida com soro fisiológico sem causar trauma.
  • Parei a lavagem quando a contagem deixou de cair.
  • Pedi a medida da atividade residual e discuti a excisão.
  • Dei Ca-DTPA 1 g IV nas primeiras horas, ou 14 mg/kg na criança.
  • Planejei a manutenção com Zn-DTPA e o suplemento de zinco se faltasse Zn-DTPA.
  • Colhi sangue e urina basais e planejei urina e fezes semanais.
  • Perguntei por gestação e amamentação.

Quer praticar o raciocínio com pistas progressivas? Jogue o caso do dia.

Referências

  1. DiCarlo AL, Homer MJ, Coleman CN. United States medical preparedness for nuclear and radiological emergencies. J Radiol Prot. 2021. PMID 34153947.
  2. Dumit S, Avtandilashvili M, McComish SL, et al. Modeling Plutonium Decorporation in a Female Nuclear Worker Treated with Ca-DTPA after Inhalation Intake. Health Phys. 2025. PMID 39037363.
  3. Griffiths NM, Van der Meeren A, Grémy O. Comparison of Local and Systemic DTPA Treatment Efficacy According to Actinide Physicochemical Properties Following Lung or Wound Contamination in the Rat. Front Pharmacol. 2021. PMID 33841153.
  4. Grémy O, Blanchin N, Miccoli L. Interpretation of Enhanced Fecal and Urinary Plutonium Excretion Data under a 2-y Regular DTPA Treatment Started Months after Intake. Health Phys. 2021. PMID 34591820.
  5. Hameln Pharmaceuticals. Pentetate calcium trisodium injection. Bula no DailyMed. Consultada em 24/10/2026. Fonte oficial.
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  8. Li C, Alves Dos Reis A, Ansari A, et al. Public health response and medical management of internal contamination in past radiological or nuclear incidents: A narrative review. Environ Int. 2022. PMID 35378442.
  9. Li C, Kenbayeva Z, Dainiak N, et al. Development of Evidence-based Guidelines on Assessment and Management of Internal Contamination with Transuranic Actinides. Disaster Med Public Health Prep. 2025. PMID 40538032.
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  11. Van der Meeren A, Devilliers K, Griffiths N, et al. Decontamination of Actinide-contaminated Injured Skin with Ca-DTPA Products Using an Ex Vivo Rat Skin Model. Health Phys. 2024. PMID 38768323.

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