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Produtos alternativos de nicotina: como ler as promessas

Sala de laboratório vazia e moderna, com bancadas de tampo verde, banquetas, quadro branco em branco e janelas com cortinas
Sumário
  1. O que uma promessa de produto costuma afirmar
  2. Comparado com quê: cigarro, abstinência ou nada
  3. Medido como: emissões, biomarcadores ou doença
  4. Por quanto tempo e em quem: o problema do seguimento curto
  5. Quem financiou: como reconhecer e pesar o conflito de interesse
  6. Uso duplo: quando somar produtos não reduz o risco
  7. O que as revisões independentes mostram sobre cessação
  8. Como responder ao paciente que pergunta "esse é menos ruim?"
  9. Perguntas frequentes
  10. Checklist final
  11. Referências

O paciente chega com o celular na mão e mostra uma reportagem: um produto novo "reduz quase todas as substâncias tóxicas" em relação ao cigarro. Ele quer saber se pode trocar. A pergunta é legítima, e a resposta não cabe num sim ou num não. Ela depende de quatro coisas que a manchete não diz: comparado com quê, medido como, por quanto tempo e financiado por quem.

Este texto é um roteiro de leitura crítica para afirmações sobre categorias de produtos alternativos de nicotina: cigarro eletrônico, tabaco aquecido e tabaco sem fumaça. Ele não recomenda nenhum produto. A escolha do tratamento para quem quer parar está no texto sobre cessação do tabagismo em cada consulta, e o raciocínio geral de redução de danos está no texto sobre redução de danos além do tudo ou nada.

Principais pontos

  • Menos substâncias tóxicas medidas não é o mesmo que menos doença demonstrada.
  • Toda promessa precisa dizer o comparador: cigarro, abstinência ou outro tratamento.
  • Os estudos de tabaco aquecido foram todos financiados pela indústria do tabaco e nenhum mediu cessação.
  • O uso duplo, fumar e usar o produto ao mesmo tempo, é a principal armadilha: o risco cardiovascular pode continuar igual ao de quem só fuma.
  • Revisões independentes mostram que o cigarro eletrônico com nicotina aumenta a cessação em ensaios, com seguimento ainda curto para doença.
  • Ao paciente, a resposta honesta separa o que se sabe sobre exposição do que ainda não se sabe sobre doença.

Sumário

O que uma promessa de produto costuma afirmar

As afirmações sobre produtos alternativos de nicotina costumam cair em três famílias. A primeira fala de emissão: o aerossol tem menos de certas substâncias do que a fumaça do cigarro. A segunda fala de exposição: quem usa o produto tem menos dessas substâncias no sangue, na urina ou no ar exalado. A terceira, mais rara e mais forte, fala de doença: quem usa o produto adoece ou morre menos. Cada família exige um tipo diferente de evidência, e o erro mais comum é aceitar a primeira como se fosse a terceira.

Por trás das quatro lacunas está uma ideia antiga: um marcador intermediário só vale quando já se mostrou que mudá-lo muda a doença. Esse critério, e o histórico de produtos de "exposição reduzida" que não cumpriram a promessa, estão no texto sobre desfechos substitutos e seus limites. Aqui ele vira um filtro prático para promessas de produto.

Há também um componente de heurística. Uma palavra como "natural", "limpo" ou "sem fumaça" ativa uma impressão de segurança antes de qualquer número. É o mesmo atalho discutido no texto sobre quando a heurística ajuda e quando atrapalha. Reconhecer o atalho é o primeiro passo para pedir a evidência certa.

Na prática, vale reescrever qualquer promessa como uma frase com quatro lacunas: "em pessoas como X, comparado com Y, o produto mudou a medida Z ao longo do tempo T, num estudo pago por W". Se uma das lacunas não pode ser preenchida, a promessa ainda não é uma informação clínica. O roteiro geral de leitura crítica em três perguntas se aplica aqui sem adaptação.

Comparado com quê: cigarro, abstinência ou nada

Toda redução é relativa a alguma coisa. "Menos tóxico" quase sempre significa menos tóxico do que continuar fumando. Para quem fuma e não vai parar de outro modo, essa é a comparação relevante. Para quem nunca fumou, ou para quem já parou, a comparação relevante é com não usar nada, e aí o mesmo produto representa exposição a mais, não a menos.

A revisão Cochrane sobre tabaco aquecido mostra como o comparador muda a conclusão. Em relação a quem continuou fumando, quem passou para o tabaco aquecido teve níveis menores de um metabólito de nitrosamina na urina, com diferença média na escala logarítmica de menos 0,81, em 10 estudos e 1959 participantes (Tattan-Birch e colaboradores, 2022). Em relação a quem tentou ficar sem tabaco algum, o mesmo metabólito foi mais alto no grupo do tabaco aquecido, com diferença de 0,50 na mesma escala, em cinco estudos e 382 participantes (Tattan-Birch e colaboradores, 2022). O mesmo produto é "menos" e "mais", conforme a pergunta.

O relatório das National Academies sobre cigarro eletrônico recomendou que os estudos clínicos e epidemiológicos usem três grupos de comparação: pessoas que continuam fumando, pessoas que tentam parar com outros tratamentos baseados em evidência e pessoas que não usam produto de tabaco algum (National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine, 2018). Uma promessa que só mostra o primeiro comparador responde a uma pergunta só.

Medido como: emissões, biomarcadores ou doença

A distância entre medir uma substância no aerossol e demonstrar menos doença é longa. No meio do caminho estão os biomarcadores de exposição, que mostram quanto da substância entrou no corpo, e os biomarcadores de dano potencial, que mostram algum efeito biológico, como inflamação ou estresse oxidativo. Nenhum dos dois é doença. Um biomarcador só substitui o desfecho clínico quando já se demonstrou que mudá-lo muda o desfecho, raciocínio parecido com o de saber quando o exame não muda a conduta.

A troca completa do cigarro por um produto sem combustão reduz a exposição a muitas substâncias tóxicas, mas isso, por si, não demonstra menos doença. A diferença entre o que um biomarcador de exposição e um de dano conseguem provar está explicada no texto sobre biomarcadores de exposição e de dano. O que interessa aqui é aplicar essa diferença a cada promessa.

Os dados de biomarcadores de dano potencial em quem trocou completamente apontam reduções, mas vêm sobretudo de estudos curtos em confinamento ou de comparações não randomizadas, com pouquíssima informação sobre quem parou de tudo (Hartmann-Boyce e colaboradores, 2023). Dois autores dessa análise declaram vínculos com farmacêutica ou com fabricante de reposição de nicotina.

Tampas coloridas de quatro tubos de coleta de sangue lado a lado, em cinza, roxo e vermelho, sobre fundo escuro
Tubos de coleta: um biomarcador mostra quanto de uma substância entrou no corpo, não quanta doença ela vai causar. Crédito: Frankincense Diala, CC0, via Wikimedia Commons (página do arquivo). Recorte nosso, só as tampas, sem rótulos.

A tabela abaixo resume o que perguntar diante de cada tipo de afirmação.

Tipo de afirmação Pergunta de leitura crítica Sinal de alerta O que pedir de evidência
"Emite menos substâncias tóxicas" Medido em máquina ou em pessoas? Em que condições de uso? Só dados de laboratório, com protocolo do fabricante Biomarcadores de exposição em usuários reais
"Quem usa tem menos tóxicos no corpo" Comparado com fumar, com parar ou com nunca usar? Comparador único, escolhido pelo autor Os três comparadores, com uso exclusivo verificado
"Melhora marcadores de saúde" O marcador já foi validado como substituto de doença? Seguimento de semanas, marcadores escolhidos depois Desfechos clínicos ou marcadores validados, com seguimento longo
"Reduz o risco de doença" Coorte ou ensaio? Quanto tempo? Quantos eventos? Poucos eventos, intervalo de confiança largo, ex-fumantes no grupo de referência Coortes grandes e longas, com ajuste para tabagismo prévio
"Ajuda a parar de fumar" Abstinência confirmada após seis meses ou mais? Desfecho de redução, não de abstinência Ensaios com abstinência validada e comparador ativo
"É seguro" Seguro para quem, comparado com quê, por quanto tempo? Ausência de eventos tratada como prova de segurança Seguimento longo e vigilância de eventos raros

Por quanto tempo e em quem: o problema do seguimento curto

As doenças causadas pelo tabaco levam décadas para aparecer. Um estudo de semanas pode mostrar mudança de exposição, mas não pode mostrar mudança de câncer ou de doença pulmonar crônica. Na revisão Cochrane sobre tabaco aquecido, o seguimento mediano dos 11 ensaios foi de 13 semanas (Tattan-Birch e colaboradores, 2022). Para eventos adversos, a revisão não encontrou diferença clara entre quem passou ao tabaco aquecido e quem continuou fumando, com risco relativo de 1,03 e intervalo de 0,92 a 1,15, limitado por imprecisão e risco de viés (Tattan-Birch e colaboradores, 2022). Ausência de diferença em 13 semanas não é ausência de dano em 30 anos.

A coorte mais citada sobre cigarro eletrônico e doença cardiovascular acompanhou 24027 adultos por no máximo quatro anos e registrou 1487 eventos cardiovasculares (Berlowitz e colaboradores, 2022). Quem usava só cigarro eletrônico teve risco que não diferiu do de quem não usava nada, com razão de risco de 1,00 e intervalo de 0,69 a 1,45 (Berlowitz e colaboradores, 2022). Os próprios autores apontam o número pequeno de eventos entre usuários exclusivos, desfechos autorrelatados e não adjudicados, seguimento curto para uma doença progressiva e um grupo de referência que inclui ex-fumantes (Berlowitz e colaboradores, 2022). O intervalo largo é compatível tanto com nenhuma diferença quanto com risco aumentado.

Cinco pipetas plásticas transparentes de laboratório sobre uma superfície escura
Pipetas de laboratório: medidas pontuais captam semanas de exposição, não as décadas que separam o tabaco da doença. Crédito: Frankincense Diala, CC0, via Wikimedia Commons (página do arquivo). Recorte nosso.

"Em quem" importa tanto quanto "por quanto tempo". Uma revisão guarda-chuva independente reuniu 400 publicações e encontrou evidência forte de que jovens não fumantes que usam cigarro eletrônico têm cerca de três vezes mais chance de começar a fumar do que os que não usam, com base em 25 estudos longitudinais (Banks e colaboradores, 2023). A mesma revisão concluiu que o produto pode trazer benefício para quem fuma e o usa para parar completa e rapidamente, mas que pode ser prejudicial para não fumantes, crianças, adolescentes e adultos jovens (Banks e colaboradores, 2023). Um resultado em adultos que fumam muito não se transfere a um adolescente que nunca fumou.

Os produtos também mudam mais rápido do que os estudos. A revisão guarda-chuva observou que os produtos avaliados num estudo nem sempre refletem os disponíveis hoje e que, por isso, faltam dados de longo prazo (Banks e colaboradores, 2023). O tabaco sem fumaça, que existe há muito mais tempo, mostra o que a evidência de longo prazo pode revelar: uma metanálise de 80 estudos observacionais encontrou risco relativo de 1,38 para mortalidade por câncer e de 1,17 para incidência de câncer entre usuários (Htay e colaboradores, 2025). As associações apareceram em câncer de cabeça e pescoço, boca, esôfago, estômago e pâncreas, com heterogeneidade importante entre os estudos (Htay e colaboradores, 2025). Sem fumaça não significou sem câncer.

Quem financiou: como reconhecer e pesar o conflito de interesse

Financiamento não invalida um estudo automaticamente, mas muda o quanto se deve confiar nele sem replicação. Quando o fabricante paga o estudo, escolhe o comparador, define os desfechos e redige o texto, cada escolha merece ser conferida. Julgar um estudo só pelo resultado que ele trouxe também é um erro, descrito no texto sobre viés retrospectivo e viés de resultado; o caminho é examinar o desenho, não torcer pelo achado.

A revisão sobre tabaco aquecido é o exemplo mais claro do problema. Os autores da revisão declaram não ter recebido nada de fabricantes de produtos de tabaco ou de cigarro eletrônico, mas todos os 11 ensaios incluídos foram financiados por empresas de tabaco (Tattan-Birch e colaboradores, 2022). Em alguns deles, a declaração dizia que todos os autores eram funcionários da empresa ou trabalhavam para ela sob contrato (Tattan-Birch e colaboradores, 2022). A revisão concluiu que é necessária pesquisa com financiamento independente sobre a eficácia e a segurança desses produtos (Tattan-Birch e colaboradores, 2022). Uma revisão independente de estudos dependentes herda a dependência.

O conflito também aparece em estudos públicos e bem desenhados, e deve ser lido com a mesma régua. Uma grande análise pública de biomarcadores traz coautor com contatos frequentes, não remunerados, com uma empresa de cigarro eletrônico, e primeiro autor com honorários de fabricante de produtos para cessação (Goniewicz e colaboradores, 2018). Isso não derruba os dados, mas é informação que o leitor tem direito de pesar.

Na revisão viva da Cochrane sobre cigarro eletrônico para cessação, vários autores participaram de estudos incluídos e declaram não ter decidido sobre a inclusão, a extração ou a avaliação desses estudos; uma autora declara verba de uma empresa que desenvolve medicamento para cessação, e um autor, despesas de viagem pagas por fabricante de produtos de reposição de nicotina (Lindson e colaboradores, 2026). A revisão marca os estudos com financiamento da indústria de tabaco ou de cigarro eletrônico e repete as análises sem eles (Lindson e colaboradores, 2026). Esse é o comportamento a procurar: declarar, separar e testar se o resultado muda.

O financiamento também influencia o que o médico lê. Uma análise de 421 publicações sobre cigarro eletrônico em revistas clínicas centrais encontrou que só cerca de uma de cada oito trazia orientação para profissionais de saúde (Briganti e colaboradores, 2020). A mesma análise mostrou que os temas mudaram ao longo do tempo, com menos afirmações negativas sobre substâncias tóxicas e mais sobre porta de entrada e apelo aos jovens (Briganti e colaboradores, 2020). O que chega ao consultório é um recorte, e saber disso já protege contra a armadilha de ler só o que confirma.

Uso duplo: quando somar produtos não reduz o risco

A maior parte das promessas pressupõe troca completa. Na vida real, muita gente usa os dois: continua fumando e acrescenta o produto alternativo. Esse padrão, chamado uso duplo, é a principal armadilha na leitura das promessas, porque a redução de exposição medida na troca completa não se aplica a quem mantém o cigarro.

Numa grande coorte populacional, quem usava os dois produtos fumava praticamente tanto quanto quem só fumava e teve a maior exposição a substâncias tóxicas de todos os grupos (Goniewicz e colaboradores, 2018). Somar um produto ao cigarro não diluiu a exposição; acrescentou.

As National Academies concluíram não haver evidência disponível sobre se o uso prolongado do cigarro eletrônico por quem continua fumando muda a morbidade ou a mortalidade em comparação com quem só fuma (National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine, 2018). Também consideraram insuficiente a evidência de que esse uso mude desfechos adversos de curto prazo em vários sistemas (National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine, 2018). Ou seja, para o uso duplo, a promessa de benefício não tem base.

Na coorte cardiovascular, o risco de quem usava os dois produtos não diferiu do risco de quem só fumava, com razão de risco de 1,01 e intervalo de 0,81 a 1,26 (Berlowitz e colaboradores, 2022). Os autores concluíram que combinar o cigarro com o cigarro eletrônico não reduz eventos cardiovasculares e que parar os dois produtos é necessário para reduzir o risco (Berlowitz e colaboradores, 2022). O porquê está no texto sobre a curva que não é reta.

Corte transversal de coração em peça de patologia, mostrando a parede dos ventrículos e uma área mais clara de cicatriz de infarto antigo
Infarto antigo em peça de patologia: na coorte cardiovascular, quem combinava cigarro e cigarro eletrônico teve o mesmo risco de quem só fumava. Crédito: Mikael Häggström, CC0, via Wikimedia Commons (página do arquivo). Recorte nosso, sem a seta indicativa.

Nos ensaios, a comparação de biomarcadores entre uso exclusivo e uso duplo foi mista e escassa, sem base para prometer benefício a quem mantém o cigarro (Hartmann-Boyce e colaboradores, 2023).

O que as revisões independentes mostram sobre cessação

A pergunta mais relevante para a clínica não é se o produto é menos tóxico, e sim se ele ajuda a parar de fumar. Aqui as duas categorias principais têm evidências muito diferentes.

Para o cigarro eletrônico, a revisão viva da Cochrane incluiu 80 ensaios randomizados com 29861 participantes; 12 foram julgados de baixo risco de viés e 41 de alto risco (Lindson e colaboradores, 2026). Comparado com a terapia de reposição de nicotina, o cigarro eletrônico com nicotina aumentou a abstinência após seis meses ou mais, com risco relativo de 1,61 e intervalo de 1,23 a 2,12, em 11 estudos e 4114 participantes, evidência de alta certeza (Lindson e colaboradores, 2026). Em termos absolutos, isso corresponde a cerca de quatro pessoas a mais sem fumar para cada 100 tratadas (Lindson e colaboradores, 2026). Quando os estudos financiados pela indústria foram retirados, o risco relativo foi 1,72, com intervalo de 1,23 a 2,39 (Lindson e colaboradores, 2026).

Comparado com cigarro eletrônico sem nicotina, o risco relativo foi 1,34, com intervalo de 1,05 a 1,69, em sete estudos e 1918 participantes, o que representa cerca de duas pessoas a mais sem fumar para cada 100 (Lindson e colaboradores, 2026). Comparado com apoio comportamental apenas ou nenhum apoio, o risco relativo foi 1,75, com intervalo de 1,39 a 2,20, em 11 estudos e 7214 participantes, mas com certeza baixa por risco de viés (Lindson e colaboradores, 2026). Os autores não detectaram dano grave de curto prazo, mas afirmam que são necessários ensaios maiores e mais longos para avaliar a segurança (Lindson e colaboradores, 2026).

Dois detalhes da mesma revisão importam para a leitura. Os ensaios testaram produtos regulados com nicotina, e os autores alertam que produtos ilícitos ou com outras substâncias ativas podem ter perfis de dano diferentes (Lindson e colaboradores, 2026). E, nos três ensaios que mediram uso continuado após seis meses, a diferença entre cigarro eletrônico com e sem nicotina não foi clara, com risco relativo de 1,14 e intervalo de 0,77 a 1,69, em 874 participantes (Lindson e colaboradores, 2026). Parar de fumar não é o mesmo que parar de usar nicotina, e o seguimento dos ensaios ainda não alcança a doença.

A revisão guarda-chuva independente foi mais cautelosa ao considerar o conjunto: classificou como limitada a evidência de que o cigarro eletrônico com nicotina, usado com apoio clínico, ajuda a parar (Banks e colaboradores, 2023). A diferença entre as duas revisões vem em parte do período coberto e do tipo de estudo incluído, e é um bom exercício ler as duas lado a lado.

Para o tabaco aquecido, a situação é outra. A revisão Cochrane encontrou 13 estudos, e nenhum mediu cessação (Tattan-Birch e colaboradores, 2022). A conclusão dos autores foi que a eficácia do produto para parar de fumar continua incerta (Tattan-Birch e colaboradores, 2022). Dois estudos de séries temporais mostraram queda mais rápida nas vendas de cigarro depois da entrada do produto num mercado, mas com evidência de certeza muito baixa, porque vendas são uma medida indireta da prevalência e outros fatores podem explicar a queda (Tattan-Birch e colaboradores, 2022).

Como essas evidências entram na escolha do tratamento de cada pessoa é assunto da conduta, discutida no texto sobre como escolher entre as opções de tratamento. Aqui, o ponto é de leitura: uma promessa de cessação só vale com abstinência confirmada após seis meses ou mais, em ensaio com comparador.

Como responder ao paciente que pergunta "esse é menos ruim?"

A pergunta do paciente merece resposta direta e honesta, sem sermão e sem propaganda. Um caminho é separar três frases. A primeira: trocar completamente o cigarro por um produto sem combustão reduz a exposição a muitas substâncias tóxicas. A segunda: ainda não sabemos o efeito disso sobre doença ao longo de décadas. A terceira: usar os dois ao mesmo tempo não reduz o risco do coração. As três frases são verdadeiras ao mesmo tempo.

A percepção de dano que o paciente traz influencia o que ele fará. Num estudo com 2180 jovens adultos que usavam algum produto de nicotina ou tabaco, cerca de sete em cada dez não viam o cigarro eletrônico como menos danoso do que o cigarro (Nagawa e colaboradores, 2026). Quem não via menor dano teve mais chance de estar sem produto algum na avaliação seguinte, com razão de risco relativo de 1,60, mas também mais chance de passar a usar só o cigarro, com razão de 3,81, sempre em comparação com o uso exclusivo de cigarro eletrônico (Nagawa e colaboradores, 2026). Alarmar sem explicar pode empurrar parte das pessoas de volta para o produto mais nocivo.

As percepções também erram em direções inesperadas. Num experimento com 897 adultos que ordenaram 18 produtos de tabaco e nicotina do mais ao menos danoso, as percepções não acompanharam a literatura científica para produtos com combustão, tabaco sem fumaça e produtos sem combustão (DeAtley e colaboradores, 2025). Alguns grupos atribuíram dano alto à própria terapia de reposição de nicotina, que é tratamento (DeAtley e colaboradores, 2025). Perguntar o que a pessoa acha antes de explicar evita responder a uma dúvida que ela não tem.

A conversa funciona melhor quando começa pelo objetivo da pessoa. Se ela quer parar de fumar, o caminho é o tratamento com evidência, e a escuta das falas de mudança ajuda a encontrar o próximo passo. Se ela não quer parar agora, discutir metas intermediárias com honestidade faz parte de decidir risco e prognóstico com a pessoa, sem fingir que uma redução parcial equivale a parar. O tom importa tanto quanto o conteúdo, como mostra o texto sobre mudar a linguagem na prática.

O mesmo raciocínio de meio-termo aparece em outros serviços de redução de danos, cujo impacto o clínico também precisa saber ler, como discutido em o que muda para o clínico nas salas de consumo supervisionado. Em todos os casos, a pergunta é a mesma: redução de quê, para quem e com que evidência.

Perguntas frequentes

Menos substâncias tóxicas significa produto seguro?

Não. Significa menos exposição a algumas substâncias, em comparação com fumar. Menos exposição e segurança demonstrada são afirmações diferentes, como discute o texto sobre desfechos substitutos.

Usar cigarro eletrônico e cigarro ao mesmo tempo reduz o risco?

Não há base para dizer que sim. Na coorte cardiovascular, o risco de quem usava os dois não diferiu do de quem só fumava (Berlowitz e colaboradores, 2022). Entre usuários duplos, a exposição a substâncias tóxicas foi a maior de todos os grupos (Goniewicz e colaboradores, 2018).

Produto de tabaco aquecido ajuda a parar de fumar?

Não se sabe. A revisão Cochrane não encontrou nenhum estudo que medisse cessação, e todos os ensaios incluídos foram financiados por empresas de tabaco (Tattan-Birch e colaboradores, 2022). A eficácia para parar continua incerta.

Como saber se um estudo foi financiado pela indústria do tabaco?

Leia as seções de financiamento e de conflitos de interesse, confira as afiliações dos autores e o patrocinador do registro do ensaio. Revisões bem feitas marcam esses estudos e repetem as análises sem eles, como faz a revisão Cochrane sobre cigarro eletrônico (Lindson e colaboradores, 2026).

O cigarro eletrônico entra nas revisões de cessação?

Sim. A revisão viva da Cochrane encontrou evidência de alta certeza de que o cigarro eletrônico com nicotina aumenta a abstinência após seis meses ou mais em comparação com a terapia de reposição de nicotina (Lindson e colaboradores, 2026). A escolha do tratamento para cada pessoa é discutida no texto sobre cessação do tabagismo em cada consulta.

Este texto recomenda algum produto?

Não. Ele oferece um roteiro para ler promessas e não substitui a avaliação clínica individual nem orienta tratamento. Nenhum produto ou marca é recomendado.

Checklist final

  • Pergunte sempre qual é o comparador: fumar, parar ou nunca usar.
  • Diferencie emissão, biomarcador de exposição, biomarcador de dano e doença.
  • Confira o tempo de seguimento e o número de eventos.
  • Leia a seção de financiamento e a de conflitos de interesse.
  • Verifique se a revisão testou o resultado sem os estudos da indústria.
  • Pergunte ao paciente se o uso é exclusivo ou duplo e quantos cigarros fuma hoje.
  • Exija abstinência confirmada após seis meses para qualquer promessa de cessação.
  • Responda com três frases: menos exposição na troca completa, doença ainda desconhecida, uso duplo sem benefício.

Referências

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