Acessibilidade

Como escrever casos clínicos inclusivos

Caneta-tinteiro preta sobre caderno aberto com linhas manuscritas, vista aproximada
Sumário
  1. O que torna um caso clínico inclusivo
  2. Linguagem da deficiência: pessoa e identidade
  3. Estereótipos que a vinheta ensina sem querer
  4. Idade, gênero e raça com cuidado pedagógico
  5. Clareza e estrutura: acessibilidade do texto
  6. Tabela: antes e depois
  7. Como o NEXO entra
  8. Perguntas frequentes
  9. Checklist final
  10. Referências

Você abre o documento do caso que a liga vai usar amanhã. A primeira linha diz: "mulher negra idosa, diabética, não aderente, chega irritada à consulta". Em duas linhas, o texto já empilhou raça, idade, doença como identidade, julgamento moral e humor como traço. O objetivo pedagógico era ensinar cetoacidose. O que o estudante leva, além do diferencial, é um estereótipo. Reescrever o caso não é "politicamente correto": é pedagogia. Casos fictícios com apresentação clínica real ensinam raciocínio. Também ensinam, sem anúncio, quem merece ser ouvido e quem já chega rotulado. Este texto é um guia prático para quem escreve vinhetas: preceptores, ligas, revisores e creators. O foco é inclusão e acessibilidade na escrita. O método geral de montar um caso (objetivo, pistas, dificuldade) já está em como escrever um caso clínico para ensino.

O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.

Inclusão, aqui, não é enfeite. É escolher palavras que descrevem achados sem reduzir a pessoa a um rótulo; é decidir quando idade, gênero ou raça entram porque mudam o raciocínio, e quando só reforçam viés; é deixar o texto legível para quem usa leitor de tela, quem lê em segundo idioma e quem estuda com carga cognitiva alta. O terreno se cruza com viés implícito no diagnóstico, com currículo oculto e com medicina narrativa. Não confunda este ângulo com o checklist de software clínico em acessibilidade digital em softwares médicos, nem com o guia de leitores e ampliadores em tecnologia assistiva para médicos com deficiência visual. Aqui o objeto é o texto do caso.

Principais pontos

  • Escrever caso inclusivo é pedagogia: a vinheta treina raciocínio e, ao mesmo tempo, modela linguagem clínica.
  • Linguagem centrada na pessoa é ponto de partida; comunidades como a surda e a autista frequentemente preferem linguagem centrada na identidade. Pergunte ou siga a preferência da comunidade citada.
  • Idade, gênero e raça entram no caso só com propósito clínico ou representativo explícito; do contrário, viram atalho estereotipado.
  • Clareza, estrutura e texto real (não só imagem) tornam o caso acessível a leitores de tela e a quem estuda sob carga.
  • No NEXO, o Curator e o fluxo de Creators trabalham com casos fictícios com apresentação clínica real e até seis pistas; a declaração em /accessibility descreve recursos de acessibilidade da plataforma. Sem afirmação de eficácia.

O que torna um caso clínico inclusivo

Um caso clínico para ensino é um texto (ou sequência de pistas) que coloca o estudante diante de uma apresentação e pede hipóteses, exames ou conduta. A linha de aprendizagem baseada em casos explica por que a vinheta funciona: ancora conhecimento em situação. Inclusão, neste guia, é o conjunto de escolhas de linguagem, estrutura e representação que impedem o caso de ensinar exclusão junto com o diagnóstico.

Três camadas se separam:

  • Camada clínica: sinais, sintomas, tempo, exames. Precisa ser precisa e suficiente para o objetivo pedagógico.
  • Camada social e demográfica: idade, gênero, raça ou etnia, ocupação, deficiência, contexto. Entra só se servir ao raciocínio ou à representação deliberada da turma/população.
  • Camada de julgamento: adjetivos de moral, humor, "adesão", "dificuldade" do paciente. Quase sempre sobra; quase nunca ensina fisiopatologia.

O post sobre método geral (como escrever um caso clínico para ensino) cobre objetivo, dosagem de pistas e revisão. Este texto cobre a camada que o método geral costuma deixar implícita: quem a vinheta descreve e como. Em análise de narrativas clínicas em livros de bioquímica médica, a linguagem frequentemente desalinha de boas práticas inclusivas, com rotulagem por condição e descritores negativos (PMID 38887417). O mesmo risco vale para o caso que você escreve na liga ou no banco da plataforma.

Inclusivo também não significa "caso sem identidade". Significa identidade com propósito. Um caso de anemia falciforme pode precisar nomear ancestralidade ou contexto familiar de forma clínica; um caso de pneumonia comunitária raramente precisa de raça como atalho. A pergunta útil: se eu remover este descritor, o diferencial muda? Se não muda, por que ele está aí?

Outro teste simples: peça a um colega para ler só a abertura e listar o que "já sabe" sobre a pessoa antes de qualquer exame. Se a lista vier cheia de moral e vazia de fisiologia, a abertura falhou. Se vier cheia de hipóteses clínicas plausíveis, a abertura trabalhou. O mesmo colega pode marcar cada adjetivo com C (clínico), R (representação deliberada) ou J (julgamento). Tudo que cair em J sai na próxima versão.

Quem revisa bancos grandes (liga, disciplina, plataforma) ganha ao manter um glossário curto do time: como nomear diabetes, como nomear uso de cadeira de rodas, como citar intérprete, como evitar "não aderente" sem apagar a barreira de acesso. Glossário não engessa estilo; reduz surpresa capacitista entre um caso e outro. Combine isso com o hábito de escrever o objetivo em uma linha no topo do arquivo ("treinar sepse de foco urinário em adulto", "treinar leitura de gasometria"), para a demografia não roubar o protagonismo do objetivo.

Caneta-tinteiro escrevendo em caderno pautado, close da ponta e das linhas
Escrever o caso é decisão clínica e linguística: cada adjetivo pode virar pista ou estereótipo. Crédito: Aaron Burden, CC0 1.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Linguagem da deficiência: pessoa e identidade

Há duas famílias amplas de linguagem. Linguagem centrada na pessoa ("pessoa com deficiência", "pessoa com diabetes") coloca a condição depois da pessoa. Linguagem centrada na identidade ("pessoa surda", "pessoa autista", em muitas comunidades "Deaf" com D maiúsculo na grafia inglesa) trata a característica como parte da identidade coletiva. Guias institucionais (por exemplo o estilo do NIH) pedem, em geral, começar pela pessoa e respeitar a preferência quando a comunidade a declara.

A preferência não é uniforme. Em amostra de interessados no autismo nos Estados Unidos, adultos autistas preferiram de forma predominante termos de identidade; profissionais tenderam mais à linguagem centrada na pessoa (Taboas et al., 2023). Em pesquisa e prática, textos de orientação pedem evitar linguagem capacitista (por exemplo "sofrer de", "confinado a", "especial" como eufemismo vazio) e alinhar o vocabulário ao que a comunidade endossa (Bottema-Beutel et al., 2021). Formação médica consciente de deficiência distingue ensinar "sobre" deficiência como lista de doenças e ensinar com frameworks de direitos e justiça (Bowen et al., 2026).

Para quem escreve o caso, regras práticas:

  • Default: "pessoa com [condição]" quando não souber a preferência da comunidade citada.
  • Surdez e autismo: considere a preferência de identidade da comunidade; se o caso for genérico, uma nota de rodapé pedagógica pode explicar a escolha.
  • Evite: "o diabético", "o epiléptico", "cadeirante" como único rótulo, "inválido", "sofre de".
  • Descreva o achado funcional quando for clínico ("usa cadeira de rodas", "comunica em língua de sinais", "lê com leitor de tela"), não o valor moral.
  • Deficiência no caso não é enredo de superação nem obstáculo melodramático; é contexto, como hipertensão.

Médicos, em pesquisa nacional, relataram desconforto e percepções enviesadas no cuidado de pessoas com deficiência (Iezzoni et al., 2021). A vinheta que você escreve treina a geração seguinte. Se o único paciente com deficiência no banco aparece como "difícil" ou "não colaborativo", o currículo oculto fala mais alto que a aula de ética.

Relacione isso ao eixo de erro diagnóstico: o relatório Improving Diagnosis lembra que comunicação e representação importam no processo diagnóstico (erro diagnóstico e o relatório Improving Diagnosis). Linguagem estigmatizante no texto do caso é o primeiro elo de uma cadeia que depois aparece no prontuário.

Na prática de escrita, separe três campos mentais antes de digitar a deficiência no caso. Campo 1: a condição ou o modo de funcionamento relevante para o diferencial ou para o exame. Campo 2: o ajuste de cuidado ou de ambiente (intérprete, tempo extra, mesa ajustável, comunicação escrita). Campo 3: a história de vida que não cabe no objetivo pedagógico. Campos 1 e 2 podem entrar. Campo 3 quase sempre pode esperar outro formato (entrevista, oficina, narrativa longa), para não transformar a vinheta curta em biografia incompleta e enviesada.

Evite também o tropeço inverso: apagar toda menção a deficiência quando ela muda o exame físico ou a comunicação. Apagar não é neutro; é fingir que o mundo clínico é só de corpos e sentidos "padrão". Inclusão descreve o que importa para o cuidado e para o raciocínio, com respeito e precisão.

Estereótipos que a vinheta ensina sem querer

Vinhetas de graduação podem carregar um currículo oculto de gênero: profissões e papéis de cuidado distribuídos de forma estereotipada, médicos homens e enfermeiras mulheres como norma, famílias tradicionais como único modelo (Arsever et al., 2023). O estudante aprende o diagnóstico e, de passagem, quem "parece" médico e quem "parece" cuidador.

Linguagem estigmatizante também viaja do prontuário para o julgamento. Em estudo clássico, notas com linguagem estigmatizante transmitiram vieses a leitores e afetaram atitudes (Goddu / Beach et al., 2018). Em análise de registros, médicos usaram linguagem estigmatizante com padrões associados a grupos já marginalizados (Park et al., 2021). O caso de ensino não é prontuário, mas treina o reflexo de escrever. Se a vinheta diz "paciente não aderente e agressivo", o estudante pratica o atalho antes de praticar a hipótese.

Sinais de estereótipo na primeira leitura:

  • Humor ou moralidade no lugar do achado ("irritado", "dramático", "manipulador").
  • Doença como substantivo da pessoa ("o hipertenso de 50 anos").
  • Ocupação e cuidado familiar sempre no mesmo molde de gênero.
  • Única menção a deficiência ligada a "dificuldade" de exame, sem dado clínico.
  • Raça citada só em doenças já saturadas de estereótipo, sem mecanismo.

Remédios: troque julgamento por comportamento observável ("eleva a voz quando a dor piora"); troque rótulo por condição ("pessoa com hipertensão"); varie papéis de cuidado e profissões; se a deficiência importa para o exame, diga o ajuste ("precisa de mesa ajustável", "prefere intérprete"), não o adjetivo. O post sobre viés afetivo ajuda a ver como emoção e rótulo distorcem o diferencial; a vinheta não precisa entregar o viés pronto.

Há estereótipos "positivos" que também atrapalham. O paciente "sempre sorridente apesar de tudo", a mãe "guerreira", o jovem "inspirador". Elogio forçado ainda reduz a pessoa a um papel. Prefira fatos clínicos e, se quiser treinar comunicação, treine escuta e pergunta aberta em outro exercício, não no adjetivo da abertura. Medicina narrativa ensina a ouvir história com densidade; a vinheta curta ensina a não inventar caráter.

Quando o objetivo for justamente discutir viés, declare isso no material do preceptor (não necessariamente no texto que o estudante vê na primeira leitura). Por exemplo: depois do fechamento, a explicação pode perguntar se a raça ou o humor citados na abertura mudaram o diferencial sem evidência. Assim o estereótipo vira objeto de análise, não combustível silencioso. Sem essa meta explícita, o descritor sobra e ensina errado.

Pasta de documentação azul aberta com folhas e separadores, vista de cima
Pastas e fichas lembram que o caso escrito vira material de estudo: o tom do texto se repete na turma. Crédito: BlankeVla, CC BY-SA 4.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Idade, gênero e raça com cuidado pedagógico

Em vinhetas de questões de múltipla escolha pré-clínicas, idade e sexo/gênero aparecem na quase totalidade dos enunciados, enquanto raça/etnia é bem mais rara; quando raça entra, frequentemente aparece como proxy genético, não como contexto social (Carey-Ewend et al., 2023). Sexo/gênero, apesar de ubíquo, foi relevante para a resposta correta em fração bem menor dos itens. Ou seja: a demografia está lá, mas nem sempre trabalha.

Escolas médicas também foram criticadas por reproduzir raça como biologia simplificada no currículo, com risco de propagar viés (Amutah et al., 2021). Em estudantes do primeiro ano, vieses implícitos de raça e classe foram frequentes em testes de associação; em vinhetas daquele estudo, as avaliações clínicas nem sempre acompanharam o viés implícito de forma estatisticamente ligada (Haider et al., 2011). O ponto pedagógico não é "nunca cite raça". É: cite com mecanismo, prevalência local honesta ou barreira de acesso, nunca como atalho único para o diagnóstico.

Roteiro rápido:

  • Idade: útil quando muda probabilidade (por exemplo faixa pediátrica versus idosa). Evite "idoso" como sinônimo de frágil sem dado.
  • Gênero e sexo: separe o que é sexo biológico pertinente ao mecanismo do que é papel social. Varie quem cuida e quem trabalha.
  • Raça e etnia: só com propósito (epidemiologia contextualizada, inequidade, risco específico bem fundamentado). Evite a lista racial como dica de prova.
  • Classe e ocupação: úteis para exposição e acesso; perigosas como moral ("não tem educação").
  • Orientação sexual e identidade de gênero: incluídas quando o cuidado ou o diferencial as exigem; nunca como piada ou surpresa final.

Diversidade deliberada na criação de vinhetas é tema emergente, inclusive com apoio de ferramentas de escrita assistida, desde que haja revisão humana de estereótipo e de precisão clínica (Bakkum et al., 2024). Ferramenta alguma substitui a pergunta: este descritor ensina Medicina ou ensina preconceito?

Para o estudante que joga ou lê o caso, a demografia deve iluminar o diferencial, como em diagnóstico diferencial com pistas, não roubar a cena. Até seis pistas bastam quando cada uma carrega informação; descritores vazios só ocupam memória de trabalho.

Se o banco for internacional, evite ancorar o caso em provas, leis ou jargão de um único país como se fossem universais. Idade e achados clínicos viajam melhor do que siglas locais. Quando um contexto de sistema de saúde for necessário, explique em uma frase o que o estudante precisa saber para o raciocínio ("sem acesso regular a insulina este mês"), em vez de pressupor que toda a turma conhece o mesmo arranjo institucional.

Representação importa no conjunto do banco, não só em cada vinheta isolada. Um único caso "diverso" no meio de noventa aberturas homogêneas não corrige o currículo oculto. Planeje o portfólio: quem aparece, quem decide, quem cuida, quem é especialista. Isso é trabalho de curadoria tanto quanto de redação de um caso.

Clareza e estrutura: acessibilidade do texto

Inclusão também é legibilidade. Princípios da ciência da aprendizagem aplicados à educação médica pedem reduzir carga extrínseca: o que não ensina atrapalha (Mayer, 2010). No caso escrito, carga extrínseca é frase de 80 palavras, jargão sem necessidade, ordem temporal confusa e informação crítica só em imagem sem texto alternativo.

Boas práticas de texto acessível no caso:

  • Frases curtas; uma ideia por frase quando o achado for decisivo.
  • Ordem temporal explícita ("há 3 dias", "piora à noite"), não flashback sem marcador.
  • Achados em texto real, não só em figura; se houver imagem, descreva o essencial no corpo.
  • Evite depender só de cor tipográfica (vermelho = urgente) sem palavra.
  • Nomes e termos estáveis: se chamou de "dor em queimação", não troque por "ardor" sem motivo.
  • Listas ou blocos para sinais vitais e exames, em vez de parágrafo único denso.

Quem usa leitor de tela ouve o caso na ordem do DOM. Títulos, listas e texto alternativo importam tanto quanto a fisiopatologia. Quem amplia a tela precisa de contraste e de palavras, não de badge colorido. Esses cuidados se alinham ao espírito de acessibilidade digital em softwares médicos e de tecnologia assistiva visual, aplicados ao artefato "vinheta". O fluxo completo de um caso jogável com leitor de tela percorre pista a pista; a acessibilidade cognitiva cobre carga e linguagem da vinheta. Aqui o mínimo é: o caso precisa existir como texto estruturado.

Feedback depois do caso também herda a linguagem. Se a explicação repete o estereótipo da abertura, o dano se confirma. Prefira o padrão de feedback útil em casos clínicos: critério, evidência, próximo passo. Sem adjetivos de caráter.

Checklist rápido de acessibilidade textual antes de publicar o caso: (1) o HTML ou o markdown tem headings reais, não só negrito; (2) listas de vitais e exames estão em lista, não em parede de texto; (3) cada imagem tem texto alternativo útil; (4) nenhum significado depende só de cor; (5) abreviações pouco comuns aparecem por extenso na primeira vez; (6) a língua do caso é a língua da interface do estudante. Se o caso for traduzido, revise a demografia e os adjetivos na língua de destino: estereótipo também se traduz.

Clareza não é simplismo. Você pode manter termos técnicos precisos ("hiperpotassemia", "anion gap") e ainda assim escrever frases curtas. O que se corta é o ornamento e o julgamento. O estudante de Medicina precisa do léxico clínico; não precisa do vernáculo moral do plantão.

Máquina de escrever preta sobre mesa de escritório, com papéis e tomadas à vista
Texto estruturado, revisado e reescrito: a vinheta inclusiva nasce de edição, não de inspiração única. Crédito: Fortepan / ID 2201, Domínio público, via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Tabela: antes e depois

Use a tabela ao revisar um caso seu, de liga ou de banco. Os exemplos são fictícios e servem só de contraste linguístico.

ProblemaAntes (evitar)Depois (preferir)Por quê
Doença como identidade"Diabético de 54 anos, não aderente""Pessoa de 54 anos com diabetes tipo 2; relata dificuldade em obter insulina este mês"Condição + barreira, sem moral
Julgamento de humor"Paciente histérica na emergência""Pessoa de 28 anos, agitada, fala acelerada, refere medo de morrer"Achado observável
Deficiência como obstáculo"Cadeirante difícil de examinar""Pessoa que usa cadeira de rodas; precisa de mesa de exame ajustável"Ajuste, não adjetivo
Raça como dica vazia"Homem negro com dor torácica" (sem mais)Inclua raça só se o objetivo for inequidade, prevalência contextualizada ou viés a discutir; senão, descreva a dor e os fatores de risco clínicosPropósito explícito
Gênero estereotipado"Mãe preocupada traz o filho; pai ausente"Varie quem acompanha; se o cuidador importa, diga o papel sem moralCurrículo oculto
Texto inacessívelAchado crítico só em imagem vermelhaAchado em texto + imagem com descriçãoLeitor de tela e CVD

Depois de editar, leia o caso em voz alta ou com leitor. Se você hesita num adjetivo, ele provavelmente é julgamento. Se a demografia sumir e o diferencial permanecer idêntico, a demografia era ruído.

Como o NEXO entra

O NEXO é a plataforma em que você joga o caso do dia e em que creators publicam casos fictícios com apresentação clínica real. O Curator apoia a curadoria e a organização do material clínico de ensino. O fluxo de Creators é o caminho de quem escreve e envia casos para a comunidade. Ferramentas como Closer e Researcher entram no ecossistema de estudo e consulta de evidência conforme o produto descreve; este post não afirma resultado de aprendizagem.

Para quem escreve no ecossistema NEXO, a regra prática espelha este guia: até seis pistas; linguagem sem julgamento; demografia com propósito; texto estruturado. A página /accessibility declara recursos de acessibilidade da interface (incluindo independência de cor em sinais de proximidade, entre outros). Acessibilidade do texto do caso e acessibilidade da interface se somam: uma vinheta estigmatizante num app acessível ainda ensina mal.

Se você está conhecendo a plataforma, o post o que é o NEXO situa o jogo diário de diagnóstico. Limites de uso, quando relevantes, estão em /economia. Nada aqui é reivindicação de eficácia.

Para o creator, o ciclo sugerido é: rascunho clínico, passagem pelo checklist deste post, revisão por segundo leitor, ajuste de pistas (até seis), publicação no fluxo de Creators, e atenção ao feedback da comunidade sem transformar comentário hostil em "prova" de que linguagem inclusiva atrapalha. Linguagem inclusiva atrapalha só o atalho. O raciocínio clínico continua no centro.

Mãos sobre página em braile de um livro aberto, dedos acompanhando as linhas em relevo
O caso precisa existir como texto estruturado para chegar a quem lê por toque, por áudio ou por ampliação. Crédito: fotoblasete, CC BY 2.0 (licença), via Wikimedia Commons (página do arquivo).

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre este guia e "como escrever um caso clínico para ensino"?

Aquele post cobre o método geral: objetivo pedagógico, matéria-prima, dosagem de pistas, formato e revisão. Este cobre inclusão e acessibilidade na escrita: linguagem da deficiência, estereótipos, demografia com propósito e texto legível. Os dois se complementam; comece pelo método se ainda não tem o esqueleto do caso.

Devo sempre usar linguagem centrada na pessoa?

Como ponto de partida, sim, quando não souber a preferência. Em surdez e autismo, muitas pessoas e comunidades preferem linguagem de identidade. Em material genérico, declare a escolha ou alterne com nota pedagógica. O critério é respeito à comunidade citada, não moda.

Posso citar raça no caso?

Sim, quando houver propósito clínico, epidemiológico contextualizado ou pedagógico explícito (por exemplo discutir inequidade ou viés). Não use raça como única dica disfarçada de diferencial. Revise se a frase sobreviveria sem o descritor racial.

Como evitar "paciente difícil" sem perder realismo?

Descreva comportamento e contexto ("recusa o exame até que a dor seja tratada", "precisa de intérprete"). Realismo clínico não exige adjetivo moral. Casos fictícios com apresentação clínica real ganham força com precisão, não com caricata.

O que muda para quem usa leitor de tela?

Ordem do texto, títulos, listas e alternativas textuais a imagens. Se o achado crítico está só numa figura colorida, parte da turma não recebe a pista. Estruture o caso como documento, não como slide decorativo.

Creators no NEXO precisam seguir este checklist?

É a referência editorial recomendada para quem escreve casos fictícios com apresentação clínica real no fluxo de Creators, alinhada à curadoria do Curator. A plataforma declara recursos em /accessibility. Este texto não avalia desempenho de casos publicados.

Checklist final

  • Objetivo pedagógico claro (o que o estudante deve praticar).
  • Nenhum adjetivo de moral, humor ou "dificuldade" no lugar de achado.
  • Condição em linguagem centrada na pessoa, salvo preferência de identidade da comunidade.
  • Idade, gênero, raça, classe e deficiência só com propósito; senão, remover.
  • Papéis de cuidado e profissões variados, sem molde único de gênero.
  • Frases curtas, ordem temporal explícita, achados em texto.
  • Imagens com descrição textual do essencial.
  • Até seis pistas; cada uma informa o diferencial.
  • Feedback sem repetir estereótipo da abertura.
  • Revisão por segunda pessoa (preferencialmente alguém da comunidade representada, quando o caso a centra).

Jogue o caso do dia no NEXO. Se você escreve casos, use este checklist antes de enviar pelo fluxo de Creators.

Referências

  1. Carey-Ewend K, et al. Use of Sociodemographic Information in Clinical Vignettes of Multiple-Choice Questions for Preclinical Medical Students. Med Sci Educ. 2023. PMID 37501800.
  2. Arsever S, et al. A gender biased hidden curriculum of clinical vignettes in undergraduate medical training. Patient Educ Couns. 2023. PMID 37595505.
  3. Taboas A, Doepke K, Zimmerman C. Preferences for identity-first versus person-first language in a US sample of autism stakeholders. Autism. 2023. PMID 36237135.
  4. Bottema-Beutel K, et al. Avoiding Ableist Language: Suggestions for Autism Researchers. Autism Adulthood. 2021. PMID 36601265.
  5. Bowen L, et al. Dismantling Ableism in Undergraduate Medical Education: Promising Practices in Disability-Conscious Training. Teach Learn Med. 2026. PMID 39964131.
  6. Bakkum MJ, et al. Using artificial intelligence to create diverse and inclusive medical case vignettes for education. Br J Clin Pharmacol. 2024. PMID 38016816.
  7. Haider AH, et al. Association of unconscious race and social class bias with vignette-based clinical assessments by medical students. JAMA. 2011. PMID 21900134.
  8. Iezzoni LI, et al. Physicians' Perceptions Of People With Disability And Their Health Care. Health Aff. 2021. PMID 33523739.
  9. Amutah C, et al. Misrepresenting Race - The Role of Medical Schools in Propagating Physician Bias. N Engl J Med. 2021. PMID 33406326.
  10. Goddu AP, et al. Do Words Matter? Stigmatizing Language and the Transmission of Bias in the Medical Record. J Gen Intern Med. 2018. PMID 29374357.
  11. Park J, et al. Physician Use of Stigmatizing Language in Patient Medical Records. JAMA Netw Open. 2021. PMID 34259849.
  12. George S, et al. Examining Inclusive Language in Clinical Narratives in Medical Biochemistry Textbooks to Model Equitable Patient-Centered Care in Preclinical Undergraduate Medical Education. Med Sci Educ. 2024. PMID 38887417.
  13. Mayer RE. Applying the science of learning to medical education. Med Educ. 2010. PMID 20604850.
  14. NIH Style Guide. Person-first and Destigmatizing Language. nih.gov.
  15. National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine. Improving Diagnosis in Health Care. Washington, DC: National Academies Press; 2015. nap.nationalacademies.org.

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