O relatório Flexner e a história da educação médica

Sumário
Ciclo básico com anatomia, fisiologia e bioquímica nos primeiros anos. Laboratórios. Hospital universitário. Professores que também pesquisam. Exigência de formação prévia para entrar. Quase tudo o que um estudante de Medicina considera natural no curso tem uma história, e boa parte dela passa por um documento publicado em 1910 nos Estados Unidos: o relatório de Abraham Flexner.
O NEXO é um jogo diário de diagnóstico médico: um caso clínico por dia, seis pistas progressivas e feedback por proximidade na CID-10 em cinco níveis.
Mais de um século depois, o relatório continua a ser citado como marco e como alvo de críticas. Este guia conta o que Flexner encontrou nas escolas médicas, o que mudou depois do relatório, que críticas o modelo recebeu, como ele chegou ao Brasil e o que dele ainda está presente no seu curso.
Principais pontos
- Flexner visitou 155 escolas médicas nos Estados Unidos e no Canadá entre 1908 e 1910.
- O número de escolas já vinha caindo antes do relatório e caiu ainda mais na década seguinte.
- Flexner se apoiou em padrões criados antes por associações médicas e conselhos estaduais.
- O modelo foi criticado por dar pouco peso à saúde pública e à comunidade, embora o próprio relatório tratasse delas.
- O curso de Medicina no Brasil, com seis anos e ciclo básico seguido de ciclo clínico, carrega essa influência.
Antes do relatório
Escolas demais, formação de menos
No fim do século 19, os Estados Unidos tinham muitas escolas médicas pequenas, várias delas privadas e com fins lucrativos, sem laboratórios, sem hospital próprio e com exigências de ingresso mínimas. Uma revisão histórica lembra que a maioria dos médicos da época não estava preparada para adotar os avanços recentes da medicina por causa da formação fraca (Barzansky, 2010).
A reforma já tinha começado
Flexner não começou a reforma sozinho. Nos 20 anos anteriores ao relatório, o conselho de saúde do estado de Illinois, a associação médica americana e a associação das faculdades de Medicina já tinham avaliado escolas com padrões definidos e identificado muitas das deficiências (Barzansky, 2010). O número de escolas já vinha caindo, de 160 em 1905 para 133 em 1910 (Barzansky, 2010).
O modelo de Johns Hopkins
A escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, era a referência do movimento: exigia formação universitária prévia, integrava ensino, pesquisa e hospital próprio e tinha professores dedicados à vida acadêmica. Foi esse modelo que Flexner tomou como padrão para as demais.
O que Flexner fez
Um educador, não um médico
Abraham Flexner era educador, e não médico. A Fundação Carnegie para o Avanço do Ensino o encarregou de avaliar as escolas médicas da América do Norte. O relatório foi publicado em 1910 com o título "Medical Education in the United States and Canada".
As visitas
Flexner visitou 155 escolas médicas nos Estados Unidos e no Canadá entre dezembro de 1908 e abril de 1910 (Barzansky, 2010). Ele se apoiou bastante, mas não apenas, nos padrões já desenvolvidos pelas outras organizações (Barzansky, 2010).
O que o relatório trazia
O relatório tinha duas partes: um modelo conceitual de como a educação médica moderna deveria funcionar e uma descrição de cada escola, com elogios e críticas explícitos (Barzansky, 2010). Os pontos centrais do modelo eram exigência de formação científica prévia, ensino das ciências básicas em laboratório, prática clínica em hospital ligado à universidade e professores que também fizessem pesquisa.
Uma filosofia por trás
Uma análise recente lembra que Flexner dedicou uma parte grande do relatório a uma explicação teórica do tipo de medicina que defendia, baseada na filosofia pragmatista de John Dewey (Heinbokel, 2024). Nessa visão, o médico seria ao mesmo tempo investigador e praticante, num paradigma experimental com identidade social, cultural e ética (Heinbokel, 2024). Essa parte do relatório costuma ser esquecida pelos comentários que se concentram só no impacto administrativo.
O que mudou depois
Menos escolas, mais exigências
Na década seguinte ao relatório, o número de escolas médicas caiu de 133 para 85, e a decisão dos conselhos estaduais de não reconhecer escolas fracas selou o destino delas (Barzansky, 2010). As escolas que permaneceram passaram a ter exigências de ingresso mais altas (Barzansky, 2010).
O curso que conhecemos
A partir daí se consolidou o desenho que ainda é familiar: ciências básicas primeiro, depois a clínica em hospital universitário; professores em tempo integral; laboratório como lugar de aprendizagem; pesquisa como parte da missão da escola. Em muitos países, esse desenho virou sinônimo de boa formação médica.
Um século depois
Às vésperas do centenário, uma revisão no New England Journal of Medicine analisou o que mudou e o que permaneceu na educação médica americana cem anos depois do relatório (Cooke et al., 2006). A conclusão geral dessas análises é que o modelo trouxe rigor científico e padronização, e que as necessidades de saúde do século 21 pedem ajustes que Flexner não podia prever.

As críticas ao modelo
Saúde pública esquecida?
Como o relatório defendia rigor científico e padronização, ele passou a ser visto como pouco atento à saúde pública (Maeshiro et al., 2010). Uma releitura feita no centenário mostra que o próprio Flexner defendia pelo menos três princípios ligados à saúde pública (Maeshiro et al., 2010). Eram eles: a formação, a qualidade e o número de médicos devem atender às necessidades da população; os médicos têm obrigações sociais de prevenir doenças e promover saúde; e a colaboração entre medicina acadêmica e saúde pública beneficia as duas (Maeshiro et al., 2010).
Hospital demais, comunidade de menos
A crítica mais repetida é que o modelo concentrou o ensino no hospital e na doença, com pouco espaço para a atenção primária, a comunidade e os determinantes sociais da saúde. Também se aponta a separação rígida entre ciclo básico e ciclo clínico, que deixa o estudante anos sem contato com pacientes.
Uma nova geração de reformas
Em 2010, uma comissão internacional publicada na revista The Lancet revisitou a formação dos profissionais de saúde no centenário do relatório (Frenk et al., 2010). A comissão descreveu três gerações de reformas: a científica, inaugurada por Flexner; a baseada em problemas; e uma terceira, voltada aos sistemas de saúde e às necessidades da população, que ela propôs adotar (Frenk et al., 2010).
Expansão sem regulação
Em outros contextos, a lição de Flexner é lida ao contrário: a falta de padrões. Uma análise sobre o sul da Ásia descreveu regulação fraca, pouco financiamento público e crescimento explosivo de escolas privadas, com currículos estagnados e pouca exposição clínica (Amin et al., 2010). Os autores defendem padrões de acreditação mais fortes, exatamente como Flexner defendia em 1910 (Amin et al., 2010).
Flexner no Brasil e no mundo
O curso de seis anos
Uma análise da educação médica brasileira lembra que, como na maioria dos países europeus e sob influência do relatório Flexner, o curso de Medicina no Brasil dura seis anos (Antunes dos Santos e Nunes, 2019). Os autores descrevem o movimento recente de passar de um ensino centrado no professor e no hospital para um ensino centrado no estudante e na comunidade, com grande variação entre as escolas (Antunes dos Santos e Nunes, 2019).
Expansão e acreditação no Brasil
O mesmo artigo descreve o crescimento rápido do número de escolas médicas no país e o alerta de professores sobre os riscos de abrir cursos sem tempo para preparar docentes, currículos e estrutura (Antunes dos Santos e Nunes, 2019). Em resposta, foi criado um sistema independente de acreditação reconhecido pela Federação Mundial de Educação Médica (Antunes dos Santos e Nunes, 2019). A pergunta de Flexner, sobre que padrões uma escola precisa cumprir, continua atual.
O exemplo da Coreia
Na Coreia do Sul, o debate sobre a ampliação de vagas em Medicina reacendeu o interesse pelo relatório, cuja influência moldou o currículo, a acreditação e a ênfase acadêmica das escolas do país (Yoon e Myung, 2024). Os autores colocam o dilema em termos que soam familiares: formar mais médicos para o atendimento prático ou manter a ênfase na medicina acadêmica (Yoon e Myung, 2024).
O que isso tem a ver com o seu curso
O que vem de Flexner
O ciclo básico com laboratório, o hospital universitário, a valorização da pesquisa e a exigência de padrões mínimos para as escolas têm raiz direta no modelo. Quando um professor insiste em que você entenda o mecanismo antes de decorar a conduta, ele está seguindo uma tradição que o relatório ajudou a firmar.
O que veio depois
A inserção desde cedo na comunidade, a aprendizagem baseada em problemas, a integração entre ciclos e a avaliação por competências, inclusive as atividades profissionais confiáveis que têm guia próprio nesta série, são respostas às limitações do modelo. Elas não apagam Flexner; constroem em cima dele.
O que não está escrito
Parte do que o curso ensina vem de valores e hábitos que nenhum currículo registra, como a hierarquia entre especialidades ou o prestígio do hospital sobre a atenção primária. Esse currículo oculto tem guia próprio nesta série, e parte dele é herança do modelo centrado no hospital.
Como usar essa história
Conhecer a origem do currículo ajuda a entender por que ele é como é e o que pode mudar. Ao discutir reformas na sua faculdade, em ligas ou em centros acadêmicos, vale perguntar o que se quer preservar do rigor científico e o que precisa se abrir para a comunidade e o sistema de saúde.
Raciocínio clínico no século 21 com o NEXO
Flexner queria médicos que pensassem como cientistas diante de cada paciente. O caso do dia do NEXO é fictício, com apresentação clínica real, e o diagnóstico chega em até seis pistas, com a proximidade na CID-10 mostrando a que distância cada palpite ficou. Formular hipóteses, testá-las com novas informações e revisá-las é o mesmo exercício, em formato curto.
O guia o que é o NEXO explica a partida inteira, e a liberação dos modos está na página de economia do NEXO.
Se você coordena uma faculdade, uma liga ou uma residência e quer casos para o currículo, conheça o NEXO Closer. Pesquisadores em educação médica podem propor estudos pelo NEXO Researcher. Médicos que revisam casos participam pelo NEXO Curator, e quem cria conteúdo de saúde nas redes pode participar pelo NEXO Creators.
Perguntas frequentes
O que foi o relatório Flexner?
Uma avaliação das escolas médicas dos Estados Unidos e do Canadá, publicada em 1910, que propôs um modelo de educação médica baseado em ciência e descreveu cada escola visitada (Barzansky, 2010).
Flexner era médico?
Era educador, e não médico. O trabalho foi encomendado pela Fundação Carnegie.
O relatório fechou escolas?
Ele acelerou uma queda que já vinha acontecendo; os conselhos estaduais, ao negar reconhecimento a escolas fracas, selaram o destino delas (Barzansky, 2010).
Flexner ignorava a saúde pública?
Uma releitura do relatório encontrou princípios de saúde pública no próprio texto (Maeshiro et al., 2010).
O curso brasileiro segue Flexner?
O curso de seis anos tem essa influência, e as reformas recentes buscam mais foco no estudante e na comunidade (Antunes dos Santos e Nunes, 2019).
O que veio depois de Flexner?
Reformas baseadas em problemas e, mais recentemente, voltadas aos sistemas de saúde (Frenk et al., 2010).
Linha do tempo resumida
- Fim do século 19: muitas escolas pequenas e privadas, com formação fraca.
- 1905 a 1910: associações e conselhos avaliam escolas; o número delas começa a cair.
- 1908 a 1910: Flexner visita as escolas dos Estados Unidos e do Canadá.
- 1910: publicação do relatório pela Fundação Carnegie.
- Década seguinte: escolas fracas fecham e as exigências sobem.
- Segunda metade do século 20: aprendizagem baseada em problemas e inserção na comunidade.
- 2010: centenário e propostas de reforma voltadas aos sistemas de saúde.
Quer exercitar o raciocínio que Flexner defendia? Jogue o caso do dia no NEXO.
Referências
- Barzansky B. Abraham Flexner and the era of medical education reform. Acad Med. 2010. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20736546/
- Heinbokel T. The Pragmatist roots of scientific medicine: Reassessing Abraham Flexner's report on medical education. Stud Hist Philos Sci. 2024. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39029139/
- Cooke M, Irby DM, Sullivan W, Ludmerer KM. American medical education 100 years after the Flexner report. N Engl J Med. 2006. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17005951/
- Maeshiro R, Johnson I, Koo D, Parboosingh J, Carney JK, Gesundheit N, et al. Medical education for a healthier population: reflections on the Flexner Report from a public health perspective. Acad Med. 2010. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20107345/
- Frenk J, Chen L, Bhutta ZA, Cohen J, Crisp N, Evans T, et al. Health professionals for a new century: transforming education to strengthen health systems in an interdependent world. Lancet. 2010. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21112623/
- Amin Z, Burdick WP, Supe A, Singh T. Relevance of the Flexner Report to contemporary medical education in South Asia. Acad Med. 2010. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20107364/
- Antunes dos Santos R, Nunes MDPT. Medical education in Brazil. Med Teach. 2019. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31282823/
- Yoon HB, Myung SJ. The Impact and Implications of the Flexner Report on Medical Education in Korea. J Korean Med Sci. 2024. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38859740/